ELEIÇÕES

Stedile: "Nesta eleição a disputa é de classes: quem está com o povo e contra ele"

Para o dirigente do MST, as eleições evidenciam que a atual capacidade de mobilização da população é através do voto

Leer en español | Read in English | Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

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Na avaliação de Stedile, nesta eleição, quem vota nulo e branco é a favor dos golpistas, pois deixa claro que não quer mudança / Rovena Rosa/Agência Brasil

Eleger o presidente, os deputados e os senadores comprometidos com os interesses dos trabalhadores é a principal forma que a população terá de desfazer medidas que atingiram direitos básicos como saúde, educação e segurança, na avaliação de João Pedro Stedile, da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em entrevista ao Brasil de Fato, ele avalia que o voto nulo e em branco só interessa a quem quer manter a crise em que o país se encontra.  

Brasil de Fato: Qual é a importância das próximas eleições? 

João Pedro Stedile: As eleições de outubro têm uma importância histórica para a classe trabalhadora e todo povo. Nunca tinha ocorrido em eleições uma situação tão clara de luta de classes. De um lado a burguesia precisa eleger seu presidente e seus parlamentares, para dar legitimidade popular ao golpe, e ao mesmo tempo seguir mais quatro anos aplicando o seu plano maquiavélico, que é de jogar todo peso da crise econômica sobre as costas da classe trabalhadora. Assim, eles precisam seguir tirando direitos dos trabalhadores, na CLT, na Previdência e se apropriando dos recursos públicos que deveriam ir para moradia, reforma agraria, educação e saúde. Também continuar entregando nossas riquezas naturais para seus aliados: o capital estrangeiro e o governo dos Estados Unidos. 

De nosso lado, é justamente o contrário: temos que eleger Fernando Haddad e uma forte bancada de parlamentares para derrubar todas as medidas dos golpistas. Portanto, o voto do povo tem que ser um voto de classe.  O povão não conseguiu se mobilizar para defender o governo Dilma e agora, derrotado pelo desemprego e pela desigualdade social, não tem tido capacidade de fazer grandes mobilizações. Então, nossa arma agora é o voto. E por isso precisa ser um voto na classe. Só com nossos representantes poderemos começar um novo projeto de Brasil, a favor do povo, com as necessárias reformas estruturais. 

Que tipo de reformas? 

Precisamos começar pela economia, para voltar a industrializar o país e garantir emprego e renda para os trabalhadores. Uma reforma tributária, além de controlar os bancos e os juros. Também são necessárias uma reforma dos meios de comunicação, uma reforma agrária, uma reforma da educação. Não podemos esquecer de convocar no médio prazo uma assembleia constituinte que faça uma profunda reforma politica e do poder judiciário. 

O que o eleitor deve ter em mente na hora de escolher deputados e senadores? 

Além de elegermos Haddad e de elegermos governadores estaduais comprometidos com os trabalhadores, claro devemos estar muito atentos e garantir a eleição de uma bancada de parlamentares, seja na Câmara ou no Senado, totalmente comprometidos com a classe trabalhadora e com um projeto de mudanças do país. Sei que em todos os estados, temos muitos bons candidatos, da classe trabalhadora, companheiros e companheiras experimentados, lideranças populares, que deram prova de seu compromisso com os trabalhadores. São estes que precisamos eleger. Gente que tenha experiência da luta de classes. Gente comprometida com a classe, e não com seus interesses pessoais ou suas vaidades medíocres. O povo deve saber quem já estava conosco nas greves, nas ocupações, nas lutas, nas mobilizações de rua. Assim, como devemos denunciar os candidatos que são comprometidos apenas com os interesses da burguesia e com assalto aos cofres públicos. 

Qual é o papel do Congresso Nacional para o governo federal que tenha como foco oferecer saúde e educação públicas e de boa qualidade? 

O próximo congresso deverá ser formado por parlamentares, que estimulem a organização e mobilização popular e usem seus mandatos para isso. A disputa dos dois projetos que relatei, será feita nas ruas. O parlamento é apenas espelho do que acontecerá na rua. Por isso, precisamos de parlamentares da luta, de mobilização, com coragem e determinação, para que expliquem para o povo, que a força não está apenas na sua representação legal, mas sim na força de mobilização do povo.  

O Congresso futuro deverá ser um espaço complementar para um governo popular.  Deverá ajudar a convocar os plebiscitos populares, para revogar todas as medidas dos golpistas. Deve ajudar a derrubar a PEC 55 que limita os gastos públicos nos programas de saúde, educação e reforma agrária. Um parlamentar que se elege com 200 mil votos, e depois não consegue mobilizar 100 pessoas para defender nossos direitos, a Petrobras, a Eletrobras, nossas terras e riquezas, não serve para nada!

Como a população pode contribuir para um Brasil mais justo a partir de 2019?  

Nós devemos explicar para a população a importância dessas eleições. Que o projeto de país para os próximos quatro anos será decidido dia 7 de outubro, por isso não podemos vacilar.  Todo mundo tem raiva dos políticos no sentido genérico.  Mas isso é porque a maioria dos políticos representam os burgueses ou eles mesmos são os ricos e privilegiados que se apoderam do poder parlamentar para viabilizar seus interesses de classe.  A própria Globo fica todo tempo falando mal dos políticos, no sentido genérico, mas não fala que os culpados são os capitalistas, os burgueses.  Justamente para colocar confusão na cabeça do povo.     

Devemos explicar que voto nulo e branco nessa eleição será a favor dos golpistas, seria um voto de quem não quer mudar. Um voto alienado, mesmo que diga que não acredita em ninguém. 

Temos que votar em quem vai mudar, no parlamento, no governo do estado, e no Haddad, indicado por Lula, o único capaz de enfrentar e derrotar os burgueses golpistas. 

A população precisa entender que ela estará votando no preço do gás, na distribuição do lucro da Petrobras, se vai para educação ou vai para os acionistas americanos?  Estará votando nas verbas para os hospitais, estará votando numa nova política de segurança.   A melhor segurança é emprego, renda e educação para todos. Polícia e Exército não resolvem nada. No Rio de Janeiro, as pessoas estão sentindo na carne como a repressão é apenas parte da violência e não solução. 

A população vai votar, se quer o controle social do judiciário, ou quer que eles continuem ganhando 30 mil por mês, mais auxílio moradia, gravata, livro, férias de dois meses, enquanto o povão, não tem aonde cair morto. 

Por isso estas eleições não são disputa de partidos ou de siglas. Eles pouco representam agora.  A disputa é de classes: quem está a favor do povo, dos trabalhadores, e quem está a favor dos golpistas, dos burgueses, dos bancos e do capital estrangeiro. 

Quais são as tarefas da militância no próximo período?  

Bem, se estamos no meio da luta de classes radicalizada, e no meio de uma enorme crise econômica, social, ambiental e política, significa que a luta será longa, para podermos sair da crise nos próximos anos com medidas de proteção ao povo. 

Por isso, a militância deve arregaçar as mangas e se engajar de corpo e alma para eleger bons governadores, parlamentares comprometidos e Haddad. 

Depois de outubro, devemos seguir mobilizados e utilizando a metodologia do Congresso do Povo, seguir realizando assembleias populares em todos os bairros e em todos os municípios, convocando o povo para que discuta um novo projeto para o país.   De outubro a dezembro, devemos debater todas as mudanças que precisam ser feitas, na economia, na indústria, na agricultura, na organização das cidades, na saúde, educação reforma agraria, etc. Para que o povo apresente suas propostas e tenha claro o que é preciso mudar primeiro e logo. Nesses meses devemos fazer um grande mutirão nacional de debates, em todas as bases. 

E ai apresentar as propostas para os novos eleitos. Seja a nível estadual e a nível nacional. Depois, a partir de janeiro de 2019, com Haddad, devemos debater novas formas de participação popular no governo.  Não precisamos mais de governos para o povo, agora só enfrentaremos as crises, se for um governo com o povo. E para isso, precisamos organizar mecanismos de participação popular no governo, através de plebiscitos, referendos e consultas populares, conselhos setoriais, e grandes mobilizações de massa na defesa de mudanças necessárias. 

O próximo período será de muita luta, muito debate e muita mobilização. O pior já passou, com o golpe, agora é estimular o povo a votar, participar, e construirmos um novo projeto popular para o Brasil.  

Edição: Mariana Pitasse