Opinião

Artigo | Moda, aparência e status social

Meios de comunicação de massa excluem os que não estão de acordo com seus modelos

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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"O esforço por diferenciação de classe inclui também a estética corporal" / Foto: Reprodução

No início da década de 1980 o sociólogo americano Christopher Lasch (1985) explicita a cultura do narcisismo que veio em oposição ao modo tradicional de viver. Cultura levada ao extremo de uma guerra de todos contra todos. A busca da felicidade se constitui em um beco sem saída O incentivo ao prazer contínuo, sem intervalos, e cada vez mais intenso, acabou aumentando a ansiedade e a insatisfação. Daí o ódio e a intolerância ao outro. Cultura que abole o passado e não crê ou não almeja o futuro.

A personalidade narcisista tem horror à velhice e à morte e nutre uma grande paixão pela frivolidade; cultiva a hipocondria e usa a religião como terapia; renega a política, mas sua esperança está na reforma da vida política; permanente busca do prazer através de drogas, pansexualismo, alimentos e os desvios de acomodação diante dos problemas sociais. Ambicioso pelo ter, pela possibilidade de consumir e para impressionar, o indivíduo caracterizado pelo narcisismo, torna-se desdenhoso daqueles que também almejam impressionar. A luta por status e a ambição de vencer em altos postos, se faz com a impetuosidade e com a falta de escrúpulos.

Segundo Bergamo (1998) a moda não é somente a renovação das roupas, mas também a renovação dos traços distintivos entre os indivíduos; das relações estabelecidas, dos juízos de valor e da visão que temos de nós mesmos.

A moda funciona como um instrumento de distinção de classes sociais. Desta forma, nas sociedades tribais não existe moda. Nas vilas e povoados rurais onde prevalece certa isonomia na estratificação social, também não há moda. Ai, as pessoas se vestem com a costura que esteve em moda há muito tempo. Nos grandes centros uranos as classes inferiores se esforçam para imitar a moda apresentada pelas elites. Quando as classes subalternas absorvem o modo de vestir das elites, estas o abandonam e buscam a renovação do guarda-roupa. Além disso, renova as jóias, calçados e objetos de uso e cosméticos. O objetivo da moda é conferir distinção. O filme “Eles não usam Black-tie”, distingue a elite do poder político e econômico do operariado urbano, na forma de viver e na forma de trajar-se.

Segundo a primeira premissa da teoria do valor marginal, o preço dos bens de uso e de consumo varia não só de acordo com a procura, mas também de acordo com a satisfação que proporciona. Desta forma, quanto mais supérfluo, maior é o valor do objeto. Por isso, um anel de brilhante é mil vezes mais valioso que um quilo pão. Conforme Heloisa Negrão (2018), os brasileiros são os melhores clientes da firma francesa América Sisley, fabricante de cosméticos de luxo. Em setembro ela lançou no Brasil o xampu “Hair Rituel” o qual um frasco de 220 ml custa nada menos que R$ 330,00.

O esforço por diferenciação de classe inclui também a estética corporal. As forças políticas, há tempos, disputam os valores associados ao exercício físico. A ascensão das academias de luxo sugere uma retomada do entusiasmo pelo corpo. As performances e boa saúde justificam o status social. No início da década de 1980, nos EUA, na Europa e nas grandes cidades brasileiras, o movimento aeróbico inaugurou a mercantilização da boa forma. As praticas de exercícios físicos transferiram-se para as academias privadas e levaram com elas o comércio de roupa, calçado e acessórios da moda.

Segundo Gisele Flora (2009), na Alemanha nazista o discurso estético-corporal tinha a função de exaltar o indivíduo que se adequava aos modelos arianos e menosprezava os que não se enquadravam. Portanto, o corpo constitui uma conduta resultante de coerções sociais. Basta lembrar as situações de desprezo e desprestígio experimentadas pelos obesos e pelas pessoas consideradas feias em nossa sociedade. Essa discriminação se estende em todo o âmbito social, seja para encontrar um emprego, um namorado, ou nos comentários maldosos feitos por outros indivíduos nas ruas e na própria mídia, que ajuda a reforçar os estereótipos de “imperfeição”. Lembrar que Clodovil e Ronaldo Ésper debochavam sarcasticamente de pessoas obesas ou vestidas fora da moda, quando se apresentavam na televisão ou em eventos de luxo.

Podemos observar ainda hoje em nossa sociedade a exaltação dos que se “adequam” e o menosprezo dos que não se enquadram, pois a estética corporal serve como divisor social, na medida em que exclui os que não estão de acordo com os modelos difundidos pelos meios de comunicação de massa.

*Antônio de Paiva Moura é docente aposentado do curso de bacharelado em História do Centro Universitário de Belo Horizonte (Unibh) e mestre em história pela PUC-RS.

Edição: Joana Tavares