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A república do 'guarda da esquina'

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Sem freio ou controle, “guardas da esquina” podem com suas ações, querendo ou não, até levar à morte. / Divulgação
“Guardas da esquina” são empoderados quando certas toxinas sufocam a democracia.

Há meio século, o marechal Arthur da Costa e Silva era o ditador de plantão. Seguindo o protocolo para resguardar as aparências, tinha um vice civil. Era um velho conservador liberal mineiro, Pedro Aleixo. Em 13 de dezembro de 1968, Costa e Silva reuniu o Conselho de Segurança Nacional. O regime era rejeitado pelas ruas e sua ala dos falcões exigia que algo se fizesse. Este algo era mais um Ato Institucional, a aniquilação do pouco que restava de democracia.

Aleixo se manifestou contrariamente. Foi logo interpelado pelo ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva:

– Doutor Pedro, o senhor duvida das mãos honradas do presidente Costa e Silva, que será o único juiz da aplicação do ato?

Aleixo retrucou:

– Das mãos honradas do presidente Costa e Silva, jamais! Desconfio é do guarda da esquina!

Aleixo foi derrotado e AI-5 assinado. No ano seguinte, na morte de Costa e Silva, o vice foi impedido de assumir a cadeira presidencial e preso. O AI-5 já soltara as feras dos porões para exacerbar prisões, torturas e matanças.

Ao longo do tempo, a expressão de Aleixo tem servido para ilustrar o que acontece quando se instaura um governo de exceção. Abrem-se as comportas para a barbárie do mais alto ao mais baixo degrau na hierarquia das corporações encarregadas da aplicação da lei e da ordem.

No domingo, dia 9, nesta cada vez mais estranha campanha eleitoral, fotos de um rapaz ensanguentado e caído numa rua de Curitiba invadiram as redes sociais.

Seu nome, logo se descobriu, é Renato Freitas. Candidato a deputado estadual pelo PT do Paraná, ele distribuía panfletos. Foi cercado e baleado por guardas municipais. Antes disso, segundo ele, houve o seguinte diálogo:     

“Você é idiota ou o quê?”

“Não sou idiota, estou só panfleteando…”

“Suma daqui! Você é surdo?”

“Estou em praça pública…”

A resposta, segundo o candidato, foi um disparo de bala de borracha na sua barriga a uma distancia de dois metros. Quando se virou, tentando se proteger, tomou outro tiro na base das costas. E foi levado preso.

Mais tarde, liberado e hospitalizado, comentou:

“Isso que aconteceu aqui acontece todos os dias nas quebradas, onde não tem luz, nos lugares invisíveis, onde não tem testemunhas…”

Dois dias antes, a PM paranaense prendera Edna Dantas. Foi detida por cantar “Lula Livre”, portar bandeira e usar camiseta com a imagem de Lula durante o desfile do 7 de Setembro. Edna, a exemplo de Renato, é candidata à assembleia do Paraná. Ambos são militantes sociais e ambos são negros. 

São incidentes que se multiplicam velozmente nesta campanha, de tal modo que apenas guardamos os mais relevantes. Na sua origem, com frequência, estão autoridades propensas ao abuso. 

“Guardas da esquina” são empoderados quando certas toxinas empestam o ar e sufocam o ambiente democrático. Sentem-se autoridades com jurisdição elástica. O que vale para os guardas da esquina, como aqueles do Paraná, mas também para muitos dos bedéis da sociedade, entre eles algumas figuras de toga possuídas pela soberba. 

Sem freio ou controle, “guardas da esquina” podem com suas ações, querendo ou não, até levar à morte. Perdura na memória dos brasileiros, o triste fim do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina que, após ser preso e humilhado de forma inacreditável, escolheu morrer. 

“Guardas de esquina”, de qualquer origem ou alcance, sentem-se ainda mais respaldados quando existe uma candidatura que tão bem expressa seus medos, ambições, preconceitos, rancores e, sobretudo, seu profundo recalque. Uma candidatura que concentra e reverbera o lado mais sombrio da alma humana.  

O Brasil foi conduzido ao estado de exceção não exatamente por “guardas da esquina”. Mas, como alertou Aleixo, os “guardas da esquina”, como sempre, estão aproveitando a abertura da temporada de caça. Nesta república, a dos guardas da esquina, temos que ter todo cuidado do mundo com eles.

Edição: Daniela Stefano