Novas Tecnologias

Artigo | A era digital e a economia do século XXI

Nesse contexto é necessário regulamentar o papel e a responsabilidade dos provedores de Internet e de conteúdo digital

Recife (PE)

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Equipamentos como o telefone celular incorporaram novas funcionalidades e aplicativos, ampliando as possibilidades de comunicação / Bruno Fortuna/Fotos Públicas

No período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial (1945) até princípios dos anos 1990, as inovações tecnológicas que impactaram o mundo corporativo, e a humanidade de uma maneira geral, ocorreram de forma mais espaçada e até com algum grau de previsibilidade. Nas empresas e organizações, produziram poucas alterações na cultura empresarial, no ambiente do trabalho e nas relações com clientes e fornecedores.

Para o mundo dos negócios e do trabalho esse período foi marcado por algumas características, onde se destacavam: predominância de possantes corporações industriais com alcance mundial; monopólio de grandes marcas; sindicatos fortes e com maior poder de representatividade; o conhecimento da profissão e a experiência dos trabalhadores eram ativos valorizados; empresas com ciclos de vida longos; mais de uma década (em média) era o período em que uma empresa próspera levava para se tornar um player (líder ou destaque) no mercado; cultura de planejamento de médio e de longo prazo; e, concepção de clientes como receptores de bens e serviços.

No princípio dos anos 1990 ocorreu uma revolução silenciosa, o mundo digital entrou em cena provocando as seguintes mudanças: ampliação do consumo de computadores individuais e plataformas de serviços agregadas; expansão da telefonia celular e o surgimento de aparelhos com múltiplos utilitários; novas formas de adquirir, vender, trocar mercadorias e contratar serviços; acesso a informações em tempo real através de mídias diversas e não convencionais; explosão das comunicações em nível individual, ampliada e praticamente sem limites ou barreiras. A partir de então, as formas de pensar, comunicar, trabalhar, divertir e se relacionar, nunca mais seriam as mesmas.

Esse novo momento pode ser definido como a transição da economia industrial para a chamada economia digital, ou economia do século XXI. 

No mundo do trabalho o crescimento acelerado e o avanço das tecnologias digitais em todos os setores, provocou um profundo impacto: O conhecimento tradicional e a experiência do trabalhador perderam espaço para outras habilidades como a flexibilidade para realizar múltiplas tarefas de natureza distintas, o domínio de ferramentas digitais e de programas básicos de computação, e a capacidade de comunicação e de estabelecer relacionamentos; o nível de precarização das relações de trabalho aumentou, na mesma proporção em que cresceu a demanda por serviços terceirizados; categorias tradicionais de trabalhadores como os bancários, taxistas e até operários de industrias sofreram grande redução, enquanto outras, como serviços técnicos de telefonia e TV por assinatura e suporte tecnológico a bancos, redes varejistas e hospitais tiveram forte crescimento; o mercado de trabalho se tornou mais atrativo para trabalhadores jovens, envolvidos com as novas tecnologias.

No atual ciclo da economia mundial, novos paradigmas se estabeleceram: às comunicações dispararam; o alcance das empresas, mercados e clientes explodiu; os consumidores passaram a ter papel de protagonistas, e o ritmo das inovações e mudanças alcançou uma escala exponencial, alterando substancialmente a configuração das empresas, do mercado de trabalho e da oferta de serviços. Alguns exemplos: Equipamentos como o telefone celular incorporando a cada dia novas funcionalidades e aplicativos ampliando as possibilidades de comunicação e de acesso a informações e serviços; Bancos praticamente virtuais; Plataformas como o UBER substituindo os serviços de taxi; Sites de viagens e de aluguel de imóveis tomando o lugar das agências de viagens e corretoras de imóveis. Trinta anos atrás, para se atingir um bilhão de pessoas, era necessário ter um porte de uma Coca Cola ou uma grande montadora de veículos. Atualmente, um estudante que domine ferramentas básicas de TI pode criar um aplicativo para algumas plataformas principais e em semanas ou meses, atingir a humanidade.

Na economia do século XXI a utilização de ferramentas e conteúdos digitais ultrapassam os limites do mundo corporativo e de negócios, ampliando as possibilidades de criar soluções para problemas e desafios de natureza social, ambiental e política, como, por exemplo: plataformas para disseminar tecnologias que promovem o uso racional da água; comercialização de produtos orgânicos; criação de criptomoedas (Bitcoin, Ethereum,  Cardano, entre outas); prevenção e controle de doenças; monitoramento de políticos e de políticas públicas; incentivo a utilização de meios de transporte não poluentes como as bicicletas; incluindo também a produção e disseminação de conteúdo cultural e audiovisual, entre tantas outras alternativas.  

Por outro lado, o acesso quase ilimitado às informações e a troca de comunicações ampliada, associado à ainda frágil regulamentação das relações com provedores de Internet e de conteúdo digital, tem gerado situações de risco político e social, como a manipulação de informações para interferir em processos eleitorais, e a produção de notícias de conteúdo falso - fake news. Aliado as facilidades que a era digital traz para a vida cotidiana, existe também a questão do desequilíbrio que a tecnológica pode provocar nas relações da vida pessoal e do trabalho. Com tantos meios de comunicação a disposição e com aumento das “relações sociais virtuais”, as pessoas se sentem conectadas ao resto do mundo (incluindo as relações de trabalho), 24 horas por dia. Essa fixação no mundo digital tem causado transtornos nas relações sociais, como o aumento de casos recentes de dependência em tecnologia e a substituição das relações pessoais (face a face) por conversas e contatos totalmente digitais. 

O fato é que, para o bem ou para o mal, a economia digital é um caminho sem retorno e tende a se intensificar ainda mais nos próximos anos. Como aconteceu em épocas passadas, principalmente após a revolução industrial, as pessoas que atravessam esses momentos de mudanças intensas de ciclos econômicos provocados pela aceleração de novas tecnologias, são colocadas no meio de uma zona entre a destruição de estruturas econômicas estabelecidas e o surgimento de novas oportunidades.  A chamada “destruição criativa”, denominada pelo economista Joseph Schumpeter no século passado, que retomou o seu fôlego no século XXI.

No Brasil e outros países da América Latina, as possibilidades da economia digital estão disseminadas entre vários segmentos sociais, porém com maior concentração no meio empresarial / corporativo, industrial, agroindustrial, serviços financeiros, saúde, polos e parques tecnológicos, centros de pesquisas e setores governamentais considerados de excelência (Receita Federal, Secretarias de Fazenda, Tribunais da alta corte, entre outros). Nesse cenário, alguns desafios se impõem:

A legislação precisa acompanhar as mudanças provocadas pela economia digital.

É necessário regulamentar o papel e a responsabilidade dos provedores de Internet e de conteúdo digital.

O avanço nas tecnologias da informação e da comunicação tem provocado mudanças de comportamento, além de abalar as estruturas do mundo corporativo, as relações de trabalho e ultrapassar os limites de marcos regulatórios. A resistência da sociedade é necessária para enfrentar os efeitos colaterais, porém é necessário que ocorra de forma racional buscando um equilíbrio com as novas oportunidades que também são geradas nesse processo.   

Os partidos políticos, as federações e sindicatos de trabalhadores e as organizações da sociedade civil vão precisar incorporar, urgentemente nas suas agendas o tema da revolução digital e os seus impactos no mundo social e do trabalho.

*Roberto Ramos é economista e economista

Edição: Monyse Ravena