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Iná Camargo: "classe trabalhadora é capaz de forjar um futuro para a humanidade"

Pesquisadora é uma das organizadoras da obra do intelectual russo Anatoli Lunatchárski lançada pela Expressão Popular

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Iná Camargo Costa, referência para os estudos sobre Bertolt Brecht e o teatro épico no Brasil / Paulo Guimarães

No mês de julho, a editora e livraria Expressão Popular lança o livro  “Revolução, arte e cultura”, do dramaturgo e militante russo Anatoli Lunatchárski, falecido há 86 anos. Com bibliografia escassa no Brasil, a obra do intelectual traz reflexões sobre a importância da intersecção entre arte e política, e o processo de organização da classe trabalhadora. O lançamento faz parte do Clube do Livro, iniciativa da editora que possibilita que os leitores se associem e recebam, todo mês, um novo lançamento.

Para entender a obra do intelectual, pouco falado no Brasil, mas de grande importância na Revolução de Outubro de 1917, a Rádio Brasil de Fato conversou com Iná Camargo Costa, professora aposentada da Universidade de São Paulo (USP), autora de diversos ensaios e livros sobre o teatro, assessora da Setor de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) há quase 15 anos e, também, uma das organizadoras do livro.

Confira a íntegra da entrevista:

Brasil de Fato —  Anatoli Lunatchárski foi militante social-democrata russo, fez parte do movimento revolucionário e ocupou cargos importantes no processo de ascensão da classe trabalhadora. O que devemos saber sobre ele?

Iná Camargo Costa — Ele integra o Partido Social Democrata dos Trabalhadores Russos desde o fim do século 19 e participou de todos os grandes movimentos, chegou a ser preso e condenado várias vezes e sempre vinculou a luta política com a luta cultural. Assim ele é conhecido nessa história.

Lunatchárski fez parte do chamado Proletkult, que significa “cultura proletária”, um movimento literário russo da época da Revolução. Na obra “Revolução, arte e cultura”, temos a oportunidade de conhecer um pouco do que ele pensava sobre cultura e educação dentro do processo de transformação social. Qual é a história que adentramos neste livro? 

Essa pergunta precisa de uma resposta em duas partes. A primeira é que justamente pelo empenho no front cultural, ele é o fundador do Proletkult. Quando foi fundado, uma semana antes da Revolução de Outubro, Lunatchárski foi eleito como integrante do Comitê Central do Proletkult. É o movimento de luta que operou pelo menos até 1921 e, nesta altura, chegou a ter 400 mil integrantes.

A segunda parte é que, na Revolução, que oficialmente foi no dia 26 de outubro de 1917, ele foi indicado e eleito para integrar o Narkompros, Comitê ou Comissariado para a Comunicação, as Artes e a Cultura e, nesta condição, ajudou a planejar todas as atividades de educação, cultura e artes. É uma coisa impressionante o trabalho dele. No livro, tem pelo menos quatro textos sobre esta questão do debate cultural que aconteceu durante a Revolução.

Qual importância que o teatro e a cultura adquiriram na Revolução Russa?

O teatro é uma coisa impressionante. Ele permitiu à classe trabalhadora tomar a palavra em cena — e este ponto para mim é fundamental. No caso do teatro que o Lunatchárski defendia — porque ele não separava a atividade artística das atividades de propaganda e agitação, que depois se chamaram agitprop. Ele foi integrante do Conselho Militar Revolucionário da República Russa e, nesta função, ajudou a planejar as ações culturais e educacionais do Exército Vermelho.

No livro, nós temos pelo menos duas grandes contribuições dele para se entender e esta é a tese fundamental do Lunatchárski: a cultura proletária é um processo dialético de apropriação e superação da cultura burguesa. Isso quer dizer que não vamos jogar fora, nada do que já existe de disponível em matéria de arte, ciência ou cultura. Toda essa herança deve ser apropriada pela classe trabalhadora e, no ato de se apropriar, ela já coloca a sua própria experiência. 

A experiência dos trabalhadores é a da organização, do trabalho coletivo, da camaradagem, do companheirismo, do altruísmo. Tudo isso como crítica ao individualismo, às ambições pessoais e personalistas etc. Esse era o ponto central da intervenção de Lunatchárski e no livro tem textos sobre esse assunto.

Nos tempos que estamos vivendo, com uma crise política e social, eleições decisivas se aproximando no país, e de busca de valorização da cultura pelos movimentos auto organizados, qual a importância e a atualidade de lermos intelectuais como Lunatchárski?

Quem lê os textos do Lunatchárski percebe que é a classe trabalhadora — de todos os setores da economia — que é capaz de forjar um futuro para a humanidade. Vários textos do livro dão material para se pensar como atuar, do que falar, qual a hora certa de intervir e, sobretudo, que é preciso se organizar. 

 

Edição: Anelize Moreira