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O que tu indica? | Cartas da Mãe

A valiosa produção artística e literária de Henfil expressava estratégias de resistência em tempos de golpe

Brasil de Fato | Recife (PE)

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As cartas publicadas na “Isto É” foram compiladas no livro Cartas da Mãe - Henfil / Divulgação

1977, 1978, 1979, 1980…Timidamente, Henfil ia escrevendo o nome de Geisel, “pra ele acostumar e não achar que era desrespeito”. Assim, a censura não viria para o cartunista, que foi tomando liberdade nas entrelinhas das cartas envidas à Dona Maria, sua mãe, usando a linguagem dela, o jeitinho dela de dizer as coisas e o respeito que Dona Maria provocava.

As cartas publicadas na “Isto É” retratam os apertos, os medos, a campanha pela anistia, os depoimentos no exílio de Betinho, seu irmão, exilado no Canadá, as greves do ABC, a volta dos exilados. Compiladas no livro Cartas da Mãe - Henfil, de narrativa clara, as cartas também levam o leitor a possíveis debates de profunda relevância na atual conjuntura, como as lutas pela democracia.

Na carta escrita em 25 de maio de 1977, Henfil conversa com Dona Maria: 

“Soube lá ainda que a próxima campanha do Fantástico será para conseguir doações de votos para transplantar em senadores, portadores de eleição indireta. E vem aí uma campanha cheia de rejeições e difícil de conseguir doadores: é a do transplante de democracia (p.20).”

Portanto, retomar o olhar para as Cartas de Mãe do Henfil, lendo a primeira carta, depois a segunda… despertará no leitor a curiosidade de, voltando lá trás, explicar o tempo presente que em muitos aspectos se parecem, reaparecem: 

"Mãe,

Não há uma só pessoa hoje no Brasil que não vá dormir se sentindo culpada. Mesmo não tendo fogão a gás nem isqueiro.

Faz tempo que eles vêm insinuando que a gente desperdiça (…). Não foram poucas as vezes que nos deram carão e ameaçaram que, se não aprendêssemos a economizar, eles iam ter que tomar medidas enérgicas.

Quarta-feira o primo, em pessoa, ocupou a televisão para anunciar medidas mais severas, comunicar que vamos passar a viver sob uma economia de guerra! (São Paulo, 11 de julho de 1979)."

Assim a valiosa produção artística e literária de Henfil, que conta com uma variação de personagens, humores e acidez em sua prosa, vai expressando estratégias de resistência em tempos de golpe, repressão e violência e inspirando até os dias atuais a (re)visitação da sua obra.

*Laila Costa, militante do Levante Popular da Juventude

Edição: Monyse Ravena