AGROECOLOGIA

Coluna Ciências | A Agroecologia tem base científica? (Parte 2)

ONU defende a agroecologia como “essencial para o futuro da humanidade”

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Nos agroecossistemas diversas espécies vegetais, animais e de microrganismos convivem harmonicamente / Agência Brasília

Pense em uma área agrícola. Provavelmente, em sua mente veio algo como um grande campo coberto em abundância por um cultivo. Esse é o modelo utilizado pelo agronegócio. Trata-se, como visto na coluna anterior, de um ambiente com baixa complexidade e, por isso, baixa resistência. Pode ser facilmente destruído. Uma espécie invasora, um inseto por exemplo, pode arruiná-lo. 

Assim surgem as pragas. A plantação representa uma imensa oferta de alimento, o que leva ao aumento gigantesco da população do inseto. Ou seja, o próprio agronegócio cria ambientes favoráveis ao surgimento de pragas. Para compensar isso, ele usa venenos que eliminam esses invasores. 

A superexploração de um terreno por uma monocultura exaure os nutrientes do solo, o que força o agricultor a utilizar adubos químicos. Além disso, o agronegócio produz espécies que não são naturalmente encontradas em determinada região (por exemplo, a soja no cerrado) o que também exige a correção química do solo. 

Ou seja, o modelo do agronegócio é altamente dependente de compostos químicos para funcionar (o que gera muito lucro para as empresas que os produzem). O problema é que a maioria desses compostos são prejudiciais à saúde do ambiente e das pessoas. Além disso, eles são sintetizados a partir do petróleo, um composto que em breve deixará de estar disponível.

Por isso, desde 2007 a ONU afirma que “a agroecologia é essencial para o futuro da humanidade”. No lugar de áreas com baixa complexidade, ela cria os chamados agroecossistemas, em que diversas espécies vegetais, animais e de microrganismos convivem. O agricultor seleciona e maneja seu sistema com as espécies de interesse, o que o possibilita abrir mão da utilização de venenos e fertilizantes químicos.

Por exemplo: o invés de adicionar nitrogênio químico ao solo, o agricultor planta entre seus pés de café o feijão, que possui em suas raízes, naturalmente, bactérias que liberam nitrogênio no solo. Outro exemplo: ao invés de aplicar veneno contra um inseto que come seu tomateiro, o agricultor pode manter no terreno árvores que sirvam de abrigo a aves que caçam esses insetos.

Produzir com bases agroecológicas sem dúvida exigirá mais ciência e mais capacidade técnica dos produtores. Obrigará que deixemos para trás a monocultura e o latifúndio. Será preciso distribuir terras e devolver o poder de decisão às famílias do campo. Em troca, herdaremos uma alimentação mais diversa e sadia, que seja ambiental e socialmente equilibrada.

Um abraço e até a próxima!

*Renan Santos é professor de biologia da rede estadual de Minas Gerais.

Leia a primeira parte do artigo "Agroecologia tem base científica?"

Edição: Joana Tavares