VIGÍLIA LULA LIVRE

De quando a força de Marielle Franco visitou Lula na vigília

O encontro da militância com os pais de Marielle ficou marcado pela emoção e solidariedade de ambas as partes

Brasil de Fato I Curitiba (PR)

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Marinete e Antônio inauguraram, junto às organizações da Vigília Lula Livre, o centro de Formação e Cultura Marielle Vive / Mauro Calove

A Vigília Lula Livre recebeu a visita de Antônio Francisco da Silva e Marinete da Silva, pais da vereadora Marielle Franco, assassinada em 14 de março de 2018. O encontro da militância com os pais de Marielle ficou marcado pela emoção e solidariedade de ambas as partes.

Eles chegaram para dar o tradicional “Boa Tarde Presidente Lula” e depois saíram em marcha com a militância para o “Bosque Lula Livre”, onde plantaram duas araucárias, uma em homenagem a Marielle Franco e ao motorista que a acompanhava, Anderson Pedro Gomes.

Durante o plantio das árvores, a cantora Brisan Ferreira N'Tchala, militante do movimento negro, fez intervenções artísticas e plantou também, entre as duas mudas de araucárias, uma muda de espada de São Jorge, popularmente conhecida por oferecer proteção, de acordo com religiões de matriz africana.

Não sabiam que éramos sementes

A cantora falou sobre a importância da representatividade de Marielle para outras mulheres e meninas negras. “Se ela se tornou esse ícone, uma das vereadoras mais votadas e fez toda essa guerra, esse combate mesmo pela nossa dignidade de mulher negra, é porque ela teve um amparo, é por que ela teve duas pessoas guerreiras ali fazendo a linha de frente. Então eu agradeço muito a presença de vocês aqui. Vocês tem o meu profundo respeito”, disse, referindo-se aos pais da vereadora.

Ao voltarem à Vigília, foi feita a “Roda de Conversa” com os militantes presentes, com o tema “A impunidade contra os lutadores do povo – indignação transformada em resistência”. Ali, os pais de Marielle falaram um pouco sobre a personalidade forte da vereadora e sua trajetória de vida.

Antônio agradeceu a homenagem e disse se emocionar com o reconhecimento que recebem do povo brasileiro pelo trabalho da filha, que teve uma trajetória curta. “Ela foi uma ativista vinda da periferia, uma ativista negra, que galgou a PUC, uma universidade da elite. A trajetória dela mostra que se o negro e o periférico tiverem oportunidades, podemos virar o jogo”, comentou.

Já Marinete contou que a vereadora conheceu o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol-RJ) por meio de Aniele, irmã mais nova de Marielle e que ali iniciou sua trajetória junto aos Direitos Humanos, cada vez mais engajada. “Acabou assumindo a Coordenação de Direitos Humanos da ALERJ com o Marcelo em dois mandatos. Só saiu quando se candidatou”, relatou a mãe, que disse ter sido contra a candidatura da filha, por achar que ela já estava muito envolvida e Freixo muito visado. “Mas quem é que segurava um furacão daquele? Sempre foi muito determinada”, relembrou.

Projetos e Investigação

Marinete e Antônio ressaltaram que, depois da morte de sua filha, foram aprovados projetos de lei que ela e sua equipe encaminharam ao plenário da Câmara de Vereadores da cidade do Rio de Janeiro. Todos eles obedecem à lógica da mulher negra, pobre a da favela. Um dos projetos é o da creche noturna, pensado para pais que estudam ou trabalham à noite.

Outros desses projetos são aprovados são a inclusão do dia Thereza de Benguela no calendário oficial da cidade para celebrar o dia da mulher negra; a campanha permanente de prevenção e enfrentamento ao assédio e violência sexual nos espaços e transportes públicos. Em vida, Marielle teve o projeto que prevê a construção de mais casas de parto normal que atendem as gestantes com atenção humanizada. A prioridade do projeto é atender as zonas com menor IDH do município.

Investigação

Durante a roda de conversa foi também colocada a situação da investigação, que corre em segredo de justiça e por isso, segundo Marinete, eles não sabem muito bem em que patamar está, mas que são trabalhadas duas principais linhas de investigação. Ainda assim, a maioria das coisas que ficam sabendo sobre o caso da morte de sua filha é pela imprensa.

Marinete, que é advogada, acredita que a intervenção militar é um laboratório e percebe que a morte de Marielle é tratada como um troféu e que os investigadores prometem apontar uma solução até o fim do ano. Ela evita colocar qualquer jurista que queira se promover em cima do sofrimento da família. Já Antônio procura entender motivos que possam ter levado ao assassinato de Marielle. “Nós queremos que seja a realidade. Quem realmente mandou, por que mandou e quem matou”, enfatiza o pai da vereadora.

Marielle Vive: formação e solidariedade

Depois da roda de conversa, Marinete e Antônio inauguraram, junto às organizações da Vigília Lula Livre, o centro de Formação e Cultura Marielle Vive. O espaço, que tem uma cozinha comunitária, um espaço de formação e um espaço de exibição de filmes, tem também um muro transformado em painel por Tarcísio Leopoldo, artista do setor de cultura do MST.

O painel foi pintado com os rostos de Marielle Franco, Karl Marx, Rosa de Luxemburgo, entre outras personalidades lutadoras e pensadoras. “É um espaço que dialoga com as pessoas que passam por aqui, pela vigília, trazendo teoria e prática para o momento de indignação que estamos vivendo”, comentou o ilustrador.

Depois de abertos os portões, foi feita uma leitura dramática do texto “Ordens de cima”, de Pedro Carrano uma alegoria aos abusos da justiça durante todo o processo de condenação de Lula a partir da visita de Leonardo Boff ao ex-presidente, barrada pela juíza responsável pela execução penal, Carolina Lebbos.

Foi um ato de resistência em que todos se emocionaram e se solidarizaram mutuamente.

Antônio, emocionado comentou: “Parece que eu estou no céu. Marielle puxou a força da mãe e é hoje uma musa inspiradora”. Marinete também se sentiu acolhida. “Nunca na minha vida pensei em vivenciar isso tudo, sou muito agradecida”, comentou a mãe de Marielle Franco.

Edição: Redação Paraná