Entrevista

"Influência do horário eleitoral será testada este ano", afirma Vitor Marchetti

Em entrevista ao BdF, o cientista político aborda esses e outros temas referentes ao próximo pleito

Brasil de Fato | Brasília (DF)

,

Ouça a matéria:

O Brasil viverá um teste do poder influenciador do rádio e da TV num cenário de emergência das redes sociais / Caroline Pacheco/Famecos/PUCRS

Tendo iniciado no último sábado (1º) em todo o país, o horário eleitoral no rádio e na TV, que foi criado há mais de 50 anos, é tradicionalmente apontado como uma das principais referências para medir a força dos veículos de comunicação de massa na opinião do eleitorado.

Esse peso, no entanto, parece incerto no horizonte das eleições de 2018. É o que aponta o cientista politico Vitor Marchetti, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Ele projeta que, em outubro, o Brasil viverá um teste do poder influenciador do rádio e da TV num cenário de emergência das redes sociais. Marchetti ressalta, de todo modo, que o horário eleitoral se destaca no sentido de inaugurar o “clima de eleição” no país.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, o pesquisador reflete também sobre as estratégias – aparentemente, mais rentáveis em termos publicitários – utilizadas pela TV Globo para promover as entrevistas feitas com os presidenciáveis pelo Jornal Nacional.

Confira a seguir.

Brasil de Fato – As pesquisas de intenção de voto têm mostrado que há uma massa de eleitores indecisos ou inicialmente dispostos a votar nulo ou em branco. A chegada do horário eleitoral pode causar uma reviravolta nesse cenário?

Vitor Marchetti – Tenho absoluta convicção – e as pesquisas indicam um pouco isso – de que um dos papéis do horário gratuito eleitoral é criar o clima de eleição no país. Então, além de ser fonte de informação, o fator mais importante não é que ele fornece a fonte pro eleitor se informar, mas ele cria o ambiente de eleições, fazendo com que o eleitor se preocupe, cada vez mais, em formar sua opinião e buscar seus diferentes mecanismos de informação, sendo a propaganda eleitoral uma delas. Eu diria que, nesse aspecto, o horário fixo, que é o horário em que todos os candidatos aparecem, é menos relevante do que os horários em que eles aparecem em pequenas aparições ao longo da programação.

Essas inserções, que pegam o cidadão meio desprevenido, ou seja, [ele está mais] interessado em assistir a programação normal da televisão, vai criando nele a sensação de que a eleição está aí, ela é pra valer, e de que logo, logo ele vai ter que manifestar sua preferência. Então, acredito que sim, a campanha na TV é impactante e produz um pouco esse efeito de reduzir essa abstenção, de trazê-la pra uma margem histórica. Não me parece que a gente vá ter aí um recorde de abstenção. É possível que a gente tenha um pouco mais do que nos outros anos, mas temos acompanhado uma taxa relativamente estável de absenteísmo. Então, essas aparições em blocos ao longo da programação de TV têm um impacto bastante importante pra reduzir essa margem.

No atual cenário, muitos têm apostado que a mobilização nas redes sociais tende a ser definitiva na campanha deste ano. Nesse sentido, qual seria ainda o peso da propaganda eleitoral no rádio e na TV? Ele diminuiu?

Acho que essa eleição vai ser um grande teste a esse respeito. Você tem aí a campanha do Bolsonaro [candidato a presidente pelo PSL], que tem aparecido, em termos de intenção de votos, como um dos favoritos a irem pro segundo turno e é uma candidatura que não tem quase nada de tempo de rádio e de TV. Ela se construiu muito pelas redes sociais. E, por outro lado, você tem a candidatura do Alckmin [candidato pelo PSDB], que tem um peso grande no rádio e na TV, investiu bastante na pré-campanha nesse sentido, pra ter um grande tempo de TV e, ao mesmo tempo, não está decolando.

Então, a grande questão que vai ficar aí ao longo do mês de setembro é o quanto esse quadro vai se mover. E, se ele se mover, me parece que é um indicativo muito forte de que ainda há um impacto relevante do tempo no rádio e na TV. Se ele não se movimentar, significa que, definitivamente, nós migramos um pouco nos meios utilizados pra influenciar o eleitor. Acho que a gente ainda tem uma quantidade importante de eleitores que usam a TV e o rádio como fonte primária de informação, a despeito de as redes sociais terem impacto importante nos grandes centros. Sem dúvida alguma, ela vai ter um peso nessas eleições, mas eu não sei se a gente já substituiu o grau de importância do rádio e da TV pelas redes sociais. Tenho minhas dúvidas.

Tem gente que considera que o horário eleitoral tem um formato ainda muito semelhante ao que tinha quando foi criado, há mais de 50 anos. Como o senhor avalia isso? Isso impede, por exemplo, que ele tenha uma repercussão ainda maior no cenário eleitoral ou não?

Nós tivemos, nas ultimas décadas, no processo de consolidação democrática, grandes investimentos de marketing nos programas de rádio e fundamentalmente de TV. Nos últimos anos, eles mudaram bastante, viraram campanhas publicitárias bem robustas – muito caras, inclusive. As candidaturas que melhor desempenho eleitoral tinham, como as do PT e do PSDB, faziam investimentos pesados.

Me parece que, neste ano, com a redução dos investimentos, as propagandas tendem a voltar a um patamar lá do início – não ao patamar de 1989, porque a tecnologia é outra –, mas elas voltam um pouco no que foi padrão de qualidade das propagandas feitas até então. Agora, definitivamente, esse não é um espaço pro eleitor aprofundar o seu conhecimento da agenda dos candidatos.

Ela sempre foi – e isso, sem dúvida nenhuma, não mudou – um espaço mais pra chamar a atenção do eleitor pra entrar no clima das eleições do que, de fato, uma ferramenta de informação, de aprofundamento do eleitor em relação às propostas dos candidatos. Isso, sem dúvida, é uma caraterística, talvez negativa, que permanece.

Quais seriam os espaços e as plataformas nos quais os eleitores conseguem um aprofundamento maior em relação ao conteúdo programático dos candidatos?

Hoje, as redes sociais, a internet acabam sendo espaços com maior quantidade de informações sobre essas propostas [dos candidatos] – sobre o que pensam, sua trajetória, o que já fizeram. A cobertura da imprensa tradicional é uma alternativa também, mas há sempre também o problema do crivo editorial, que, no Brasil, é um crivo definido, mas pouco transparente pro eleitor.

O boca a boca ainda me parece uma fonte de informação importante, principalmente nas regiões mais distantes, no Brasil profundo, onde essas informações todas que estão na rede ainda não são de fácil acesso. E também as informações obtidas por meio das organizações sociais das quais o cidadão faz parte – associações de bairro, de moradores, igrejas, enfim. Me parece que essas fontes de informação pra conhecer o perfil dos candidatos – sempre com o filtro que elas acabam produzindo – são importantes.

Sobre essas outras fontes de informação que correm em paralelo ao horário eleitoral, além de a propaganda gratuita ter começado no último sábado (1º), teve início também, na semana passada, a rodada de entrevistas dos presidenciáveis no Jornal Nacional, que ainda é apontado como um noticiário de muita audiência na TV. O jornal tem conduzido as sabatinas sem abordar diretamente conteúdos programáticos, optando por temas que ficam mais na tangente, na superfície. Como cientista politico, o que lhe parece essa estratégia?

Eu acho que são duas questões. A primeira, me parece, diz respeito a uma estratégia de marketing do jornal. Temas mais comportamentais ou superficiais tendem a produzir mais polêmica e debate nas redes e viralizar a notícia.

A segunda questão me parece que é a mais importante, a mais estruturante pra explicar, que é a questão da adesão editorial das Organizações Globo à agenda liberal. E essa agenda, que é a da redução do Estado, de reduzir um pouco o papel e a importância das políticas públicas e o [papel do] Estado como promotor do desenvolvimento econômico, eles sabem que é bastante impopular. Então, me parece que, fundamentalmente, na estratégia de diálogo com os candidatos que são mais representantes dessa agenda, não é interesse da própria emissora vincular esses candidatos ou expor esses candidatos na defesa dessa agenda liberal.

Então, quando você pega, por exemplo, a entrevista com o Bolsonaro, o tema aparece muito pouco. Eles ficaram muito em cima da questão comportamental, das polêmicas em torno do Bolsonaro e expuseram muito pouco o que representa o Paulo Guedes, que é o mentor econômico da campanha dele, bem como [fizeram] com o Alckmin, enfim.

Me parece que há aí uma estratégia da emissora de não lançar foco nessa agenda mais estruturante dos candidatos do campo liberal porque eles sabem que isso é impopular. Então, o foco acaba ficando em outras questões, como uma cortina de fumaça ao que de fato é estruturante no debate pelo qual nós estamos passando.

Edição: Diego Sartori