Eleições

Na política externa, programas de governo se dividem sobre parceiros fundamentais

Posições para as relações internacionais são derivadas de propostas de modelo econômico

Brasil de Fato | Brasília (DF)

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Agenda liberal valoriza abertura comercial em detrimento do setor produtivo nacional e aproxima Itamaraty dos EUA e Europa / Agência Brasil

No campo das relações exteriores, os programas de governo das principais candidaturas presidenciais podem ser divididos de acordo com as parcerias fundamentais. Tais opções, de acordo com especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato, são derivadas das discussões relativas ao próprio modelo econômico interno. 

Wagner Iglecias, professor do Programa de Pós-graduação em Integração da América Latina (Prolam) da USP, explica que, em um contexto de crise econômica internacional, as opções diplomáticas são determinantes para o modelo doméstico a ser adotado. 

Assim, em sua leitura, as candidaturas que apresentam uma agenda econômica liberal – com privatizações e abertura comercial da economia – tendem a defender aproximações com países do Norte global e, no contexto regional sul-americano, apenas relações comerciais básicas. De outro lado, as candidaturas com uma plataforma mais desenvolvimentista valorizam as relações Sul-Sul. 

“Dá para dividir, mais ou menos, em dois blocos mais marcados. De um lado, há as candidaturas de Alckmin (PSDB) e Bolsonaro (PSL). Elas apostam em um grau maior de abertura da economia brasileira. Uma aproximação maior com os países do Norte.Tem um bloco à esquerda que pensa na construção de um outro papel para o Brasil, no cenário externo, que não esteja sob a liderança dos EUA, mas sim na construção de uma agenda multipolar. Essas candidaturas são a do PT e a do PSOL”, diz. 

A título de exemplo, Iglecias menciona a proposta do candidato Alckmin para que 50% do PIB brasileiro seja composto pelo comércio exterior, o que eliminaria nosso parque produtivo e representa um percentual não verificado na maior parte das economias desenvolvidas do mundo. Esse tipo de proposta não enfoca no fortalecimento do mercado interno e coloca o “país à reboque dos EUA”. 

Uma distinção importante entre Alckmin e Bolsonaro destacada por Iglecias é a promessa do capitão reformado do Exército de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusálem, tal como fez Donald Trump. Para o professor, se trata de uma sinalização ao eleitorado neopentecostal, cuja teologia valoriza o país do Oriente Médio como “Terra Sagrada”, além de demarcar com a posição da maior parte da esquerda em defender a causa palestina. 

O cientista político Gonzalo Berron explica que as propostas da direita significariam uma continuidade da atual política externa, que, por sua vez, foi uma espécie de retomada da diplomacia dos tempos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Do lado da esquerda, ele critica o pouco detalhamento dos planos e a ausência de ações concretas na “realpolitik internacional”. 

“Do lado da direita, todos candidatos seguem a mesma cartilha. Eu acrescentaria as relações com a Aliança do Pacífico. Um pouco o que foi a retórica do governo Temer. Não há grandes diferenças. Do lado da esquerda não há muitas diferenças, o que há sim é uma problema de não inovar para as propostas de política externas. O grande nó é como fazer avançar uma agenda progressista de política externa em um contexto diferente”, afirma. 

Berron, por outro lado, afirma que a possível eleição de uma candidatura progressista no Brasil, pela importância no país, pode significar um marco para que o sub-continente retorne a uma conjuntura mais favorável à esquerda. 

Outras candidaturas

Para Iglecias, a plataforma internacional de Marina, da Rede Sustentabilidade, tem enfoque na questão dos acordos focados na mudança climática, defendendo uma diplomacia que leve os países desenvolvidos a aderirem aos acordos internacionais. Já a agenda de Ciro Gomes, do PDT, estaria mais próxima do polo de esquerda, ainda que não possa se identificar plenamente com ele. 

 

Edição: Juca Guimarães