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Artigo | O mito dos agrotóxicos inócuos: quando "sustentologia" rima com astrologia

Eduardo Gudynas analisa os mitos científicos em torno do glifosato e o novo termo do agronegócio: a sustentologia

Enquanto ministros e cientistas dizem que glifosato é menos tóxico que cafeína, processos colocam em cheque as mentiras da Monsanto. / Wuzef/Pixabay via Creative Commons

As polêmicas sobre os riscos e efeitos de um dos herbicidas mais usados no planeta, o glifosato, não acabam. Ganharam um novo impulso após a divulgação do veredicto contra o mais conhecido produtor, a Monsanto, declarada culpada em um processo travado por um jardineiro de 46 anos que sofre de câncer terminal. A corporação terá que pagar 289 milhões de dólares. E existem outros oito mil processos.

Nos dias posteriores, o valor de mercado da empresa alemã Bayer, que acaba de comprar a Monsanto, caiu para a cotação mais baixa em cinco anos, com perdas de 18 milhões de dólares - e só agora está se recuperando. Se os próximos julgamentos seguem o mesmo caminho, a empresa deve enfrentar indenizações de até 5 bilhões de dólares. Em paralelo, países como França, Itália e Alemanha anunciaram que irão revisar suas posturas sobre o glifosato.

Tudo isto surtiu efeito também nos países da América do Sul que fazem uso intensivo do glifosato, principalmente nos monocultivos de soja transgênica (Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai). Muitos grupos da sociedade civil utilizaram a sentença dos Estados Unidos para reforçar a crítica ao herbicida. Nesses países, o uso do herbicida e da soja transgênica tornou-se mais intenso pela tentativa de superação de problemas econômicos através do incremento da agroexportação.

Defendendo o glifosato

Em todos esses países, a defesa do glifosato parte de um conjunto amplo que inclui o governo, acadêmicos, agricultores e empresas de insumos agrícolas. Eles argumentam que o glifosato é uma substância inócua, sem riscos se bem manuseada, e proclamam que isso é uma verdade “científica”. Acrescentam que as críticas e advertências seriam ideias de charlatões ou ignorantes. Por exemplo, na Argentina, o ministro de Ciência e Tecnologia comparou o glifosato com água e sal e, no Uruguai, o Ministério da Pecuária e da Agricultura afirmou que a substância seria como uma aspirina (1).

No meio acadêmico surgiram alguns slogans que sustentam que o glifosato é menos tóxico do que a cafeína, como defende um biotecnólogo espanhol no suplemento Rural do jornal argentino Clarín, de Buenos Aires (2). Essa imagem é poderosa: se o glifosato é como o café, não deveria ter nenhuma regulamentação, assim como aspirinas são vendidas em qualquer farmácia.

De mãos dadas com essa campanha, os empresários rurais argentinos lançam agora a ideia de “sustentologia” (3). Esse conceito é apresentado como uma fusão da ciência, tecnologia e sustentabilidade - um termo que evoca o cuidado ambiental. Esta é uma estratégia que segue a mesma lógica que é empregada pelas corporações mineradoras com a chamada “mineração sustentável”.

Portanto, estamos diante de dois argumentos: um que sustenta que o herbicida glifosato é inócuo e que isso está comprovado cientificamente; e a outra, como consequência, de que é possível ter uma agricultura “sustentável”, a “sustentologia”, que utilize esse agrotóxico. É necessário abordar estas concepções para deixar claro que elas não são apenas falsas, mas são perigosas, acima de tudo.

Herbicida e café: uma comparação sem sentido

A comparação do glifosato com o café ou com a aspirina, apesar de ser usada inescrupulosamente por alguns acadêmicos, na verdade não provém do âmbito científico, mas das próprias corporações. Há vários anos, a Monsanto e os portais apoiadores da corporação, como o Genetic Literacy Project, apresentam essas comparações.

Formalmente, é certo que o café é mais “tóxico” que o glifosato, mas essa imagem é uma simplificação e deformação tão extrema que se torna impossível. Em primeiro lugar, vamos esclarecer que o glifosato não é servido sozinho, mas que o “herbicida” é realmente um composto que incorpora outras substâncias, como tensoativos, por exemplo, cada uma com riscos específicos e com efeitos complementares entre elas. O estudo dos impactos deve considerar esse conjunto.

Uma segunda questão-chave: esta comparação com o café está baseada somente na toxicidade aguda e desse modo desaparecem, por um lado, a toxicidade crônica, e, por outro lado, a carcinogênese, ou seja, a responsabilidade da substância na ocorrência do câncer. Não é de se estranhar que essas referências ao café ou a água com sal sejam qualificadas por alguns toxicologistas como comparações “estúpidas”: é como considerar que o cigarro é pouco tóxico já que é muito difícil morrer asfixiado pela sua fumaça, ocultando que ele aumenta a incidência de certos carcinomas no fumante e naqueles que o rodeiam.

Um terceiro erro é a cegueira diante da multiplicidade dos âmbitos afetados. Não existem só os efeitos diretos do herbicida sobre aqueles que o aplicam, mas também contam os impactos indiretos, como, por exemplo, os vizinhos fumigados e além deles, o que acontece com todas as pessoas que consomem alimentos ou bebidas contaminadas por esses químicos.

Uma quarta consideração é que tampouco pode-se excluir as discussões sobre os impactos destes herbicidas, incluindo sobre a fauna e a flora.

O mito diante dos alertas científicos

Paralelamente, insiste-se que não existe evidência científica sólida sobre efeitos crônicos ou cancerígenos dos herbicidas sobre a saúde. É certo que alguns estudos indicam isso. Mas o que não se diz é que há muitos outros estudos científicos que apontam impactos concretos ou possíveis na saúde, seja por observações diretas como por ensaios em laboratórios. Esses estudos indicam desde danos renais a alterações no funcionamento endócrino e hepático, ainda que a maior preocupação esteja no seu fator cancerígeno, há outros que inclusive apontam que é teratogênico (induz malformações em recém-nascidos) e, por fim, que algumas consequências não aparecem necessariamente no sujeito afetado, mas em seus descendentes (5).

Por isso, quando o biotecnólogo José Mulet afirma ao Clarín que “o debate científico não existe” ao defender sua inocuidade, está profundamente errado. A controvérsia científica é enorme, muito intensa e agora admite-se que as regulamentações atuais estão baseadas em uma ciência antiquada e que por isso são necessários novos estudos epidemiológicos e novos padrões (6).

Toda esta situação se torna mais complicada ao saber que Monsanto atua sobre a comunidade científica para defender seu produto, simultaneamente atacando as pessoas e os relatórios que advertiram sobre seus efeitos negativos e atuando inclusive sobre técnicos da agência de proteção ambiental dos Estados Unidos (EPA, na sigla em inglês) (7). Isto deve gerar uma enorme preocupação nos países do sul, já que é comum que as decisões da EPA sejam tomadas como referência para controles próprios.

Os promotores da mitologia do glifosato não são cientistas. Eles não duvidam e sabem de tudo, uma atitude muito diferente da de um cientista, que sempre duvida. Por isso, se trata de uma retórica mais própria de um tecnólogo que defende sua ferramenta preferida. Isso não deve soar estranho já que a Monsanto é uma provedora de tecnologias.

Como promotores tecnológicos tampouco compreendem as implicações nas políticas públicas. Mais uma vez, a comparação entre café e glifosato revela essa limitação. Afinal de contas, a decisão de tomar café é sempre pessoal e a quantidade de xícaras que alguém pode tomar determinará as consequências tóxicas no próprio corpo. Mas no setor agroalimentar, as empresas e governos nos privam dessa capacidade de decidir sobre os tipos de alimento ou bebida que preferimos, já que quase tudo está contaminado por glifosato. Por tudo isso, a imagem que compara glifosato com café ou água com sal, só serve para pacificar a cidadania  diante de uma imposição autoritária de uma tecnologia que é incapaz de conter a si mesma e contamina tudo que tem ao seu redor. Simultaneamente, desgasta uma ciência que serve para alimentar um debate democrático.

Sustentologia: astrologia para agrotóxicos

A ideia de “sustentologia” está inserida nesse contexto, como uma síntese da ciência, da tecnologia e da sustentabilidade. Como já vimos acima, o componente “ciência”, se levado a sério, exige a retirada do glifosato da agricultura intensiva. Do mesmo modo, as ideias originais de sustentabilidade provém das ciências ambientais, incluindo as denúncias iniciais contra os agrotóxicos pelos seus impactos nos ecossistemas. Por isso, se esse fator for corretamente considerado, ele se torna mais uma razão para impedir o uso do glifosato. Na contra-mão disso, a “sustentologia”, lançada na Argentina, é usada em um sentido oposto, para justificar o uso de agrotóxicos e os monocultivos.

De um jeito ou de outro, fica evidente que estamos diante de crenças que, para além das intenções ou sinceridade de cada um, são quase uma religião. Nos afastamos da ciência em seu sentido estrito, e a utilizamos em seu sentido inverso, atribuindo toda a carga da prova a aqueles que percebem os riscos de ser contaminados pelo glifosato ou outros químicos, devendo demonstrar a periculosidade desses produtos. Quando alguém pode fazê-lo já é demasiado tarde, como no caso do jardineiro que processou a Monsanto e que tem uma expectativa de vida de apenas dois anos, segundo os médicos.

O mito do glifosato ser mais inócuo que é o café nos coloca em um campo que é mais próprio do que poderia ser uma astrologia agropecuária produtivista. A esses crentes, que não têm dúvidas ao dizer que o glifosato rima com aspirina, eu lhes digo que sustentologia rima com astrologia.

Notas

(1) Sobre o caso argentino veja mais em “Ministros dos Agrotóxicos”, por D. Aranda, Página 12, Buenos Aires, 6 de agosto de 2018; sobre o Uruguai, veja “Agroquímicos como aspirinas: maniobrando contra la agroecología”, por E. Gudynas, Montevideo Portal, 15 de julho de 2018.

(2) “O glifosato é seguro”, por José M. Mulet, Clarín Rural, Buenos Aires, 23 de maio de 2018. O autor é professor da Universidade de Valencia (Espanha) e, segundo os registros públicos, patenteia produtos com a corporação BASF (disponível em https://patents.justia.com/inventor/jose-miguel-mulet-salort)

(3) No XXVI Congresso da Aapresid. La Nación, Buenos Aires, 18 de agosto.

(4) Ressalto que não tenho nada contra o uso de imagens, metáforas e slogans, e de fato me aproveito delas para denunciar problemas ambientais. Mas esse recurso deve servir para trazer novas informações, não para ocultá-las, deve desentranhar complexidades e não simplificar, e deve alimentar um pensamento crítico próprio e não uma aceitação passiva.

(5) Como exemplo, veja “Teratogenic effects of glyphosate-based herbicides: divergence of regulatory decisions from scientific evidence”, por M. Antonious e colaboradores, Environmental Analytical Toxicology S4, 2012.

(6) “Preocupações com o uso de herbicidas à base de glifosato e os riscos associados com a exposição: uma declaração de consenso”, por J.P. Myers e colaboradores, Environmental Heatl, 15, 2016.

(7) Essas e outras ações da Monsanto contra Academicos, suas instituições e revistas, estão ilustradas nos “Monsanto Papers”; uma seleção em espanhol está disponível no site http://monsantopapers.lavaca.org/.

*Eduardo Gudynas é investigador do Centro Latino Americano de Ecologia Social (CLAES), em Montevidéu, Uruguai. Twitter: @EGudynas

 

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira | Tradução: Luiza Mançano