Lula Livre

Festival reúne milhares de pessoas na capital paraibana

O evento foi organizado por mais de 35 artistas como ato de protesto pela prisão política de Lula

João Pessoa (PB)

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Manifestantes e artistas pediram a libertação de Lula, na praça da Paz, em João Pessoa (PB). / Christian Woa

“Se criança não fosse abandono, se silêncio não fosse censura, se cidade não fosse fome, se rua fosse um endereço, se escola fosse construção, se estado fosse compromisso”, esse é um trecho da música Cordel, da banda Pau de Dar em Doido, que foi uma das participantes do Festival Lula Livre ocorrido em 15 de agosto, na Praça da Paz, em João Pessoa. Segundo Ilson Barros, vocalista da banda: “Eu acredito muito que, além da vocação, a gente precisar trabalhar com a informação correta, numa época de fakenews, é muito relevante o papel do artista; estamos numa bolha, as televisões não contam a verdade”. 

A cantora e integrante do grupo Voz Ativa, Sílvia Patriota, fala que é de suma importância levar o canto como forma de reivindicação pela democracia: "Contra o racismo e o machismo, o canto só tem sentido se ele for às ruas, engajado, pela liberdade, transformação social, por uma sociedade mais justa e solidária.” Ela aproveita para falar da participação feminina na sociedade atual: "Um momento singular de protagonismos das mulheres, que estão mais empoderadas, estão se unindo, indo à luta e o governo de Lula/Dilma teve muito a ver com isso porque abriu espaço para nós.”

Aos gritos de Lula Livre, a plateia vibrou a cada apresentação dos artistas./ Foto: Christian Woa.

Também teve a participação da Dj Marmaid, drag queen, que aproveitou para mandar: "Levamos nossa voz de indignação, revolta e insatisfação contra a prisão política de Lula, porque não existe prova contra ele!" Segundo a organização do evento, as/os artistas se juntaram com a mesma ideia do festival que aconteceu no Rio de Janeiro, pois a cena cultural de João Pessoa - e da Paraíba - se mostrou preocupada em construir o debate com a sociedade sobre o estado de exceção no país. “Os artistas, além das mulheres, têm um papel crucial porque estão sempre na vanguarda, à frente dos movimentos de luta na sociedade, liberdade, votos, estão sempre denunciando o que há de errado”, destaca Zezé Bechade, jornalista, e uma das organizadoras. 

Público compareceu massivamente ao Festival Lula Livre./ Foto: Christian Woa.

O dia 15 foi marcado pela homologação da candidatura de Lula para as eleições 2018, então o Festival, que teve mais de 35 artistas, entre bandas, grupos, poetas, homens e mulheres, se inseriu como ato de protesto pela sua prisão política. Paulo Ró, músico da Paraíba, iniciou sua participação no palco cravando: "Lula é Livre!". Indagado sobre a afirmação, ele disse que "Lula é livre porque está na rua, em cada pessoa que ele ajudou a viver, porque as pessoas, o povo, vivia na miséria, jogado na rua, e ele é uma pessoa do povo. Por isso que acho que ele não está preso, porque a liberdade não está só no espaço físico. Lula é uma ideia. E não se prendem ideias.” Paulo cantou uma música cujo trecho é “Dalva me falou que estava cansada de ficar quieta”, que segundo ele, fala de pensar e agir, da necessidade de fazer algo por si mesmo, de se movimentar, se indignar. 

"Mátria Amada, Brasil", música de Cida Alves, foi uma das atrações do Festival./ Foto: Christian Woa.

Já o professor de Filosofia, Cícero Pedroza, relembrou de Paulo Freire, sua perseguição judicial e ideológica na década de 60. “Ele e outros tiveram que sair do país e retornaram com a Lei da Anistia. A democracia caiu de novo, recentemente, e ela foi construída com muita batalha; a Constituição foi um caminho a ser tomado, e esse pacto, agora, foi quebrado, e está tendo muitos impactos, trazendo de novo a fome. Esse momento aqui, tem várias gerações: os que sofreram na década de 60 e jovens artistas trazendo a reflexão." A estudante de Teatro, da Universidade Federal da Paraíba, Neiry Carla, que foi assistir ao ato, afirma que esse é um momento de luta: "A gente tem que se posicionar. A arte nunca se calou, não se cala a arte. Em décadas passadas foi utilizada e sempre será usada para denúncia… e o que está sendo feito com Lula não é só com ele, é com todos nós: os artistas estão aí para fazer com que as máscaras caiam."

Pedro Índio Negro, jovem artista pessoense, faz a crítica: “Eu acho esse Festival interessante não só para juntar os artistas, mas também, como militantes de esquerda, reavaliarmos nosso diálogo com a população porque houve um distanciamento desde a época da ditadura até a democracia, entre os artistas com os temas sociais. Então, acho que essa polarização é importante para a gente se reaproximar da população, porque só chegamos a este ponto porque a esquerda não teve autocrítica, e durante o governo Lula também. O brasileiro é um povo que sempre procura um Messias… é a nossa história, precisamos resgatar a autoestima e tentar solucionar os nossos problemas”.

 

Edição: Heloisa de Sousa