Solidariedade

Greve de Fome em Brasília conta com trabalho de 28 voluntários

Contribuição de parceiros vai desde auxílio com cuidados de higiene até atendimento médico, psicológico, entre outros

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Profissionais de saúde voluntários durante atendimento dos grevistas / Foto: Adi Spezia/MPA

A greve de fome que envolve sete militantes de movimentos populares em Brasília (DF) não se sustenta apenas pela união das organizações a que os grevistas pertencem, mas também pela ajuda de voluntários.  

Os militantes têm contado diariamente com o apoio de parceiros que contribuem com toda a rotina do grupo. O trabalho vai desde o monitoramento da quantidade de água e soro – únicos líquidos ingeridos pelos militantes –, passando pelos cuidados nas idas do grupo ao banheiro, até o acompanhamento do estado de saúde deles.

São, ao todo, oito profissionais da área da saúde e outros 20 da equipe de apoio, que acumula as demais funções.

“O alimento que eles têm é água, soro, a nossa solidariedade e as energias positivas que chegam de todos os estados, de todos os companheiros”, afirma a militante Josi Costa, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), que coordena os voluntários.

E a solidariedade se expressa das mais diferentes formas. Além de receberem doações de água e soro, os grevistas contam com atendimento médico, psicológico e ainda terapias alternativas, como é o caso do reiki – técnica de transmissão de energias por meio da imposição das mãos.

Os profissionais se revezam em escalas de plantão para que o grupo não fique desassistido. Para o acupunturista Otávio Dutra, da Rede de Médicas e Médicos Populares, o combustível do voluntariado vem de uma identificação com a pauta da greve em todas as suas dimensões.  

Ele destaca especialmente a crítica dos militantes ao sucateamento da saúde pública, atualmente sufocada pelo ajuste fiscal promovido por Michel Temer (MDB).  Esse aspecto é um dos pontos destacados no manifesto “Greve de fome por justiça no STF”, protocolado pelos grevistas no ultimo dia 31, durante a deflagração do jejum.

“As lutas do movimento popular por direitos básicos, por acesso ao que existe de bom neste mundo para todos, são fundamentais pra saúde, então, estou aqui lutando também pela saúde do nosso povo”, declara Dutra.    

Para Ronald Wollf, também médico da Rede, o estímulo para o engajamento na greve bebe na fonte de uma relação já antiga com a luta social. Parceiro dos movimentos populares há décadas, ele tem no currículo o acompanhamento de outras três greves de fome promovidas por militantes, sendo uma delas a que foi realizada no ano passado, contra a reforma da Previdência.

Na experiência atual, Wollf atua ao lado dos grevistas diariamente, dormindo no mesmo local, e, muitas vezes, sacrificando o próprio sono para acompanhar todos os movimentos do grupo e evitar que alguém sofra algum problema sério de saúde.

Residente do Rio Grande do Sul e médico do Sistema Único de Saúde (SUS), ele veio a Brasília especialmente para esta nova missão.  

“Doei 30 dias de férias da minha vida pra isso, mas eu me considero de férias. A gente se carrega de coisas tão boas que eu vou voltar pra Porto Alegre cansado e descansado ao mesmo tempo, então, compensa”, garante.

E, na corrente de solidariedade, tem ainda a fraternidade daqueles que se dispõem a doar o próprio tempo para exercitar a escuta, seja por meio do atendimento de demandas coletivas ou individuais. No Centro Cultural de Brasília (CCB), onde os grevistas estão concentrados, sete psicólogos se revezam diariamente nesse trabalho.  

“A psicologia não é uma prática isolada do mundo, não é – e nem deve se pretender a ser – neutra. Ela é um instrumento de transformação social, e nada mais legítimo que acompanhar uma reivindicação como essa que eles estão fazendo pra compreender as dinâmicas individuais, mas sobretudo as coletivas”, afirma o psicólogo Lúcio Costa, que articulou os profissionais da área para a atuação junto aos grevistas.  

E a recompensa do trabalho, para eles, vem do bem-estar de quem mais se beneficia dele.

“Todas essas formas de cuidado, de expressão de solidariedade vão alimentando a gente e dão muita segurança, então, nos sustentam também, de muitas formas. O grupo que está na greve se sente mais seguro, com mais disposição”, assegura a grevista Rafaela Alves, do MPA.

Edição: Diego Sartorato