Eleições

Em Pernambuco, todos os candidatos buscam Lula

Em debate entre candidatos ao governo de PE, o ex-presidente foi citado por todos os candidatos, mas nenhum criticou

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Fotos na matéria: Ricardo Stuckert / Comunicação PSOL / Ricardo Stuckert

Na terça-feira (28) houve o primeiro debate entre os candidatos ao Governo de Pernambuco. Dos sete postulantes ao Palácio do Campo das Princesas, participaram os quatro melhor colocados nas pesquisas de intenção de voto: Paulo Camara (PSB, candidato da Frente Popular de Pernambuco); Armando Monteiro (PTB, da chapa Pernambuco Quer Mudar), Maurício Rands (PROS, da chapa O Pernambuco que você quer) e Dani Portela (PSOL, da chapa A Esperança não tem medo). A Rádio Jornal realizou o debate.

Com o governo mal avaliado, Paulo Camara (PSB) foi o principal alvo dos adversários. Os temas de saúde, segurança e obras estruturais foram as pautas mais frequentes dos opositores, enquanto a educação - área priorizada na propaganda do PSB - foi mencionada apenas uma vez, trazida justamente pelo governador. Sobre o tema, Camara reafirmou que a educação pública de Pernambuco é referência nacional e tem menor diferença do país em relação ao desempenho das escolas privadas. Armando Monteiro (PTB) retrucou que 13,4% da população do estado é analfabeta e que o governo poderia estimular os municípios a investirem no Ensino Fundamental.

Lula

Novamente candidato e com uma intenção de votos que beira os 70% em Pernambuco, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve seu nome mencionado por todos os candidatos - mas nenhum o criticou. Armando Monteiro (PTB), que dá palanque a Alckmin (PSDB) no estado, se disse "leal" ao petista. Dani Portela (PSOL), por sua vez, disse que seu partido "é de esquerda e esteve ao lado de Lula e Dilma". Maurício Rands (PROS) foi um pouco crítico, ao dizer que "Lula não é candidato", mas noutro momento lembrou que já foi líder do Governo Lula na Câmara Federal. Paulo Camara, por sua vez, falou várias vezes que é aliado de Lula "para Pernambuco voltar a ter investimentos".

Dilma, o impeachment e Temer

Já o rótulo de aliado de Temer foi jogado de um lado para o outro, entre Armando Monteiro e Paulo Camara. O senador do PTB lembrou ter votado contra o impeachment, disse que Paulo Camara "tem responsabilidade na origem do Governo Temer" e questionou se o governador se arrepende de ter apoiado a retirada de Dilma Rousseff (PT) em 2016. Paulo Camara tentou se defender. "Sabemos que o impeachment não foi bom para o Brasil. Mas naquele momento o meu partido avaliava que o ideal seria a saída dos dois, Dilma e Temer, para termos eleições diretas", disse.

O governador também retrucou que hoje já fez as pazes com o PT, enquanto Monteiro seria aliado de Temer. "Seu palanque apoia tudo o que o presidente Temer implantou no Brasil. Inclusive os ministros de Temer são candidatos a senador na sua chapa", disse Paulo Camara. O governador continuou, mencionando inclusive um "traidor" de seu partido, o deputado Fernando Filho (ex-PSB, hoje no DEM). "Ele assumiu um ministério [o das Minas e Energia] contra a vontade do meu partido. Inclusive ele hoje é seu aliado [de Armando Monteiro]. Fernando Filho fez um desserviço para o Brasil. Ele aumentou o preço da gasolina, do gás de cozinha e tentou privatizar a Eletrobras/Chesf. A turma do Temer está no seu palanque", disse Paulo Camara.

Maurício Rands (PROS) também apontou a relação de Armando Monteiro (PTB) com Temer. Rands perguntou ao senador como ele avaliava as atuações de Mendonça Filho (DEM) e Bruno Araújo (PSDB) como ministros de Temer. A dupla hoje é candidata ao Senado na chapa de Armando. Na encruzilhada, o petebista preferiu elogiá-los. "Avalio muito bem. Não podemos ter preconceito. Me sinto honrado de caminhar ao lado deles", disse, opinando ainda que Mendonça teria sido um grande ministro da Educação - apesar deste ter cortado verbas para a educação pública e algumas universidades terem passado meses fechadas por falta de recursos.

O advogado taxou ainda a chapa de Armando Monteiro, da coligação "Pernambuco Quer Mudar", como "um palanque predominantemente conservador", lembrando que ao lado de Monteiro estão o PSDB, o DEM e até o PSL de Jair Bolsonaro. "E você ainda se apresenta dizendo que vota em Lula", reclamou Rands. O advogado, por sua vez, foi cobrado por Dani Portela (PSOL), que apontou a contradição de Rands se colocar como oposição a Paulo Camara, mas seu partido [o PROS] continuar com cargos no governo.

O debate teve pouco mais de uma hora, dividido em quatro blocos: dois em que os candidatos faziam perguntas entre si e dois blocos em que os candidatos respondiam a perguntas de jornalistas. Ficaram de fora do debate os candidatos Julio Lossio (Rede), Ana Patrícia Alves (PCO) e Simone Fontana (PSTU).

Saúde

Sobre a saúde, Paulo Camara foi cobrado pela promessa feita em 2014 de que construiria quatro novos hospitais no estado. "Promessas não cumpridas diminuem a credibilidade da política. A saúde está um caos", criticou Maurício Rands (PROS), que se apresentou como "candidato de esquerda" e que lutaria para Pernambuco "se emancipar da Casa Grande". Paulo Camara (PSB) culpou a redução de repasses do Governo Federal para a saúde pública. "Há quatro anos os custos da saúde eram divididos meio a meio [entre governos estadual e federal]. Mas hoje Brasília só repassa o suficiente para 25% dos gastos e nós temos que colocar os 75%", reclamou o governador.

O candidato à reeleição também pontuou que a crise levou aproximadamente 160 mil pernambucanos a deixar seus planos de saúde privados e passaram a demandar do Sistema Único de Saúde (SUS). "Tivemos que ampliar em 10% os procedimentos do SUS no estado. Tivemos que fazer mais, gastando menos". Sobre a sobrecarga no Hospital Dom Malan, em Petrolina, o governador reafirmou que o Hospital da Mulher prometido para Petrolina precisa ser feito, mas que a prioridade é o Hospital Geral do Sertão, cujas obras se iniciaram apenas este ano, no km 418 da BR-232. Batizado com o nome de Eduardo Campos, o hospital vai abranger mais de 10 municípios dos sertões do Pajeú e do São Francisco.

Camara também afirmou que seu governo conseguiu reduzir a mortalidade materna e a infantil - esta última, após oito anos de queda, havia crescido em 2016, mas voltou a cair em 2017. A candidata do PSOL, Dani Portela, disse ter informações de que os repasses de verba do Governo do Estado para os municípios não são feitos em igualdade, mas que Paulo Camara estaria favorecendo os prefeitos aliados. A advogada e historiadora se apresenta como "a única candidata que não pertenceu ao governo" e que pretende governar o estado "de mãos dadas com o povo".

Segurança Pública

Sobre segurança pública e violência falaram Armando Monteiro (PTB) e Dani Portela (PSOL), concordando que o estado precisa atuar em dois âmbitos: o da prevenção e o da repressão. A socialista falou da necessidade de investimento em inteligência policial, "já que temos um número altíssimo de crimes não solucionados" e criticou o Pacto Pela Vida. "Não foi pelas nossas vidas. A juventude pobre, negra, das periferias, continua sendo assassinada e encarcerada por esse estado violento". Ela também pontuou a necessidade de gerar emprego como forma de reduzir a violência. Sobre feminicídio ela propôs mais delegacias da mulher e a inserção ao mercado de trabalho como forma de reduzir a violência contra a mulher.

Armando Monteiro acusou Paulo Camara de "terceirizar a culpa" dos problemas no estado e disse que Eduardo "tomava para si" os problemas. O candidato do PTB também foi questionado sobre a superlotação das prisões do estado, que têm três vezes mais detentos do que comporta. Sua proposta imediata é firmar uma Parceria Público-Privada (PPP) para construção e gerenciamento de novos presídios. "Em Minas Gerais esse formato deu certo. Mas infelizmente Pernambuco foi malsucedido na PPP do presídio de Itaquitinga, por um erro de escolha da empresa parceira”.

Infraestrutura

O governador também foi cobrado sobre obras de infraestrutura do estado. Maurício Rands (PROS) e Dani Portela (PSOL) criticaram as barragens não finalizadas na região da zona da mata sul, que voltou a sofrer com enchentes em 2017. Portela cobrou "descentralização dos recursos para que todas as regiões do estado voltem a crescer", enquanto Rands disse que o estado precisa de um governador "com mais capacidade de articulação política em Brasília e com o empresariado" para realizar obras. O candidato do PROS disse ainda que, no caso das rodovias, pretende "fatiar" trechos de 10km a 20km para diferentes empresas realizarem manutenção.

Sobre as obras hídricas, o governador confrontou a candidata do PSOL afirmando que, apesar da crise, o estado deu respostas ao problema. "A Transposição e a Adutora do Agreste são obras do Governo Federal e andam a passos lentos. Mas fizemos investimentos, entregamos adutoras, ampliamos o acesso a água para mais de dois milhões de pessoas", disse, lembrando ainda a seca de sete anos pela qual passou a região. Portela questionou se as obras "estão a serviço do setor industrial ou estão atendendo ao agricultor e pequeno empreendedor?". A advogada também reclamou a necessidade de uma política pública de saneamento básico, para impedir novos surtos como os da chikungunya, da zika vírus e de microcefalia.

Economia

Sobre economia, Armando Monteiro (PTB) disse que a federalização da gerência de Suape não deu certo e que a gestão do complexo industrial precisa voltar para Pernambuco. "Nos últimos anos Suape teve cinco presidentes", reclamou, pautando ainda a necessidade de um segundo terminal de contêineres. Já Maurício Rands (PROS) falou da proposta de uma moeda comunitária municipal que circule em algumas cidades do interior. "Isso evitaria a fuga de recursos para outros municípios, algo que tem acontecido em consequência das explosões dos caixas eletrônicos. E ainda reduziria a bandidagem, já que esta moeda não teria utilidade noutra cidade". Ao tratar do aumento da receita do Estado, Dani Portela disse ser necessário buscar renda combatendo a sonegação fiscal. "São mais de R$ 15 bilhões de passivo de dívidas e nem 1% disso é arrecadado". A socialista também pautou a redução dos cargos comissionados.

Edição: Monyse Ravena