Eleições

Papel do Nordeste nas eleições presidenciais de 2018 é tema de debate no Recife

Programa Fora da Curva desta terça contou com presença de cientista político, jornalista e repórter do Brasil de Fato

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Programa foi ao ar nesta-feira (04) e está disponível nas redes sociais da Rádio Universitária / Reprodução

A influência do Nordeste nas eleições de 2018 foi tema de debate promovido pelo programa Fora da Curva da terça-feira (04). A conversa contou com a presença do cientista político e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco Túlio Velho Barreto, da jornalista e professora de comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Fabiana Moraes e de Vinícius Sobreira, jornalista do Brasil de Fato Pernambuco.  

O Fora da Curva foi apresentado por Manina Aguiar, do Centro das Mulheres do Cabo, e Sergio Miguel, da Marco Zero Conteúdo. A apresentadora introduziu a discussão relembrando que em 2014, nas últimas eleições presidenciais os votos dos brasileiros moradores das regiões Norte e Nordeste foram decisivos para a reeleição de Dilma Rousseff (PT). Naquele ano, a ex-presidenta conseguiu abrir uma vantagem sobre Aécio Neves (PSDB) em todos os estados do Nordeste e em quatro dos sete estados do Norte do país, alcançando mais de 70% em algumas regiões.

Por outro lado, a situação foi bem diferente nas regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste, cujos eleitores deram mais votos ao PSDB que à candidata petista, com exceção do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Dessa forma, após divulgado resultado o das eleições, a polarização política entre as regiões brasileiras ficou evidenciada e houve uma onda de ataque em redes sociais aos eleitores nordestinos. Essa onda de intolerância ao processo democrático gerou uma reação dos nordestinos, que alcançaram os trending topics do twitter com palavras de orgulho por serem parte dessa região.

Em 2018, o Nordeste conta com quase 40 milhões de eleitores, o que representa aproximadamente 26% do eleitorado total do país, sendo a segunda maior região em número de votos, o que pode ser, novamente, um fator decisivo para as eleições presidenciais.

Nesse sentido, o cientista político Túlio Barreto afirmou que esses ataques ofensivos sofridos pelos nordestinos são carregados de preconceito e desconstruiu esse argumento afirmando que o quantitativo do eleitorado do Nordeste pode ser considerado baixo quando comparado à região Sudeste, que concentra aproximadamente 43% do eleitorado brasileiro, de maneira que os votos sudestinos possuiriam um peso significativo e que, no contexto de 2014, esses votos também não abraçaram de maneira majoritária ao projeto político do PSDB. Túlio citou como exemplo a derrota sofrida naquele ano por Aécio Neves em Minas Gerais, onde Dilma obteve mais de 52% dos votos mesmo o candidato psdbista sendo senador por aquele estado.

O cientista político defendeu, também, que o resultado final das eleições presidenciais é responsabilidade de todo o conjunto da população brasileira. Além disso, citou como justificativa para esse apoio majoritário do Nordeste ao PT a questão social, que não se resume apenas aos programas de distribuição de renda amplamente desenvolvidos nas gestões petistas, mas também à valorização do salário mínimo, que chegou a corresponder a mais de 300 dólares nos primeiros anos do governo Dilma, enquanto que os governos anteriores buscavam mantê-lo sempre em torno dos 100 dólares, chegando, inclusive, a números abaixo disso por muitas vezes.

A jornalista Fabiana Moraes também trouxe elementos interessantes para o debate, como, por exemplo, o fato da eleição de 2014 ter sido a primeira em que o Nordeste superou o Sudeste em número absoluto de votos no PT. A jornalista também falou um pouco sobre a rápida associação feita entre a pobreza e o voto na região Nordeste, considerada por ela uma colocação preconceituosa porque remete ao traço da exclusão social historicamente associado ao povo nordestino. Fabiana aproveitou também para questionar o argumento da “racionalidade” a que se referem os eleitores sudestinos, interrogando o porquê dos votos das demais regiões do país serem baseados em uma questão pragmática de perdas e ganhos de benefícios a partir do voto, enquanto que o voto dos mais pobres é considerado não pragmático, mesmo sendo um voto que leva em conta questões concretas e perceptíveis pela população, como a melhoria salarial e o aumento da qualidade de vida.

Em sua colocação, já apontando para o cenário eleitoral atual e o papel desempenhado pelo nordeste nas eleições de 2018, o repórter do Brasil de Fato Vinícius Sobreira defendeu que, apesar de percentualmente o nordeste corresponder a um quarto do eleitorado brasileiro, ainda assim há um abismo que separa as intenções de votos no PT e as demais candidaturas nos estados que compõem a região, enquanto que nas demais regiões do país os cenários costumam ser mais equilibrados.

Vinícius apresentou, como exemplo, as pesquisas eleitorais realizadas pelo Instituto Datafolha, cujos os dados apontam que, para o primeiro turno das eleições deste ano, Lula lidera com grande vantagem nos estados nordestinos. O estado onde o ex-presidente apresenta a mais elevada porcentagem é no Piauí, onde chega a receber 65% das intenções de voto e, mesmo nos estados onde Lula apresenta números menores, essas porcentagens ainda superam os 50%, enquanto que a soma das intenções de voto em Geraldo Alckmin (PSDB) e Jair Bolsonaro (PSL) beiram os 20%. Por outro lado, o estado onde Lula obtém os piores números é em Santa Catarina, da região Sul do Brasil, em que as intenções de voto em Lula chegam a 20%. Apesar de estar bem abaixo quando comparado ao Nordeste, esse dado já supera a média nacional de Bolsonaro, segundo colocado nas pesquisas.

O programa Fora da Curva vai ao ar de segunda a sexta às 11h na Rádio Universitária. O debate do programa desta terça-feira pode ser conferido na página do Facebook da rádio. 

Edição: Monyse Ravena