Povos ancestrais

Centro de tratamento indígena em Manaus derruba preconceito e une ciências medicinais

O Kumu é o especialista em conhecimento dos princípios curativos, que são tão complexos quanto os da medicina ocidental

Brasil de Fato | Belém (PA)

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O centro presta atendimento a indígenas e não indígenas e é uma proposta é aliar a medicina ocidental com os conhecimentos ancentrais / Alberto César Araújo/Amazônia Real

Há um ano foi inaugurado o primeiro centro de medicina dos povos indígenas do Alto Rio Negro do Amazonas, o Bahserikowi’i, bem no centro de Manaus, a capital do estado. E está servindo para combater o preconceito.

O atendimento para o tratamento de doenças é realizado pelos Kumuã (plural de Kumu em língua Tukano), especialistas no conhecimento de plantas medicinais e Bahsese, o chamado ‘benzimento’ no senso comum.

O Kumu seria a figura do pajé para o não indígena. Aliar tratamentos da medicina ocidental com outras especialidades, ditas como alternativas, tem sido comum na medicina e é essa a proposta do centro Bahserikowi’i.

No entanto, o projeto de abrir um espaço para que as pessoas possam conhecer outras formas de cura partiu de um caso de preconceito e racismo contra a sabedoria dos povos originários.

Em 2009, a sobrinha do antropólogo e idealizador do projeto João Barreto, 45 anos, ambos da etnia Tukano, quase teve o pé amputado por causa de uma picada de cobra.

Ela tinha 12 anos e o ataque aconteceu na comunidade de São Domingos, no município de São Gabriel da Cachoeira. No primeiro momento ela foi atendida no hospital da Guarnição, sede do município. Mas, o caso era grave e a  menina foi transferida para o hospital João Lúcio, em Manaus. Lá a equipe médica avaliou que seria necessário amputar o pé da paciente.

Porém, a família de Barreto não aceitou. Para eles, era difícil compreender um procedimento médico que retira parte do corpo. Foi então que a família da menina começou a mobilizar a equipe médica para não tomar essa medida e propuseram aliar o tratamento da medicina ocidental com medicina tradicional indígena, o que não foi aceita pela equipe médica.

“Essa proposta não foi aceita de modo algum. Em nenhum momento a equipe medica quis dialogar com a gente, por mais que os nossos direitos fossem garantidos na Constituição, daí mobilizamos o Ministério Público Federal. E mesmo com as recomendações do Ministério Público Federal, o médico e a equipe médica do hospital não quiseram ceder e fazer essa experiência de tratamento conjunto”, recorda.

Ele conta que a família  tirou a menina do hospital e a levou para uma casa de apoio na capital, onde passou a receber tratamento dos Kumuã. Após alguns dias, o hospital Universitário Getúlio Vargas aceitou fazer o tratamento conjunto e a menina foi transferida.

Os médicos haviam estimado que o tratamento levaria em torno de seis meses, mas ela teve alta em um mês, o que surpreendeu a equipe do hospital.

Preconceito

O pai de Barreto, Ovídio Lemos Barreto, é Kumu. O antropólogo lembra que, na época, um médico do hospital João Lúcio disse para seu pai que “ele [médico] havia estudado oito anos para decidir o que era melhor para a neta dele, enquanto que ele não tinha estudado nem um dia sequer”.

O episódio fez Barreto transformar o preconceito que sua família sofreu em aprendizado para os não indígenas e diz que o “conhecimento indígena é tão complexo quanto o conhecimento ocidental”.

“Então nesse momento eu optei para trabalhar como e qual seria a melhor forma de mostrar para a sociedade como se opera o conhecimento indígena. Como o conhecedor, o especialista que vocês chamam de pajé, articula as coisas, tanto as plantas medicinais quanto os benzimentos, que nós chamamos de Bahsese”, ressalta.

A falta de conhecimento e respeito à cultura dos povos indígenas faz com que o centro de medicina seja procurado como ponto turístico. As pessoas pensam que irão encontrar uma cena folclórica, como argumenta Ivan Menezes Barreto, 28 anos, tukano e colaborador na construção do projeto.

 “Muita gente vem aqui no centro querendo saber se o pajé está de saia, está de cocar, colar, ele vai fazer ritual dançando, rebolando como um pajé folclórico de Parintins [cidade onde ocorre o festival de boi bumba], mas não é (…) não existe isso, o pajé, o conhecimento, dele está dentro dele”, sustenta.

Ivan ainda conta que existe confusão, o que gera preconceito, com a medicina indígena, pois muitos relacionam a algum tipo de religião e, por isso, demonizam a cultura ancestral.

Ovídio Barreto faz atendimento no centro de medicina indígena  / Foto: João Barreto

O kumu Ovídio, 80 anos, atende no centro e para ele na medicina o tratamento para curas de doenças não faz diferença entre indígenas ou não indígenas.  

“Quando se trata de doenças não existe diferença entre indígenas e não indígenas, ao fazer Bahsese, ou benzimento para não indígenas eu articulo os mesmos princípios que faço com um indígena, aliás os não indígenas são fáceis de serem curados pelos Bahsese ou benzimentos, porque desde o princípio nosso demiurgo, ou nosso criador, nos deixou todo o conjunto de conhecimento para viver bem aqui no terra, ele próprio é Bahsese, ou benzimento, fonte de cura, por isso o Bahsese tem poder de curar, pois o que eu faço é só invocar os princípios curativos e protetivos, dessa forma o Bahsese pode ser feito tanto para os indígenas quanto para os não indígenas e o efeito é o mesmo”.

Medicina

"A gente começou a perceber que outros povos têm medicina, por exemplo, os asiáticos, os indianos, os japoneses, só índio que não tem medicina", João Barreto, indígena Tukano / Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real

Barreto, que atualmente é doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), explica que o debate sobre o real significado da medicina levou à criação do projeto. A cultura dos povos indígenas, em suas diversas etnias, possui sua própria lógica de organização, algo inerente de uma sociedade complexa.

 “A gente começou a perceber que outros povos têm medicina, por exemplo, os asiáticos, os indianos têm sua medicina, os japoneses têm sua medicina, só índio que não tem medicina. Me parece que começam a criar esses vários conceitos para entender os nossos conhecimentos, então quando nós colocamos o termo medicina foi contrapor essa lógica de estar conceituando o nosso conhecimento condensado”, justifica.

Outro aspecto que o centro Bahserikowi’i carrega em seu cerne é contrapor a política nacional de saúde direcionado aos indígenas com o intuito, a partir dessa experiência, mobilizar diversas lideranças indígenas para que o Kumu, ou pajé, possa fazer parte da equipe multidisciplinar que compõe os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), uma política pública que faz parte descentralizada do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), algo, que segundo Barreto logo será implementada.

“Muitas lideranças e associações já tem o centro como referência, uma iniciativa inovadora que não está nesses grilhões de conceitos ocidentais, mas tentando mostrar a partir da nossa lógica o que é doença, saúde e seu tratamento pela lógica indígena”, argumenta.

Essa lógica, como relata Barreto, é perceber que as doenças são influenciadas por um conjunto de fatores emocionais e ambientais, logo o tratamento não se restringe, tão somente, ao cuidado do corpo.

A experiência implementada em Manaus vem fortalecendo e incentivando jovens indígenas. Três deles, que moram em São Gabriel da Cachoeira, estão se preparando para, no futuro, atender no centro. Daqui a três meses, eles estarão se formando no modelo indígena e poderão atender as pessoas.

Ainda segundo Barreto a procura pelo centro tem aumentando, sobretudo por mulheres não indígenas, entre 30 a 60 anos. O centro não recebe financiamento governamental ou não governamental. O prédio pertence à Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e foi cedido para o projeto.

Os Kumuã quando vão à cidade se disponibilizam para realizar o atendimento. Para manter a estrutura é cobrado uma taxa, de acordo com o grau do tratamento. O centro funciona de segunda-feira e sexta-feira, das 8h às 17h, e no sábado, das 8h às 12h.





 

Edição: Juca Guimarães