Greve de Fome

Frei Sérgio Görgen: greve de fome para voltar à normalidade democrática

Franciscano entra em sua quinta greve de fome pelo fim da miséria do povo

Brasil de Fato| São Paulo (SP)

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Frei Sérgio vê a greve de fome como instrumento de luta popular / Foto: Arquivo Pessoal

A militância do jovem Sérgio Görgen começou cedo. Aos 14 anos já participava de grupos de jovens da igreja católica. Hoje, aos 62 anos, o Frei Sérgio é dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e lembra como sua organização política iniciou-se na época da ditadura militar.

"A ditadura não era tão explícita para quem morava no interior,  para a população em geral. Ela era séria quando alguém se manifestava politicamente", relembra.

A primeira censura ocorreu em 1974, quando sua redação foi selecionada como a melhor da cidade de Taquari, no Rio Grande do Sul. "Só que eles exigiram que eu tirasse uma parágrafo quando eu me referia a [Leonel] Brizola e Jango [João Goulart]".

Anos depois, sua consciência ideológica foi lapidada no seminário franciscano, onde presenciou muitos freis sendo perseguidos, com relatos de tortura. Quando lembra da ditadura do passado, Frei Sérgio consegue fazer paralelos com o presente.

"Naquele período o Judiciário não se envolveu com a perseguição, o Judiciário muitas vezes era o lugar da proteção. A ação era da direita mais violenta e da polícia e do exército. Era muito diferente de hoje, não tinha essa amplitude social que se criou com a onda fascista de hoje", compara.

No passado, a perseguição vinha do Comando de Caça de Comunistas, conhecido como CCC. "Eles mandavam cartas frequentes, eu recebia cartas frequentes deles e outros colegas meus também", conta.

Depois disso, foi uma vida dedicada às lutas rurais e por terra. Neste contexto, Frei Sérgio coleciona cinco greves de fome.

Sobre a última, iniciada há nove dias completados nesta quarta-feira, 8 de agosto, o Frei nega que seja para defender um partido ou grupo político específico. "Partido nenhum e candidatura nenhuma me faria fazer uma greve de fome, nenhuma. Agora, a situação caótica e desgraçada do povo me anima a fazer greve de fome. E é evidente que a solução dos problemas do povo passa pela política, e passa pelo Lula. Ele se tornou o símbolo e uma possibilidade de retomar a esperança do povo".

A penúltima greve foi em dezembro de 2017, com o objetivo de barrar a reforma da previdência. Esta durou dez dias. A terceira foi em 1997, depois do período de seca no Rio Grande do Sul e na iminência da visita do papa João Paulo II ao Brasil.

"Aí, de fato, estávamos no 15º dia quando o papa aportou no Brasil e no 16º dia o Fernando Henrique [Cardoso, presidente] mandou nos atender. Foi criado o Pronaf, a greve foi para solucionar o problema da seca", diz.

O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) existe até hoje, e atua para que as famílias rurais possam investir em sua estrutura de produção e de serviços.

A segunda e maior greve de fome realizada até hoje foi em 1992 e durou 22 dias, depois de um conflito entre policiais e camponeses. Seis pessoas ficaram presas por um ano e oito meses sem julgamento. "Então não tem novidade, o Judiciário está fazendo agora com os pobres o que sempre fizeram. O que agora estão fazendo com o Lula costumam fazer com os pobres sempre", relata Frei Görgen.

Sobre o medo da greve de fome, o Frei afirma sempre existir, mas a vontade de romper a inércia é maior. A primeira greve de fome foi realizada em 1989 e ali o Frei entendeu o peso dessa ferramenta de luta.

"Fizemos uma discussão no acampamento inteiro porque foi uma surpresa ver que todas as pessoas que estavam naquele acampamento, salvo raras exceções, tinham tido períodos longos de fome em suas vidas. Então a fome não era novidade para eles, era transformar algo que já era parte da vida deles em um instrumento político".

Na época, Frei Sérgio e mais cinco companheiros resistiram 16 dias até conseguirem a posse do loteamento pleiteado. "Hoje eu moro num assentamento conquistado naquela greve de fome".

Voltando ao presente, Frei Sérgio acredita que o Brasil tem condições de proporcionar uma vida digna para todos e ressalta que a greve de fome é um instrumento para ajudar o Brasil a voltar à normalidade democrática.

Edição: Diego Sartorato