Greve de fome

Greve de fome em Brasília denuncia aumento do custo de vida

Botijão de gás subiu 26,9% em um ano; fogão a lenha voltou a ser única opção para 1,2 milhão de domicílios em 2017

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Em greve de fome há uma semana, militantes estão concentrados no Centro Cultural de Brasília, onde recebem visitas de apoiadores / Foto: Adi Spezia/MPA

Os seis militantes que estão em greve de fome em Brasília (DF) seguem em protesto, completando, nesta segunda-feira (6), sete dias de jejum. Entre as pautas de destaque no manifesto intitulado “Greve de Fome por Justiça no STF”, protocolado pelo grupo na última terça (31), no Supremo, está a denúncia do aumento do custo de vida no país.

Os militantes apontam, entre outras coisas, a alta inflação, que encarece os alimentos, dificultando o acesso da população a produtos cotidianos e bens de consumo. Apesar de o custo da cesta básica ter caído em 19 capitais no mês de julho por conta da queda do preço de alguns produtos, outros seguem em linha ascendente.

É o caso do pão francês, que, entre junho e julho, sofreu aumento de preço em 16 cidades. Os maiores foram registrados em Cuiabá (4,53%) e em Recife (3,84%). Os cálculos são do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e foram divulgados nesta segunda (6).

O preço médio do leite, por exemplo, registrou aumento em todas as capitais, se considerarmos os últimos 12 meses. Os destaques foram para Campo Grande (32,14%), Vitória (30,54%) e São Luís (29,66%).

O grevista Luiz Gonzaga, mais conhecido como Gegê e membro da Central dos Movimentos Populares (CMP), destaca a preocupação dos segmentos de baixa renda com a alta do botijão de gás, por exemplo.

“A pessoa que tinha um fogão a gás, que tinha o direito de comprar um botijão pra alimentar sua família, hoje é obrigada a fazer em sua casa a alimentação com fogão a lenha. Isso, pra nós, é um atraso de vida muito grande”, desabafa o militante.

Entre julho do ano passado e junho de 2018, o preço do botijão subiu 26,91% no país, segundo o Dieese. O aumento resultou numa estatística que embasa a declaração do militante: em 2017, 1,2 milhão de domicílios brasileiros passaram a usar lenha e carvão no lugar do gás de cozinha, de acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Há um tempo, o uso do gás ou da lenha era uma escolha. O problema é que agora está havendo uma imposição sobre as famílias. Isso é ruim. (3:46) Quando as coisas são obrigadas, [isso] já mostra que tem um problema severo”, pontua o militante Bruno Pilon, da coordenação nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

O MPA e a CMP estão entre as organizações que têm representantes em greve de fome, além do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). A articulação é resultado também de uma parceria com outros segmentos populares.

Pilon acrescenta a alta do custo de vida traz ainda outros desdobramentos, que afetam especialmente a população do campo.

”Com toda essa alta dos preços, dos insumos e dos custos de produção, cada vez mais o campesinato fica com menos dinheiro. A gente volta a ver aquele campesinato sem acesso aos meios de comunicação, sem acesso à infraestrutura, sem falar das coisas mais drásticas, como o êxodo rural”, exemplifica o militante.

Associado ao aumento do custo de vida, o salário mínimo considerado ideal para o trabalhador brasileiro seria de R$ 3.674,77, segundo cálculos do Dieese para o mês de julho. Atualmente, o salário mínimo real está em R$ 954.

Edição: Diego Sartorato