Eleições 2018

PT anuncia Haddad como candidato a presidente após justiça impugnar Lula

Ex-prefeito de SP assume disputa presidencial pelo PT e denuncia que Lula foi tirado do pleito por "ato de força"

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

Ouça o áudio:

Ato em frente a sede da Polícia Federal em Curitiba para anunciar a substituição da candidatura de Lula pela de Fernando Haddad
Ato em frente a sede da Polícia Federal em Curitiba para anunciar a substituição da candidatura de Lula pela de Fernando Haddad - Ricardo Stuckert

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso político há 158 dias, escolheu Fernando Haddad (PT) e Manuela D'Ávila (PCdoB) para continuarem a disputa eleitoral à presidência pela coligação O Brasil Feliz de Novo. O ex-ministro da Educação vai substituir Lula, enquanto Manuela assume como vice da chapa.

O anúncio foi feito na tarde desta terça-feira (11) em frente à sede da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba (PR). O ex-presidente escreveu uma carta endereçada ao povo brasileiro. Na mensagem, lida pelo advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, um dos fundadores do PT, Lula explica a decisão de indicar o ex-prefeito de São Paulo ao pleito, destacando a atuação de Haddad como ex-ministro da Educação entre 2005 e 2012, e as políticas públicas que inseriram 4 milhões de estudantes no ensino superior durante os governos do PT. 

"Proibiram o povo brasileiro de lutar livremente para mudar a triste realidade do país. Nunca aceitei a injustiça nem vou aceitar.(...) Diante dessas circunstâncias tenho que tomar uma decisão (...) Estou indicando ao PT minha substituição pela do companheiro Fernando Haddad, que até esse momento desempenhou com extrema lealdade a posição de candidato a vice-presidente. Se querem calar nossa voz e derrotar nosso projeto para o País, estão muito enganados. Nós continuamos vivos, no coração e na memória do povo. E o nosso nome agora é Haddad", afirmou Lula, por meio da carta. 

O documento finaliza com o pedido do ex-presidente para que seus apoiadores votem em Haddad e nos candidatos do PT aos governos dos estados, ao Senado e à Câmara de Deputados. "Já somos milhões de Lulas, e de agora em diante, Fernando Haddad será Lula para milhões de brasileiros", encerrou o ex-presidente em sua mensagem. 

Durante o discurso em Curitiba, Haddad afirmou que não irá desistir do Brasil e que recebeu de Lula a missão de reerguê-lo. Ele, que também foi prefeito de São Paulo (SP) entre 2013 e 2016, reiterou a importância de Lula para a história do país. 

"Não vamos aceitar, vamos nos reerguer, somos brasileiros, e temos uma missão de fazer o povo rememorar os bons dias que vivemos. Eu sinto a dor de muitos brasileiros e brasileiras que vão receber hoje a notícia de que não vão poder votar naquele que gostaríamos de ver subir a rampa do planalto e governar o país a partir do dia 1° de janeiro. É uma dor sentida pelo povo mais caro desse país, que sabe o que representou os nossos governos, do ponto de vista da história, uma história tão cruel, injusta. Nosso Lula, representou e representa um divisor de águas na história do Brasil, o antes e o depois. Ele é saído das entranhas de nosso povo", disse.

Haddad destacou também que desde os anos 1980 luta pela redemocratização do país, e que nunca imaginou que teria que lutar novamente pela democracia. "Eu imaginava que meus filhos e netos teriam outras frentes de batalha, mas que a democracia estava definitivamente consolidada. O que aconteceu com o Brasil? Bastaram dois anos para que o Brasil voltasse ao mapa da fome e o noticiário estivesse recheado de notícias que há muito tempo não ouvíamos. Eu fico me perguntando porque tanta injustiça com um homem que não fez outra coisa durante sua presidência que não fosse estender a mão para todos os brasileiros", destacou. 

O Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) reafirmou pela terceira vez, nesta segunda-feira (10), a determinação para que os direitos do ex-presidente de Lula como candidato fossem garantidos. A presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, foi a responsável por apresentar a decisão da candidatura de Haddad. Em seu discurso, ela destacou que o PT, os partidos coligados, e os movimentos apoiadores lutaram até o último momento pelo direito de Lula ser candidato. 

"Quem participa dessa vigília acompanha o presidente e sabe de todos os enfrentamentos que estamos fazendo. Mesmo preso há mais de 150 dias, Lula mantém a liderança nas pesquisas de opinião. Lutamos muito para fazer Lula candidato a presidente. No dia 15 de agosto, enfrentando todo esse projeto, registramos a candidatura de Lula em uma festa linda em Brasília. Sempre acreditamos que sua candidatura é essencial para tirar o país da crise. É muito triste ver a democracia brasileira, se é que temos uma, vivendo esse processo. Nós aceitamos o desafio do presidente Lula, de não deixar o povo brasileiro sem uma alternativa para a sua luta", afirmou, antes de anunciar a candidatura de Haddad na chapa "O Brasil Feliz de Novo". 

A pedido de Hoffmann, o ato foi encerrado com um grande "Boa noite Presidente Lula", manifestação que vem sendo realizada diariamente pelos integrantes do Acampamento Lula Livre, há 158 dias em frente à sede da Polícia Federal em Curitiba. 

Pesquisa

Lula liderava todas as pesquisas de opinião para as eleições de outubro, mas foi impedido de concorrer às eleições por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O PT levou o nome do ex-presidente até o último momento possível determinado pelo TSE.

A primeira pesquisa feita pelo Datafolha sem a menção de Lula foi feita nesta segunda-feira (10) e mostra empate técnico entre Haddad, Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede). 

O ex-ministro da Educação foi o que mais cresceu no último levantamento. Ele alcançou 9% das intenções de voto, 5 pontos percentuais a mais que na última pesquisa, de 22 de agosto, quando o ex-ministro da Educação ainda era apresentado somente em questionário posterior ao que apontava Lula como candidato. 

O PT aposta agora no poder de transferência de voto de Lula a Haddad. A mesma pesquisa do Datafolha indica ainda que 33% do eleitorado votaria em um candidato apoiado por Lula e 16% dos entrevistados afirmam que "poderiam votar".

Edição: Mauro Ramos