Desmonte

Ignorado pela campanha de Alckmin, Hospital Universitário da USP permanece sucateado

Referência internacional e para uma população de 500 mil pessoas que vive na região, HU já demitiu centenas de médicos

Ouça a matéria:

Manifestação em defesa do Hospital Universitário / Foto: Luna Bolina/Jornal do Campus

A campanha do candidato à Presidência da República Geraldo Alckmin iniciada em 1º de setembro, no horário eleitoral gratuito da televisão, apresenta a carreira do médico responsável pela promoção da saúde pública no estado de São Paulo, que esteve sob sua gestão como governador durante quatro mandatos. A propaganda de Alckmin esconde, no entanto, um dos principais prejuízos para a saúde que ocorreram durante seu governo: o desmonte do Hospital Universitário (HU) da Universidade de São Paulo (USP).

Em processo de sucateamento desde 2014, o HU já foi referência internacional na formação de profissionais da área da saúde e no atendimento secundário da população de 500 mil moradores dos bairros periféricos da região oeste de São Paulo. Atendia cerca de 17 mil pessoas por mês. Desde o final de 2013, o HU perdeu 406 profissionais por meio de dois planos individuais de Demissão Voluntária (PIVD), e hoje, atende, em média, 3 mil pessoas por mês.

Falta atendimento

A ajudante de cozinha Carolina Catarina de Novaes, moradora da 1010, uma das comunidades que cercam a Cidade Universitária, foi paciente do HU a vida inteira. Ela teve seus dois filhos, Dereck e Iago, no hospital, mas há mais de um ano não consegue nenhum atendimento pediátrico.

"Ele era referência no nosso bairro. Era sempre o que a comunidade procurava em caso de emergência. Mas a última vez que o Dereck conseguiu passar lá foi quando eu estava grávida do Iago, hoje com um ano. Teve uma vez que o Iago chegou lá com 39º C de febre e ele não foi atendido. A médica falou que o HU não estava funcionando, estava sem água", afirmou.

Lideranças da comunidade 1010 se somaram a um acampamento em frente ao HU, entre os dias 29 de agosto e 1º de setembro, em defesa do HU. "Em momento de campanha, com tudo o que está acontecendo, o pessoal se revoltou, muita gente tem que ir em hospital longe, algumas pessoas tem que ir até em Osasco", afirma.

Em 2017, com a gravidade da situação do hospital, a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) aprovou uma emenda, apresentada por Marco Vinholi (PSDB), destinando R$ 48 milhões dos royalties da exploração de petróleo do pré-sal para novas contratações. Mas, a emenda foi publicada como verba de custeio e não como gasto em pessoal, e com essa justificativa a Reitoria da USP ainda não destinou a verba para o HU. 

Governos omissos

Após mobilização de profissionais da USP, estudantes e moradores da região, foi apresentado o Projeto de Lei (PL) 367/2018, em junho deste ano, para corrigir a destinação da verba. O PL, no entanto, foi vetado por Márcio França (PSB), ex-vice de Alckmin, que assumiu o governo do estado em abril, com a saída de Alckmin para efetivar sua candidatura. Segundo Lester Araújo, coordenador do movimento Coletivo Butantã na Luta, que tem liderado as manifestações em defesa do HU, os governos do estado têm sido omissos em relação à situação do hospital.

"Márcio França já foi cobrado duas vezes, inclusive em debates eleitorais, de resolver esse assunto. Se comprometeu a fazer uma revisão e resolver esse assunto com os movimentos, e não o fez. Do ponto de vista prático, a postura dos dois tem sido a mesma a respeito disso: protelatória. Depois que Alckmin deixou o governo nunca mais falou uma única palavra a respeito do HU, e quando falava antes dizia que a USP tinha autonomia universitária, e não entrava no mérito disso. Mas, apesar da autonomia na gestão financeira, o financiamento vinculado tem que ser cumprido", afirma.

Araújo destaca ainda o que considera uma estratégia de privatização do PSDB em São Paulo.

"O que está por trás disso, na verdade, é o que está acontecendo com a própria universidade, o PSDB tem uma visão muito clara no estado de São Paulo de, ao longo dos anos, privatizar de vez todas as universidades públicas. Ao longo dos anos, o PSDB vem se sofisticando nos argumentos, mas a forma continua a mesma: você sangra a instituição pública, coloca ela em um enorme grau de dificuldade, e depois vende para a sociedade a ideia de que só uma instituição privada é capaz de resolver o problema", opina.

Faltam profissionais

Segundo o clínico-geral Gerson Salvador, que se tornou conhecido após denunciar, em uma rede social, que era o único médico plantonista presente no HU em 16 de dezembro de 2017, o ambulatório do hospital continua funcionando com menos médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde. Nos prontos-socorros Adulto e Infantil são atendidos apenas casos de emergência transferidos de outras unidades de saúde da região. Salvador também critica as últimas gestões da saúde no estado. 

"No estado de São Paulo a gente teve nos últimos governos um momento difícil para a saúde. O que tem acontecido aqui é que, principalmente, a partir da crise econômica, houve a diminuição do financiamento da saúde como um todo. O HU é um exemplo de hospital que perdeu financiamento e recursos humanos, não diretamente por ação do Estado, mas principalmente da reitoria da USP, por total omissão do governo de São Paulo. Temos o Hospital Emílio Ribas, o [Hospital do] Mandaqui, o [Hospital de] Heliópolis, que são da administração direta do estado e estão em situações muito complicadas, com leitos bloqueados, uma dificuldade maior de acesso à população. Alckmin vai ter dificuldade em mostrar casos de sucesso de alguma área da saúde", afirma o médico.

Outro lado

No site de sua campanha, Alckmin reitera que São Paulo é referência na saúde, e que por ser médico, sempre deu atenção especial a esta área. O candidato destaca que "algumas das mais respeitadas instituições de saúde no Brasil" estão na capital paulista, entre elas cita instituições em grave crise financeira, como o próprio Hospital Emílio Ribas, maior centro de infectologia do país.

Edição: Cercília Figueiredo