Análise

Artigo | Rompimento democrático no Brasil contemporâneo: do golpe à resistência

As figuras que organizaram uma máfia escondida atrás do latifúndio, da bíblia e da bala, não representarão a nação

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Edmar: "A transição de um Estado de privilégios para um Estado de Direito amedrontou forças saudosistas da Casa Grande" / Foto: Mídia Ninja

O golpe de Estado em curso no Brasil contemporâneo tem suas raízes no medo que a elite colonialista sente ao ver ameaçado seu sistema oligárquico de manutenção de privilégios. A transição de um Estado de privilégios para um Estado de Direito amedrontou forças saudosistas da Casa Grande.

Desde a eleição do presidente Lula, assim como sua reeleição, marcos históricos, pois pela primeira vez o Brasil e a América Latina assistiam à chegada do povo ao poder, uma nova era na política brasileira despontava e enfim iniciara uma grande agenda para o país que visava o combate às desigualdades, a efetivação dos Direitos Humanos, o respeito à diversidade e concretização na vida prática das pessoas dos princípios enunciados pela Constituição Cidadã de 1988.

Todavia, esta guinada não se daria sem uma estratégia bem organizada pelos inimigos da sociedade. O processo foi rompido, pois as mudanças tocavam o cerne da tradicional política colonialista que vigorava ate então. O novo projeto político, embora com erros, atingiu o ponto arquimédico que sustentava todo o edifício do sistema conservador erguido desde o Império e mantido em quase todos os períodos da história brasileira. O povo, refém do poder do capital e das oligarquias, experimentara pela primeira vez o ideal democrático e republicano. Passava-se de uma sociedade arcaica e segregacionista para uma sociedade baseada nos valores fundamentais da cidadania participativa, em vista da consolidação da democracia e da vontade popular.

Este processo foi rompido através de parte do parlamento brasileiro, composta pelos piores exemplares de políticos representantes de partidos nunca comprometidos com o povo. Arquitetou-se assim um golpe bem articulado entre instâncias políticas e pelo poder judiciário. Aliaram-se a esta corrente forças conservadoras e grupos psiquicamente atraídos pela ideologia fascista. Por fim estes grupos encontraram numa mídia irresponsável e espúria o apoio necessário para paralisar o processo democrático e fazer o país retroceder aos períodos mais tenebrosos de sua história.

O impeachment da presidenta Dilma foi sustentado sobre os argumentos do machismo, do militarismo, da criminalização dos movimentos sociais, da aversão à diversidade e da exaltação do preconceito e racismo, demonstrando o visceral objetivo de desmontar os mecanismos de ascensão dos mais pobres através da educação.

Aproximam-se as eleições de 2018 e o povo terá a oportunidade de demonstrar que quer de volta o ideal democrático e republicano. Mesmo preso, o presidente Lula tem a maioria das intenções de voto e a presidenta Dilma lidera as pesquisas para o Senado, superando os candidatos representantes do retrocesso, como Bolsonaro e Alckmin, que expõem suas ignorâncias e suas imbecilidades à população.

O povo sabe o que quer e resiste ao golpe. As figuras ultrapassadas e toscas, que alimentaram uma cadeia de corrupção e organizaram uma máfia perigosa escondida atrás do latifúndio, da bíblia, da bala e da toga, não representarão a nação, pois sem argumentos republicanos incentivam a violência, a tortura; sem racionalidade exaltam a hipocrisia e a ignorância; prostituídos pelo poder não reconhecem a vontade popular, recalcados psiquicamente transferem seu transtorno para as esferas políticas e infectam os tecidos que deveriam compor o organismo saudável da sociedade, oferecendo não serviços essenciais e negligenciando os consagrados direitos à saúde, educação e moradia.

O golpe mata a pátria, assassina o povo e saqueia a nação. Nas eleições deste ano, o povo poderá manifestar sua resistência e seguir lutando por um país definitivamente livre e igualitário.

*Edmar Avelar de Sena é professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

Edição: Joana Tavares