Marcha Lula Livre

Os três sonhos de Helena, guerreira do MST de Alagoas

Em sua primeira marcha nacional com o movimento, ela comemora ter encontrado um meio de vida coletivo

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Maria Helena da Silva durante a caminhada entre Sobradinho e o Parque Ecológico do Torto, nesta segunda-feira (13) / Foto: Júlia Dolce

A primeira vez que os sonhos de Maria Helena da Silva, de 41 anos, voaram alto, foi na adolescência. Apaixonada por futebol, ela integrou as categorias de base do CSA, time tradicional de sua terra, Alagoas, graças aos próprios esforços: para garantir o suporte financeiro de sua permanência no esporte, ofereceu-se para cuidar do filho da patroa do pai, produtor rural. O esforço rendeu frutos: seu talento rendeu patrocínios e chamou a atenção de um olheiro do Fluminense, que a convidou ao Rio de Janeiro para jogar pelo time. "O que eu queria era vestir a camisa da Seleção Brasileira, eu tinha essa visão lá na frente. Esse era um caminho, né?", conta.

Infelizmente, não foi daquela vez. "Meu pai dizia que eu ia mulher e ia voltar lésbica, que eu ia ser influenciada, que as pessoas iam falar. Eu dizia: 'papai, eu sou eu, o meu interesse é o jogo', mas não adiantou, a visão dele era outra, ele me tirou do jogo", relembra.

A desilusão precoce marcou o início de uma vida profissional eclética: em desafio –"Ah, decidi ser independente, acho que foi isso mesmo, né? Rebeldia, desafio mesmo"– ao preconceito em sua comunidade, dedicou-se a diversas profissões consideradas "masculinas". Helena foi pedreira, serralheira, técnica de laboratório, segurança, bombeira civil e dona de restaurante. Mas onde depositou um novo sonho foi na profissão de serralheira.

"Aprendi numa oficina da minha cidade, trabalhei por três meses. Primeiro, eu produzia lixeiras, e recebia 20 reais por cada uma. Quando comecei a entregar cinco por dia, o dono da oficina disse que não ia ter como me pagar. Então comecei a fazer portões, mas ele decidiu me dispensar, para que eu não fosse concorrência", diz.

Seu objetivo era mesmo aprender a profissão para ter sua própria serralheria, mas não para concorrer com o então patrão. "Tem espaço pra todo mundo, né?". Ela conseguiu abrir o próprio negócio, mas não encontrou felicidade duradoura: a amizade com o serralheiro que a ensinou a profissão virou mesmo uma relação de concorrência, centrada no dinheiro, e acabou. "Eu passava para ele o que não conseguia fazer, mas ele me cobrava como se eu fosse subordinada a ele", protesta.

"Sempre me senti revoltada com quem acha que a mulher tem que estar atrás do fogão, de não dar oportunidade, criando dificuldade onde não tem, sempre para rebaixar nós mulheres. Se você é repórter e eu sou repórter, temos que ganhar igual, não tem isso aí", explica. "Eu não me sentia um ser humano, eu ainda não sabia que era porque esse é o sistema da burguesia, essa compreensão veio quando entrei para o movimento, mas é algo que me deixava revoltada".

Hoje, Helena participa de sua primeira marcha com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), como integrante da coluna Ligas Camponesas. Ela vive no acampamento Rosa Luxemburgo, em Barra do Santo Antônio, e luta para transformá-lo em assentamento. Enquanto participa do ato político que exige a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seus companheiros encaram um despejo por ordem judicial, mas isso não abala sua determinação. "Eles podem tirar, mas nada diz que não iremos voltar, né?".

"O movimento me apresentou uma forma de viver coletiva, em que todos cooperam e dividem o que têm. É isso que eu sempre quis, mesmo que não soubesse. Se eu era revoltada, até violenta às vezes, é porque não queria viver naquele individualismo, em que cada um só quer saber do seu, de tirar vantagem do outro", afirma. "No movimento, se você tem uma caneca de café, você divide com todo mundo e todo mundo toma um gole. É assim que tem de ser".

Um dos momentos mais marcantes que viveu com o MST foi ajudar a distribuir toneladas de alimentos agroecológicos às comunidades pobres de seu estado. "As pessoas até pediam a sacola com o símbolo do movimento para ter de lembrança, foi algo que me tocou e me convenceu".

O novo modo de vida é uma conquista que transformou sua vida, mas Helena tem um sonho maior neste momento. "A liberdade de Lula", responde, sem hesitar. "Veja como está o país, 14 milhões de desempregados, sem visão de futuro. Só o Lula pode trazer de volta uma melhora, uma alegria para as pessoas. Eu conquistei muito no tempo dele, isso tem de voltar", pondera.

Edição: Luiz Felipe Albuquerque