Amizade

Os bons companheiros de Lula

Caravana de metalúrgicos aposentados visita espaço da vigília pela liberdade do ex-presidente

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Wilson Ribeiro, sindicalista que atuou ao lado de Lula no ABC Paulista / Mauro Calove/Agência PT

Uma caravana de representantes do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, a maioria aposentados, esteve no bairro Santa Cândida, em Curitiba. Eles vieram prestar solidariedade a Luiz Inácio Lula da Silva e aos integrantes da Vigília Lula Livre, que resiste há mais de 160 dias pela liberdade do ex-presidente.

Muitos desses trabalhadores militantes que vieram a Curitiba  conviveram com Lula durante as grandes greves do ABC paulista, ainda na década de 70. Muitos relatos históricos caminham em meio aos integrantes da caravana, que visitou a Vigília na última quinta-feira (13). Conheça abaixo suas histórias.

Djalma Bom

Djalma Bom tem 79 anos e foi funcionário da Mercedes Benz no ano de 1975. Foi diretor do Sindicato dos Metalúrgicos em Diadema como suplente do conselho fiscal, a pedido de Lula. Em 1978, tornou-se tesoureiro do Sindicato em São Bernardo. 

Uma das testemunhas que assistiram de perto o levante dos operários na época, ele coloca os elementos que explicam o que aconteceu em São Bernardo naquele momento. “O primeiro fator é a figura do companheiro Lula, com seu carisma, sua intuição e sua liderança. O segundo fator era a exploração do trabalhador dentro das fábricas”, diz. 

Segundo ele, as indústrias de São Bernardo do Campo se pareciam com campos de concentração e a produção funcionava em turnos de 8 horas. “O revezamento era das 6h às 14h, das 14h às 22h e das 22h às 6h da manhã. Praticamente no horário que era de almoçar, os trabalhadores estavam dormindo”, descreve Djalma, que colocou que o terceiro fator para a grandeza que caracterizou as greves do ABC no período foi transformar uma greve de trabalhadores em uma greve política.

“Houve, naquele momento histórico, a unidade de todas as forças políticas do Brasil em busca da redemocratização do Brasil. O companheiro Lula teve uma sensibilidade muito grande, que compreendeu aquele momento histórico. Nós transformamos a reivindicação econômica por melhorias nas condições de trabalho em greve política pelo restabelecimento da democracia no nosso país”, recorda o metalúrgico aposentado.

Atualmente, Djalma canta no coral da terceira idade da USP e atua voluntariamente no Instituto Lula, onde seleciona as cartas que o ex-presidente recebe. “Desde sua prisão, Lula já recebeu mais de 13 mil cartas e eu fico selecionando essas cartas, chorando muito e vendo por que esse homem é tão querido e respeitado. O Lula, ele está preso, mas as ideias dele estão realmente no coração das pessoas”, comenta emocionado.  

Wilson Ribeiro

Wilson Roberto Ribeiro é um senhor negro de 68 anos. Atualmente aposentado, preside a Associação dos Metalúrgicos Aposentados da região do ABC e a Federação dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da CUT. Ele relata que, quando se engajou na militância sindical, em 1974, quem assinou sua carteirinha de associado foi o antecessor de Lula, Paulo Vidal Neto. “Quando eu vim ser metalúrgico em São Bernardo do Campo, eu trabalhava numa firma de médio porte. Naquela época a gente pagava o macacão, a gente pagava a bota, não tinha EPI [Equipamento de Proteção Individual]”, destaca Wilson sobre algumas das condições de trabalho que, até então, deveriam ser dadas pelo trabalhador e não pelo empregador. 

Segundo ele, quando Lula assumiu e primou por mexer em alguns pontos da convenção coletiva, muitas das condições de trabalho melhoraram e passaram a ser obrigação do empregador. “Quando o Lula assume em 74, em 75 praticamente, então muda-se a convenção coletiva. Passaram a ter restaurantes dentro da empresa. Antes a gente mesmo levava as marmitas e muitas vezes, quando a gente parava para comer, alguém tinha comido a marmita da gente, porque estava numa situação ainda pior. Começamos a conquistar os EPIs, a não pagar mais as botinas de segurança, não pagar mais o macacão”, descreve Wilson. Ele coloca que foram situações como estas que tornaram as mobilizações possíveis. 

Em 1978, as mobilizações se deram por 19 dias em empresas de médio e grande porte. Em 1980, os metalúrgicos conseguiram realizar uma paralização de 42 dias. “Foi onde surgiu a questão do fundo de greve, fundado pelo Djalma Bom. Eu fui um dos que assinou a fundação do fundo de greve”, relatou o metalúrgico que já foi mandado embora por justa causa por defender colegas de profissão. “Eu não poderia e nem posso decepcionar os meus ancestrais. Quando eles vieram para o Brasil, eles não vieram fazer uma visita, eles foram escravizados. Então, essa luta que a gente trava e constrói aqui, é uma luta da sobrevivência e da gente buscar os direitos, a cidadania”, posiciona-se Wilson diante de sua consciência. 

Jair Meneguelli

Jair Meneguelli é natural de São Paulo e tem 71 anos. Seu currículo é extenso. Metalúrgico aposentado, é ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, ex-presidente da CUT, ex-deputado federal e ex-presidente do Conselho Nacional do SESI. “Hoje atuo como uber familiar”, brinca.

Sua carreira se iniciou na Ford. Já sindicalizado, foi convocado em 1978 para uma assembleia sobre o rombo nos salários da categoria por não ter havido reajuste salarial. “Na época que o ministro da fazendo era o Delfim Neto, o Dieese registrou que houve um rombo de 34,1% dos nossos salários. E aí o Sindicato convocou, em plena ditadura militar, o que era quase que proibido, a paralização”, relembra Jair. 

Quando esteve na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Meneguelli foi cassado em 1983 por articular uma greve especificamente política, a primeira no Brasil, segundo ele. “Paramos São Bernardo em solidariedade à greve dos petroleiros de Campinas e Paulínia, que estavam já há mais de 10 dias em greve. Nós saímos do nosso congresso, passamos em Campinas, participamos de uma assembleia com os petroleiros no domingo. Na segunda-feira, nós fomos para porta de fábrica de São Bernardo e na terça-feira, estávamos parados em solidariedade aos petroleiros”, explica. 

No entanto, ele lembra que não se sentia capaz de ser presidente do Sindicato e se assustou quando foi escolhido. “Eu nunca tinha falado numa assembleia e falei ‘não, não tenho capacidade para dirigir essa categoria depois do companheiro Lula’. Aí, quando me chamaram eu fui para casa do Lula e falei ‘Lula, eu participo, me coloca em outro lugar na chapa, estou na luta, mas eu não tenho condições’. E ele falou: 'Não, é você que vai ser o presidente, nós confiamos em você’. E aí eu fui”, relembra emocionado.

Edição: Rafael Tatemoto