Mulheres organizadas

Artigo | Apenas respeite o meu espaço

"Mais uma história igual a tantas, a mesma estrutura racista(...), a mesma invisibilidade, se não fosse pela luta"

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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"Bem perto da maturidade, quase a ponto da aposentadoria, me engajei no movimento sindical. Neste campo me dei voz." / Giorgia Prates

Quando menina eu não era incomodada. Ninguém se metia comigo, ninguém falava comigo, aprendi então a ser invisível perante essa sociedade racista e machista. Na adolescência estava sempre sozinha porque mesmo que os meninos demonstrassem algum interesse eu pensava: "não é para mim".

E assim fui me contentando com aquilo que eu podia ter. Depois veio o casamento e os muitos problemas. Nesse momento tive que sair de casa e ir pra rua, trabalhar, batalhar, mas não só por mim: para poder criar os filhos. Continuava invisível, mas agora tinha responsabilidades e outras pessoas que dependiam de mim. Nada diferente das outras mulheres negras a quem o espaço da rua sempre foi imposto. Enquanto que o feminismo branco brigava para poder trabalhar fora de casa, ainda no início do século, para nós mulheres negras, desde a escravização, o trabalho foi mais um peso em costas muito cansadas.

Sem voz, mas com muitas coisas por fazer todos os dias. Apesar de tudo, dentro desta invisibilidade consegui passar (quase) ilesa. Mais uma história igual a tantas, a mesma estrutura racista que nos esmaga e nos faz sentir pequenas, as mesmas dores, a mesma solidão, as mesmas obrigações e a mesma invisibilidade, se não fosse pela luta.

Bem perto da maturidade, quase a ponto da aposentadoria, me engajei no movimento sindical. Neste campo me dei voz. Soube que nada aqui são favores que me fazem, mas este espaço é meu. Passei a brigar pelos meus direitos e assumir meu papel enquanto mulher e, acima de tudo, mulher negra.

Hoje tenho corpo, que já não pode ser invisibilizado e dele emana uma voz que já não pode ser silenciada. Sou Shirley Pinheiro, mulher negra, apenas respeite o meu espaço. 

Não sou do lar.

Nem  recatada.

Muito menos bela

Sou mulher guerreira

Sou  mulher negra

Sou mãe

Fui parideira

Dei conta das minhas crias

Trabalhando noite e dia

Batalha vencida na vida

Hoje sou viajante

Visito terras distantes

É  meu direito  adquirido

Não abaixo minha cabeça.

Não mudei minha essência.

Hoje tenho a aparência.

De quem nesta vida venceu.

Não me chame nem de bela, muito menos de recatada.

Apenas respeite o meu espaço.

Ele é  meu.

Nunca foi seu.

Se queres ao meu lado caminhar.

Vai ter que me respeitar.

Sou mulher aguerrida.

Sou dona do meu corpo e da minha vida.

Não sou propriedade de ninguém.

Nasci livre e livre morrerei.

Não tenho que me curvar a ninguém.

Meu nome!

Mulher.

Meu sobrenome?

Liberdade! 

 

Shirley Pinheiro, diretora de Formação e Política Sindical do Sindicato dos Urbanitários do Paraná

Edição: Frédi Vascolcelos