Greve de fome

ARTIGO | Nossa fome é por pão, terra, teto, trabalho e alegria

“O amor é a força mais abstrata, e também a mais potente, que há no mundo” - Mahatma Gandhi

Grevistas de fome realizam ato em Brasília durante o protesto pacífico que durou 26 dias / Foto: Adi Spezia / Rede Soberania

Foram 26 dias de sacrifício, guiados pelos mais profundos ensinamentos de Jesus de Nazaré: o amor incondicional ao próximo e a partilha das riquezas que permitem a vida. Sete guerreiras e guerreiros do povo, Frei Sérgio Görgen e Rafaela Alves do MPA, Leonardo Soares do Levante Popular da Juventude, Gegê Gonzaga da CMP, Jaime Amorim, Zonália Santos e Vilmar Pacífico do MST. Pessoas que abdicaram por 26 dias de uma necessidade humana vital, a alimentação. E por qual razão submeteram seus corpos à tamanha agressão? Qual convicção os alimentou? Qual utopia os fez caminhar, como diria Galeano?

Nesses 26 dias, essas 7 pessoas mobilizaram milhares de militantes sociais pelo Brasil e pelo mundo e adentraram no coração e sonhos de tantos milhões. Com o exemplo, nos impulsionaram a crescer coletivamente nas reflexões e a trabalhar em sintonia e cooperação para apoiar, de variadas formas, esse gesto grandioso de sacrifício de corpos que insistiam em expressar seu amor ao povo trabalhador. “Os corpos sofreram, mas o espírito se alimentou de humanismo, de amor, de solidariedade” dizia Rafaela Alves.

Uma greve de fome é justa quando sua motivação é coletiva e quando outras formas de luta dentro dos limites da legalidade estão restritas. Submeter o corpo a tanta agressão é um gesto que deve ser utilizado com sabedoria em momentos críticos, como enfatizava Gandhi. É um gesto que nada tem de pacífico, é agressivo e radical contra as injustiças.

O povo brasileiro tem sofrido brutalidades imensuráveis nos últimos anos, seja da retirada abrupta de direitos trabalhistas conquistados em décadas de luta, do corte de investimentos em áreas sociais, da entrega do patrimônio público e da nossa soberania ou o desmantelamento do mínimo de existia de democracia.

Como trabalhadores da saúde observamos que a piora das condições de vida determina, imediatamente, o retorno de formas de adoecimento do povo mais pobre e oprimido que vinham em processo de superação: a desnutrição e a fome, epidemias de doenças infecciosas com vacina ou tratamento, aumento da mortalidade infantil, asma provocada por utilização de forno à lenha, queimaduras por cozinhar com álcool, depressão e suicídio por dívidas e desemprego, entre tantas outras formas de sofrimento cujas causas podiam ser prevenidas.    

Simbolicamente, a prisão política de Lula - sem provas objetivas, com irregularidades nos ritos processuais - sintetiza esses ataques à classe trabalhadora. Não é à toa que, mesmo num cenário manipulado e de espetáculo midiático, Lula esteja com 39% das intenções de voto e, possivelmente, venceria eleições livres em primeiro turno.

O povo não se olvida que sua vida, concretamente, melhorou nos anos de governos do PT. Ao prender Lula, os poderosos pretendiam prender e imobilizar o povo trabalhador e sua capacidade de resistir, imaginando que o povo abandonaria seu principal líder. No entanto, vale enfatizar que as condições materiais para um levante popular estejam a cada dia mais duras - sem emprego ou na informalidade, sem um mínimo de estabilidade laboral, sem tempo livre ou até mesmo sem dinheiro para o transporte e alimentação para participar de atos públicos - restando a parcelas do povo pobre apenas expressar sua indignação pelo voto. E, no voto, o povo deixa claro em quem se reconhece: Lula é nordestino retirante, foi operário, viveu na pele os sofrimentos de boa parte da população brasileira.

Cabe refletir que nessa dificuldade de expressar a rebeldia, por meio de manifestações massivas, greves e instrumentos de poder popular, existe uma participação importante dos anos de governos do PT em que, mais do que se organizar e lutar, a classe trabalhadora foi incentivada a votar e esperar passivamente que seus problemas se resolvessem institucionalmente. 


 “A verdadeira medida de um homem não é sua posição em circunstâncias convenientes e cômodas, e sim sua posição em tempos de desafios e controvérsias.” Martin Luther king


Mas, ainda que boa parte da esquerda brasileira tenha fincado seus pés nas ilusões de reformas democratizantes, por meio da institucionalidade e dos jogos por dentro do Estado, amplos setores do campo popular se mantiveram firmes nos seus princípios históricos, construindo lutas desde as bases, trabalhando a formação teórica e prática de militantes, costurando unidades entre setores da classe trabalhadora, organizando e expandindo movimentos populares no campo e nas cidades. Essa gente jamais deixou de lutar e sonhar. Foi justamente uma parte desses setores resistente ao golpe, que resolveu se manifestar por meio dessa forma extrema de luta, a greve de fome.

Esses sete militantes populares representaram centenas de milhares de militantes sociais e a grande maioria da população brasileira que sofre as conseqüências do golpe orquestrado pelo império do Norte e seus aliados esdrúxulos, a submissa e cruel elite nacional.

Lula, em carta ao MST, passa a reconhecer e valorizar este novo protagonismo contra o pragmatismo eleitoral de setores do PT. “É nas horas mais difíceis que a gente conhece os verdadeiros amigos. Enquanto Deus me der vida, jamais vou me esquecer do que vocês fizeram pelo Brasil e pela democracia. E tenho certeza de que a história vai registrar o exemplo de coragem e de amor ao nosso país que o MST vem demonstrando em todos os momentos dessa luta. Podem ter certeza de que vocês fortaleceram ainda mais o nosso compromisso com a transformação da vida do povo brasileiro. Esse compromisso é para sempre e nada vai impedir que a nossa luta seja vitoriosa”. E esse protagonismo vamos conquistar com persistência na luta, organização política e unidade em torno de um projeto popular.  

A bandeira central da greve de fome foi a libertação de Luis Inácio Lula da Silva, não apenas pela injusta prisão do ex-presidente, mas por todo o retrocesso que essa prisão política representa, de ataque à democracia, aos direitos do povo e à soberania nacional, como enfatizaram por diversas vezes Frei Sergio e Gegê.  No curso do golpe, a correlação de forças dentro da esquerda tem mudado de polo, da burocracia eleitoral e parlamentar para os movimentos populares.

Para tanto, levar até as últimas consequências a libertação do companheiro Lula e manutenção da sua candidatura é tarefa central. Utilizando essas bandeiras como força de mobilização que conduza o povo para enfrentar o golpe e retomar um processo de conquista de direitos, apenas possível com o enfrentamento dos privilégios das elites brasileiras e das velhas formas de condução da política, colocando no centro do processo o povo trabalhador organizado.  

Na greve de fome imperou a solidariedade ao egoísmo; a partilha à ganância; o amor ao ódio; o respeito à intolerância; o altruísmo à vaidade. Gerou uma alavanca que impulsionará as lutas do porvir, por pão, terra, teto, trabalho e alegria.

Jaime Amorim colocou em sua fala, que encerrou a greve de fome após 26 dias, que ”a correlação de forças está se alterando consideravelmente, a nosso favor neste período. A greve de fome não foi o único instrumento responsável por estas mudanças, mas contribuiu consideravelmente. Conseguimos durante 26 dias tensionar o Poder Judiciário, fomos recebidos por sete ministros do STF ou gabinete, escancaramos o STF como nunca…nós vamos encerrar a greve, e vamos nos deslocar para outros campos da batalha”.

João Pedro Stedile afirmou que “é nítido que estamos retomando o protagonismo das lutas, que a militância tem recuperado sua autoestima e tem voltado a usar os símbolos e cores que caracterizam nossa caminhada histórica…só falta retomarmos a bandeira do Brasil”. O Poder Judiciário ficou ainda mais desmoralizado, a militância mais convicta e unida, o projeto de país mais nítido e os sonhos voltaram a colorir nossos sorrisos - a alegria que apenas as causas justas trazem.

E como enfatizou Frei Sérgio, “a greve de fome foi um marco de uma virada da luta de classes no país”, seja por dar visibilidade às causas populares, por enfrentar, desnudar e desmoralizar o sistema Judiciário, por despertar a chama rebelde nos corações de amplos setores das classes populares.

Cabe a nós dar seguimento a essa batalha, conduzindo a luta eleitoral para impulsionar nossa organização política e um Congresso do Povo, como preparação para um novo período de lutas populares, que pode alterar a correlação de forças na luta de classes e conduzir a construção do Projeto Popular para o Brasil e para a Pátria Grande América Latina, já que a luta contra o golpe no Brasil permite reconduzir o continente para uma política integradora, soberana e de solidariedade.

Temos muito a aprender com a rebeldia e coragem de Leonardo, com a clareza de análise e disciplina de Jaime, com a força invencível e acolhedora de Zonália, com a serenidade e altruísmo de Frei Sérgio, com a sensibilidade e sabedoria de Rafaela, com a capacidade de superação e simplicidade de Vilmar, com a persistência e firmeza política de Gegê.

Um pouco aprendemos nesses 26 dias, mas muito ainda teremos que aprender no percurso da vida e da luta coletiva. Afinal, não é possível o viver bem se não for por um caminho coletivo.

 

Otávio Dutra é médico da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares e integrante da equipe de apoio à greve de fome de 26 dias.

Edição: Cecília Figueiredo