VIOLÊNCIA

Índices levam analistas a decretar falência da intervenção no Rio

Números de mortes em confrontos policiais dobrou; pobres, negros e jovens são as principais vítimas

Rio de Janeiro | RJ

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Moradores relatam abusos cometidos por agentes policiais / Fernando Frazão/Agência Brasil

Após seis meses de intervenção federal militar no Rio de Janeiro, dados divulgados por diferentes órgãos nas últimas semanas mostram que a política de segurança pública do governo de Michel Temer (MDB) no estado não apenas fracassou como matou mais pessoas que em períodos anteriores à chegada das Forças Armadas. 

Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), o aumento do número de mortos em confrontos policiais foi de 105% - 63 mortos em 2017 contra 129 durante os seis meses de intervenção apenas em confrontos. O Observatório do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), da Universidade Cândido Mendes, mostrou que o número de tiros disparados subiu de 3.477, em 2017, para 4.800 nos últimos seis meses. 

Para a socióloga e professora de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Vera Malaguti, o estado sofre pelas políticas de segurança pública de Michel Temer e do ex-governador Sérgio Cabral, mas também pelos resquícios da ditadura militar.  

Segundo Malaguti, além de não interferir em nada na dinâmica de comercialização de substâncias ilícitas, a guerra contra as drogas, que ganhou mais força com a intervenção militar federal no estado, provoca o genocídio de jovens negros e pobres. Para ela, a política atual é como um “moinho de gastar gente”. 

“Diante de todo o aumento da miséria, de índices de mortalidade subindo e com essa intervenção, a gente vê que tudo isso está ligado. Em vez de uma intervenção na polícia que mais mata no mundo, as Forças Armadas entraram para fortalecer o genocídio que incide principalmente sobre a juventude negra e pobre das cidades. É uma espiral irracional que não nos leva a lugar nenhum, essa guerra perdida só funciona para o controle social dos pobres”, afirma a socióloga. 

Assassinatos 

Outro órgão que vem denunciando por meio de dados o sofrimento das populações de periferias e comunidades, a Comissão Popular da Verdade (CPV) tenta desde o início do ano, sem sucesso, uma reunião com os responsáveis pela intervenção nos níveis estadual e federal. A Comissão cobra também explicações sobre os assassinatos das dezenas de pessoas durante a permanência das Forças Armadas no estado, como a do adolescente Marcos Vinícius e da vereadora Marielle Franco (Psol). 

Representante da CPV, Luma Vitorio chama a atenção para a falta de planejamento da intervenção militar e os contrastes no tratamento de favelas e bairros elitizados da capital e da Baixada Fluminense. 

“As estatísticas dão conta da falência e da falta de planejamento e inteligência desse processo de intervenção. E o relatório da Comissão mostra bairros mais elitizados da zona sul do Rio com garantia de segurança e as mortes em ações policiais praticamente não existem. Nas periferias, por outro lado, os números de extermínio de jovens envolvendo policiais são alarmantes”, avalia Luma Vitorio. 

Os argumentos de Luma Vitorio e de Vera Malaguti são reforçados e reiterados pela ativista de direitos humanos da Colômbia Sonia Milena López, que esteve no Rio para encontro com mães de crianças e jovens assassinados nas favelas da capital e do estado. 

Segundo a ativista colombiana, o processo de intervenção “é uma arma de invasão de impérios e regimes para controlar política e militarmente o território e a vida cotidiana da gente empobrecida”. A falta de solução, completa, também faz parte da estratégia de dominação, sobretudo quando envolve vítimas ligadas aos direitos humanos. 

“É evidente que qualquer pessoa que surja das comunidades e que possa travar políticas em benefício de pessoas menos favorecidas são vistas como inimigas pelo Estado. É esse o caso de Marielle. Faz parte da estratégia manter a impunidade de crimes que o regime comete contra o povo. Há velocidade para atuar sobre as comunidades, mas não para atuar nas investigações quando a vítima é alguém do povo”, analisa Sonia López. 

Edição: Mariana Pitasse