PROVOCAÇÕES

Joanna Maranhão é alvo de ataques do clã Bolsonaro

Carlos Bolsonaro, filho do presidenciável, distorceu o que a nadadora comentou sobre pedofilia

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Nadadora já contribuiu na elaboração de um projeto de Lei sobre abuso sexual de crianças / Arquivo pessoal

A nadadora pernambucana Joanna Maranhão, que disputou as Olimpíadas de 2004 e 2008 e conquistou medalhas nos Jogos Panamericanos de 2003, 2007, 2011 e 2015, foi alvo na semana passada de ataques de Carlos Bolsonaro e seus seguidores. O vereador do Rio de Janeiro distorceu a opinião que Maranhão colocara em sua conta na rede de microblogs Twitter. O assunto: pedofilia.

Teve início quando, no último dia 14 a nadadora rebateu um comentário do apresentador Danilo Gentili sobre pedofilia. Joanna disse que o tema é complexo e que pedofilia e abuso sexual não deveriam ser confundidos. “É tão mais profundo que isso. Nem todo pedófilo comete abusos e nem todo abusador é pedófilo. […] E abuso sexual de menor não tem espectro político”, iniciou, também criticando o uso político do tema.

A nadadora se referia ao fato de que a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a pedofilia como doença, um “transtorno de preferência sexual”. E que ter essa preferência, “ser pedófilo”, não significa que a pessoa vai buscar satisfação sexual com crianças, já que essa pessoa pode controlar seus desejos. Em resumo: ser pedófilo é ter preferência sexual por crianças, o que é uma doença, mas abusar sexualmente de crianças não é doença, mas crime, o de abuso sexual de crianças.

O político conservador se aproveitou para simplificar de maneira grosseira e falsa: “Filiada ao PSOL defende que nem toda pedofilia é abuso”. E centenas de seguidores de Bolsonaro passaram a atacar a nadadora nas redes sociais.

Joanna também criticou a tentativa, por parte de alguns políticos, de se utilizar do debate da pedofilia para ganhar votos. “O debate sobre abuso sexual de menores tem que sair do espectro político. Qualquer pessoa que tenta colocar a situação para ‘um lado’ está sendo desonesta. [A pedofilia] não tem classe, não tem espectro político, não tem crença. Ocorre majoritariamente dentor da família (67% dos casos). Debater esse tema é muito profundo para 280 caracteres. E a tentativa de polarizar politicamente é extremamente absurda. […]”, escreveu Joanna.

Em 2008, aos 20 anos, Maranhão decidiu revelar que havia sido abusada sexualmente aos 9 anos de idade pelo seu então treinador. O caso teve grande repercussão e levou, em 2009, o Senado Federal a alterar o Código Penal Brasileiro para que o prazo de prescrição do crime de abuso sexual de crianças e adolescentes fosse contado apenas a partir de quando a vítima completa 18 anos de idade. Aprovado na Câmara Federal em 2012, o projeto ficou conhecido como Lei Joanna Maranhão. Em 2014 ela fundou a organização não-governamental Projeto Infância Livre, para atuar na prevenção ao abuso sexual de crianças e adolescentes, além de dar suporte às vítimas.

Edição: Vinícius Sobreira