Pobreza

"Estão nos deixando sem país": entenda a crise econômica na Argentina

Moeda da Argentina perdeu metade do valor somente neste ano; Macri anuncia pacote de austeridade, uma exigência do FMI

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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O presidente Mauricio Macri (centro) admitiu que a pobreza no país vai aumentar com corte de gastos públicos / Nahuel Padrevecchi / GCBA

Aumento da pobreza e do desemprego, crescimento da inflação, fechamento de comércios e até ocorrência de saques em supermercados. Esse é o cenário da crise social e econômica pela qual passa a Argentina, como relata a jornalista Carina López Monja, militante da Frente Popular Darío Santillán.

"Estamos vendo situações que há muitos anos não víamos. Famílias inteiras que estão nas ruas porque já não podem pagar por um lugar onde morar; famílias que estão endividadas e já não tem como pagar essas dívidas; milhares de pessoas que todos os dias, em todo o país, vão aos refeitórios populares; e, nos últimos dias, já houve tentativas de saques a supermercados. E em um desses casos um menino de 13 anos foi assassinado pela Polícia", conta.

Ela se refere a Ismael Ramírez, morto com um disparo no peito na cidade de Roque Sáenz Peña, na província de Chaco, na segunda-feira (3). O adolescente não estava participando da tentativa de saque. De acordo com o jornal Página12, o diretor do Hospital 4 de Junho, que recebeu Ismael, confirmou que outro menor deu entrada no hospital ferido com uma bala no olho.

A turbulência social escancara o processo de crise econômica que atravessa o país. Desde janeiro, o peso argentino passa por um sucessivo histórico de desvalorização frente ao dólar e perdeu metade de seu valor. A moeda estadunidense chegou a ser cotada a 39 pesos argentinos. E se o dólar sobe, os preços também aumentam na Argentina, o que gera um ciclo inflacionário vicioso, além do fato de que os salários ficam defasados, caindo o poder de compra e gerando ainda mais pobreza. O desemprego atinge cerca de 9,1% da população ativa, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec).

"A pobreza vai aumentar", reconheceu o presidente da Argentina, Mauricio Macri, em pronunciamento na segunda-feira (3). O governo também anuncia que a inflação deve fechar o ano na casa dos 30%, como disse o mandatário, do partido liberal de direita Proposta Republicana, integrante da coligação Cambiemos.

Em reação à onda inflacionária, Macri anunciou que solicitaria a antecipação de parte do empréstimo de US$ 50 bilhões (cerca de R$ 202 bilhões) do Fundo Monetário Internacional (FMI). Este é o maior recurso já negociado pelo país com o Fundo. O acordo foi firmado em junho. Nesta semana, o ministro da Fazenda do país, Nicolás Dujovne, e sua equipe econômica, estão em Washington negociando com o órgão.

O Banco Central da Argentina, "para garantir que as condições monetárias mantenham seu viés contracionista", aumentou a taxa de juros para 60%, a mais alta do planeta. Outra decisão do governo anunciada esta semana foi reduzir seus ministérios pela metade. Dez pastas foram cortadas, entre elas, a da Saúde, da Ciência e Tecnologia e do Trabalho.

"Estão nos deixando sem país: sem educação, sem ciência, sem universidade", lamenta López Monja. "Nas últimas três semanas, o país se endividou de maneira milionária pelas próximas gerações." 

Protesto contra os cortes na educação, no último dia 24 de agosto | Foto: Marcha Noticias

Agenda de cortes

O economista Emiliano López, docente e pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet), explica que o pacote de medidas de Macri é um aceno às exigências que o FMI impõe para o empréstimo.

"A ideia de reduzir o Estado está muito presente na negociação. Em parte, acho que isso já estava assumido pelo governo como uma necessidade. Ou seja, o Fundo, em certa instância, justifica o que o governo já queria fazer ou implementar: essa agenda de cortes e ajustes para o povo argentino", afirma. 

O fundo internacional pede "equilíbrio das contas públicas" para firmar o acordo de repasses. Mas os cortes de gastos públicos, segundo o professor, atingem diretamente as classes populares, como com a redução programas sociais e demissões do quadro do funcionalismo público.

Macri afirmou, durante o anúncio do pacote de austeridade, que o país passaria por um período de "sacrifícios" e também admitiu que as medidas farão com que a pobreza aumente. "Temos que amadurecer e não continuar vivendo acima de nossas possibilidades", disse o presidente. "Vamos reagir a um problema básico que é gastar mais do que temos."

Crise estrutural

Emiliano López analisa que a atual crise econômica da Argentina é estrutural e se relaciona com o modelo de desenvolvimento econômico do país. 

"Na perspectiva mais histórica, esta nossa situação de país dependente da exportação de matérias-primas, da necessidade de financiamento através de dólares para custear nosso crescimento econômico. Isso é uma questão comum em toda a América Latina, mas que em nosso país está muito ligada à produção de alimentos", explica o professor.

Para ele, os problemas se agravaram a partir da agenda neoliberal de Macri, que, de acordo com o economista, aumentou o abismo de desigualdades entre trabalhadores e os poderes econômicos, ligados à oligarquia nacional e ao capital financeiro internacional.

"Desde dezembro de 2015 [quando Macri assumiu a presidência do país] até hoje, favoreceram esta lógica de acumulação muito forte em três setores da economia – o setor agropecuário; a grande indústria da grande burguesia que é, sobretudo, internacional; e outro, mais importante, o capital financeiro internacional", explica. 

"As políticas do governo favoreceram a estes três setores e, em algum ponto, a maioria dos economistas, inclusive os do establishment, sabiam que era muito provável que houvesse uma crise financeira em poucos anos na Argentina."

López também pondera que o endividamento vai impactar na redução de postos de trabalho na produção industrial e, consequentemente, irá aumentar no número de trabalhadores informais — os que mais estão sentindo o peso das decisões do governo.

"Os mais atingidos pela política deste governo são todos os setores populares, sobretudo aqueles que trabalham com economia popular ou têm trabalho precário, informais. Estes são os setores que estão mais complicados, porque a  desvalorização da moeda dos últimos meses impactou muito forte no preço dos alimentos e, além disso, no preço dos serviços públicos como luz, água e gás — que por uma decisão do governo estão quase dolarizados [vinculados ao preço do dólar]. Isso tem um impacto muito forte no consumo das classes populares", explica o economista.

"Combo" de crises

O quadro econômico faz lembrar o cenário da Argentina de 2001. Naquele ano, o país passou por um dos piores momentos de recessão. A dívida externa do país atingiu US$ 146 bilhões e o desemprego entre os jovens chegava a 70% — o que levou o então presidente Adolfo Rodríguez Saá (que ficou na presidência do país durante oito dias, após a renúncia do seu anterior, Fernando de la Rúa) a anunciar, às vésperas do Natal, o calote da dívida externa pública.

Emiliano López pontua que a situação de hoje é comparável com a recessão do início dos anos 2000 por conta da priorização da dívida externa. Mas que também guarda semelhanças com processos do final dos anos 1980.

"Isso é muito similar a 2001, mas há uma característica, no entanto, que remonta mais a 1989 na Argentina, que é a inflação bastante acelerada. Então, é um combo das duas crises: uma inflacionária e outra crise financeira, que é bastante perigosa para as classes populares", salienta.

No entanto, o sindicalista Pablo Micheli, dirigente da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA) Autônoma, avalia que a situação econômica do país está pior do que em 2001, já que o custo de vida acompanha o crescimento vertiginoso do dólar. 

"Temos mais dívida, temos menos patrimônio, trabalhos de menor qualidade, perspectivas muito ruins. E eu considero que a única diferença favorável é que as organizações do campo popular estão um pouco mais unidas e organizadas que em 2001. Mas em relação à situação econômica e à qualidade de vida do povo argentino, isso foi reduzido de maneira brutal de 2001 até agora."

Como saída para a crise, o dirigente defende o rompimento com o FMI. "A falta de oportunidades de trabalho, a falta de desenvolvimento industrial no país e o fechamento de comércios em grande quantidade nas cidades são demonstrações claras deste acordo com o Fundo Monetário Internacional; que propõe a redução do déficit, mas não deixa um centavo ao mercado interno para que a economia funcione. O único objetivo é chegar ao déficit zero às custas da ausência do Estado, menos educação, menos saúde", avalia.

"Estamos em uma situação gravíssima. Mas os jovens, as mulheres, os aposentados, os trabalhadores estão com disposição para enfrentar esse ajuste e colocar o Fundo Monetário Internacional para fora da Argentina", sinaliza o sindicalista, que afirma que estão sendo planejados manifestações unitárias e uma greve geral ainda para este mês de setembro.

“Na Casa Rosada há um grupo de empresários empenhados em destruir a universidade pública", denunciam os docentes, em protesto no dia 30 de agosto / Foto: La Mella

Edição: Vivian Fernandes