Geopolítica

Entenda como a guerra comercial entre EUA e China afeta os agricultores brasileiros

Para Gustavo Oliveira, professor da Universidade da Califórnia, crise deveria desmontar dependência brasileira da soja

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Tema foi debatido na Cúpula de 10 anos do Brics, na última semana / Kremlin

As relações econômicas mundiais, no último mês, pareciam estar aguardando os efeitos da "guerra comercial" protagonizada por China e Estados Unidos. No início de julho, o governo estadunidense decidiu taxar US$ 34 bilhões em produtos importados da China, o que provocou uma retaliação imediata do governo chinês, que impôs uma sobretaxa idêntica sobre mais de 500 produtos americanos.

Diante desse processo, que a China considera "a maior guerra comercial da história", o Brasil será um dos países mais impactados. Isso porque entre os principais produtos afetados pelas sanções econômicas estão, justamente, os maiores representantes de exportação brasileira para ambos os países: soja e aço.

Além de o país oriental ser o principal parceiro comercial do Brasil, a soja representa 43% e mais de US$ 20 bilhões em superávit comercial dessas exportações, de acordo com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC) brasileiro. Já os EUA importam, sobretudo, semimanufaturados de aço e de alumínio do Brasil. As vendas para este país representam um terço das exportações brasileiras do aço, que também foi sujeito a uma tarifa de 25% do governo estadunidense, no primeiro semestre deste ano.

Diante desse cenário, especialistas em relações internacionais e comércio exterior analisam de diferentes formas o suposto impacto da guerra comercial no Brasil. Algumas análises acreditam que a disputa servirá para aproximar mercados emergentes, por meio de uma suposta cooperação Sul-Sul, outros apontam que o Brasil se beneficiará com o aumento da venda da soja brasileira para a China e aço para os EUA, (compensando, assim, os fornecimentos entre ambos os países).

Já um estudo realizado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) mostra um cenário negativo para as balanças comerciais: uma guerra comercial envolvendo todos os países do mundo, com tarifas médias aplicadas a exportações de diversos países, incluindo o Brasil.

O geógrafo e professor assistente de Estudos Internacionais da Universidade da Califórnia, Gustavo Oliveira, no entanto, destaca que todas essas perspectivas não levam em conta benefícios ou prejuízos para os pequenos agricultores e a classe trabalhadora brasileira.

"O grande problema da forma como esse assunto vem sendo falado em toda a mídia é tratar países como se fossem um bloco único com interesses únicos. No curto prazo, o fato de que existem dois grandes exportadores de soja: Brasil e EUA, e um grande comprador, a China, que está deixando de comprar dos EUA, aumentou o preço da soja doméstica. Mas isso não é necessariamente bom para quem não está no setor de soja. Os pequenos agricultores, na grande parte, não estão se beneficiando com isso", afirma.

Oliveira estuda ecologia política, agronegócio e relação comercial entre Brasil e China, além disso ocupará um cargo de professor visitante na Universidade de Pequim ainda neste ano. Em entrevista ao Brasil de Fato, ele destacou que a potencial crise comercial deveria levar a uma análise aprofundada da forma de produção e relações exteriores que o país vem mantendo.

"De fato, se esse momento de crise levasse o Brasil a começar a desmontar essa dependência da soja e do agronegócio, aí isso poderia estar levando a novas relações, independente não só dos EUA, mas da forma de produção que nos vincula ao capitalismo global, seja dos EUA ou de outra parte", avalia.

O tema da guerra comercial permeou grande parte das reuniões da Cúpula de 10 anos do Brics — bloco de países formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — que teve fim na última sexta-feira (27). No evento, os países criticaram as políticas protecionistas dos Estados Unidos e frisaram que as decisões unilaterais põem em risco o crescimento da economia global.

Na Cúpula, o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes, alertou inclusive para o desencadeamento de desemprego no Brasil e ressaltou que o Brics está pronto para negociar com os Estados Unidos. Contudo, Oliveira alerta que as posições do ministério brasileiro são "extremamente sem força" e que, após a taxação pelos EUA no aço, o Brasil não aplicou nenhuma restrição aos produtos estadunidenses, diferente do que fizeram outras nações. "O mais patético desse governo Temer é que ele nem sequer é capaz, nem tem a força ou competência de fazer o que gostaria de fazer", afirma.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Como você resumiria a crise comercial entre EUA e China, e como o Brasil é impactado por ela?

Gustavo Oliveira: Com os Estados Unidos impondo taxas nas importações da China, eles estão passando a buscar mais independência de outros produtores e outras fontes, então eles aumentam a importação do Brasil. Mas esse fato é muito dependente de se há ou não acordo entre China e Estados Unidos. Porque a oferta que a China poderia fazer para tentar terminar essa guerra comercial seria a de reverter as importações do Brasil de volta para os EUA, se comprometer a comprar mais dos EUA a médio/longo prazo do que do Brasil. E como o Brasil está extremamente dependente de exportar só para a China, ele ficaria muito vulnerável de perder mercado a longo prazo.

Então, mesmo para quem pensa que o setor do agronegócio gera empregos para o Brasil como um todo, isso já é um ponto fraco. Tanto que até as lideranças do agronegócio brasileiro, mesmo com os preços da exportação do Brasil aumentando, tem tido um tom muito cauteloso diante da situação. Quem diz que isso é apenas bom não está prestando atenção.

Além disso, é importante colocar em perspectiva que mesmo o aspecto disso que é bom para o agronegócio brasileiro, na verdade, é ruim para a maioria dos pequenos agricultores e para a população sem terra. Porque é uma consolidação, reforçando o sistema de produção dependente do agronegócio, de uma ou poucas safras, extremamente caras e dependentes de insumos importados para produzir e de pouquíssimos mercados no mundo dos quais ficamos reféns. Até o fato supostamente positivo reforça os problemas que lidamos.

Uma das grandes pautas que o Blairo Maggi [ministro da Agricultura brasileiro] levou para a reunião dos Brics foi aumentar as cotas de farelo de soja que o Brasil exporta para a China. Isso demonstra que a prioridade do governo nessa situação não é a de reconhecer a crescente vulnerabilidade de estar dependendo do agronegócio e de um grande importador como a China. O governo está apostando mais ainda nisso, porque querem aumentar mais ainda o mercado chinês para produtos de soja e aumentar mais ainda esse mercado unidirecional, que deixaria o Brasil ainda mais dependente. Isso em uma situação na qual, se a China passa a importar mais ou menos do Brasil, tem mais a ver com tweet de Donald Trump em Washington e com as falas do governo de Pequim, do que qualquer coisa que o governo brasileiro pode influenciar.

Algumas análises apontam que esse confronto comercial geraria a movimentação do comércio Sul-Sul.

Em teoria, seria ótimo se esse fosse o caso, mas não é o que está acontecendo de fato. O comércio Brasil-China é dominado pelas grandes empresas do agronegócio e grandes corporações de outros setores. Só porque uma relação é Brasil-China não quer dizer que não seja entre grupos capitalistas com práticas exploratórias de trabalhadores, de pessoas marginalizadas e expulsas, e da destruição do meio ambiente. O fato é que a grande parte da relação Brasil-China, ou Equador-China, ou Brasil-Rússia, que também sofrem com as restrições de exportação dos EUA, seguem dominadas pelo agronegócio.

Para que essas novas relações ditas Sul-Sul pudessem vir a dar resultado de classe bom domesticamente, elas teriam que ser baseadas em formas de organização mais democráticas do que o agronegócio, ou a mineração ou o petróleo. De fato, se esse momento de crise levasse o Brasil a começar a desmontar essa dependência da soja e do agronegócio, aí isso poderia estar levando a novas relações, independente não só dos EUA, mas da forma de produção que nos vincula ao capitalismo global, seja dos EUA ou de outra parte.

Por exemplo, o Brasil é o maior importador de alho do mundo e o maior exportador é a China. O que aconteceu nos últimos 20 anos, ou até menos, que foi o período do boom de soja, foi que o Brasil que não era apenas autossuficiente, mas poderia até exportar alho, virou um dos maiores importadores. Falta terra no Brasil para plantar alho? Água? Conhecimento tecnológico? Mão de obra? Não, não falta nada. Mas o alho é uma produção que se dava muito melhor entre pequenos agricultores. É mais trabalhoso, mas em uma área menor se produzia muito mais. Aí na China apostaram em uma produção agrícola com alta mão de obra, e no Brasil foi o oposto. Então, hoje em dia a produção de alho do Brasil despencou e o país importa meio milhão de dólares por ano de alho.

Se nesse momento de guerra fiscal, a China faz um acordo com os EUA e garante comprar de lá e quebra a soja do Brasil; e se o Brasil usasse isso para desmontar o sistema dependente da soja e adotasse algumas das práticas e tecnologias da China para produzir alimentos e passasse a adotar a soberania alimentar no país, isso sim seria cooperação Sul-Sul.

O Brasil sempre no papel de exportar commodities e importar alimentos e manufaturados…

Por que o Brasil chama Brasil? Desde a época do pau-brasil os índios cortavam as riquezas e os gringos levavam.

Você acha que isso pode acarretar em uma grande crise econômica global?

Sim, é possível, ainda mais com essa administração completamente imprevisível no governo estadunidense. Mas o que seria de fato uma grande crise comercial mundial? Na mídia burguesa, na maioria do que se diz na imprensa, é que isso seria mais um problema do que ajudaria a diminuir o crescimento do mundo todo. Mas, novamente, não podemos dizer que o crescimento econômico do país é a mesma coisa que o bem estar da população. Se houver uma grande crise que diminua e muito as importações e exportações mundiais, infelizmente isso pode gerar desemprego e pobreza. Mas será também uma forma de, muito evidentemente, mostrar que esse sistema capitalista mundial está em crise, não é sustentável e nem nos traz benefício.

O grande desafio para a esquerda é tentar nos direcionar, e o resto do povo, a ver que essa crise que está ocorrendo agora não quer dizer que precisávamos voltar para o Estado neoliberalista que tínhamos antes, nos anos 1990. Mas, sim, reconhecer que o agravo mundial disso nos força a considerar alternativas que até agora estavam fora de jogo. Por que não buscar um sistema de desenvolvimento baseado mais na produção de agricultura familiar para o mercado doméstico, do que na grande produção do agronegócio para exportação? Isso é considerado ingênuo. Mas ingênuo é achar que um sistema desse gera benefícios.

Como você avalia que tem sido a posição do Ministério de Relações Exteriores (MRE) de Aloysio Nunes?

Extremamente sem força. O mais patético desse governo Temer é que ele nem sequer é capaz, nem tem a força ou competência de fazer o que gostaria de fazer. Essa situação toda da guerra comercial, antes de julho, já vinha acontecendo com o aço antes. O Brasil é um grande exportador de aço no mundo, e o maior mercado do Brasil é os EUA, que botou restrições ao nosso aço. Quando essas restrições começaram e o Canadá, a União Europeia e o México colocaram tarifas nos EUA, o Brasil não. Foi o único dos grandes exportadores de aço que não retrucou. O MRE e o Temer foram aos EUA e falaram "sim, somos os maiores exportadores de aço, mas também somos os maiores importadores de carvão de vocês. Se vocês botam essas imposições, nossa indústria siderúrgica vai diminuir, e vamos diminuir nossa importação de carvão". Mas só, nenhuma restrição, nenhuma ameaça, nada. Uma postura fraca, porque o governo mal tem capacidade de cuidar disso tudo.

Que outros pontos você destacaria nessa guerra comercial?

Tem alguns pontos que são bons para ilustrar as contradições nisso. O fato de que a China parou de comprar soja dos EUA e veio comprar do Brasil, aumentou o preço aqui e diminuiu lá. Isso está tendo resultado de que o processador de soja no Brasil, quem faz farelo animal, óleo vegetal, agora está mais interessado em importar soja dos EUA para processar domesticamente, do que importar do Brasil.

Basicamente o que estamos fazendo com o petróleo também?

Sim, o Brasil está passando a importar petróleo, soja, etanol. Se os EUA não conseguem exportar etanol para a China o etanol deles cai o preço e eles conseguem vender mais barato para a Petrobras do que o etanol produzido no Brasil. Tanto é que a UNICA, a União das Indústrias Sucroalcooleiras do Etanol, tem sido fortemente contra essa tarifas, preocupada com isso. Outra coisa é todo o setor de produção de aves e porco. Eles têm que comprar ração animal, e se o aumento do preço da soja é bom para quem vende, é ruim para quem compra. O que acontece com o mercado doméstico? O preço da carne vai aumentar para o povo brasileiro. Vai ter que pagar mais ainda pela linguiça de frango. É um outro ponto que vale analisar.

Outro ponto é que na mídia internacional, quando falamos de geopolítica, fica parecendo que essas taxas e essa situação entre EUA e China é o principal fator agora para o agronegócio brasileiro. Mas não, o principal fator agora é o tabelamento do frete. É importante falar que isso está ocorrendo nesse contexto, porque com o tabelamento do frete, esse valor extra que estamos ganhando por exportar para a China, está indo para cobrir o frete mais caro. Então, mesmo esse benefício a curto prazo está na maior briga, porque se os caminhoneiros conseguem de fato aumentar o frete, eles que serão beneficiados.

Agora, se as empresas conseguem evitar o tabelamento, ou, o que muitas já estão fazendo, internalizar o frete, comprar a própria frota, contratar o próprio caminhoneiro, aí elas capturam esse lucro de curto prazo que está vindo para o Brasil. A grande luta que está acontecendo agora entre a classe trabalhadora e o agronegócio no Brasil, na verdade, é desses caminhoneiros autônomos com o agronegócio todo. Isso é importante também para notarmos que com essas coisas de guerra comercial e geopolítica, no fundo, as contradições serão expressadas em contradições entre classes.

Eu sou muito companheiro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), realizamos muitos trabalhos juntos e reconheço que é um dos movimentos mais fortes do Brasil e do mundo. Mas é um movimento de um setor específico. Ele não consegue liderar o movimento dos caminhoneiros autônomos. E existem esses espaços de luta que não estão tão organizados. Estamos muito na defesa, na retranca. Parte disso é reconhecer que muitos dos setores mais chaves para a luta que estão ocorrendo agora foram os setores mais abandonados pelo Partido dos Trabalhadores, pela Central Única dos Trabalhadores. Como caminhoneiros autônomos, trabalhadores de agroindústria, de construção, as categorias com os sindicatos mais pelegos, são os setores que estavam tendo os maiores booms de crescimento, contradições e capacidade de luta. Então é interessante pensar: onde nessa guerra comercial tem um gargalo onde a classe trabalhadora pode fazer grande pressão? Qual pode ser a ponta de lança de um novo sistema de desenvolvimento?

Edição: Vivian Fernandes