Opinião

Artigo | Jornal Nacional e notícias falsas

A mídia corporativa alimenta, de forma muito irresponsável, a construção da inverdade

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)

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Realidades se constroem pela linguagem, discursivamente. Na linguagem, no discurso, nada é aleatório / Foto: Reprodução/TV Globo

No dia 15 de setembro, a edição do Jornal Nacional trouxe uma ampla matéria sobre dólares e joias encontrados na bagagem da comitiva do vice-presidente da Guiné Equatorial no aeroporto de Viracopos, em Campinas. Ao que se sabe, o vice-presidente, filho do (assim referenciado no jornal) ditador daquele país africano, vinha ao Brasil para um tratamento de saúde. Até aí, tudo ok no desenrolar da matéria. Mas, ao final, uma informação adicional: o ex-presidente Lula já havia visitado o país em 2010, e seu governo mantinha relações com o governo ditador daquele país africano. Para ilustrar, fotos de Lula com o ditador. No dia seguinte, os jornais impressos repercutiram o assunto.

E ao longo da semana, grupos de WhatsApp e outras redes sociais deram conta de disseminar as tais fake news, com “notícias” ressignificadas a partir dessa cena. E então, todos foram “informados” de que o dinheiro apreendido era para a campanha de Haddad, pois Lula havia perdoado a dívida do país africano e havia investido dinheiro do BDNES na Guiné-Bissau (na verdade, as malas eram do vice da Guiné Equatorial, mas isso já não importa muito). Foram tão disseminadas que o BNDES teve de fazer um esclarecimento e colocar um link para que as pessoas pudessem comprovar que o banco não emprestou dinheiro para qualquer dos países. 

Desde que as notícias ganharam essa forma e passaram a circular existem boatos, mentiras, fake news. A questão, hoje, é que a mídia corporativa alimenta, de forma muito irresponsável, esse tipo de construção. E alimenta porque dá munição à produção dessas inverdades ao, por exemplo, recuperar temas e assuntos de outros momentos e circunstâncias e estabelecer uma ligação com assuntos de um contexto atual, de um cenário atual. Ou, ao deixar no ar hipóteses - sem de fato mencioná-las, mas “dando a  entender”. Uma cena pode ser muito bem construída para direcionar a interpretação dos espectadores.

Cena 1: Vice-presidente da Guiné Equatorial, filho do ditador daquele país, entra no Brasil com malas cheias de dólares e joias, que são apreendidas pela PF. A origem e o destino serão investigados.

Cena 2: Fotos de Lula, quando presidente do Brasil, ao lado do referido ditador com a informação em off de que o ex-presidente esteve naquele país e “foi criticado por apoiar uma ditadura”.

O espectador, então, pode ser levado a concluir que….

Do ponto de vista de informação jornalística, qual a relevância para a abordagem desse assunto específico em mostrar fotos de Lula, em 2010, ao lado de um “ditador” (referência dada pelo jornal), cujo filho entrou no país com malas de dinheiro e joias? Qual a novidade para o caso, a não ser a possibilidade de que se façam inferências a respeito? O repertório da “corrupção nunca antes vista no país” paira sobre nós, conduzindo as interpretações possíveis.

Realidades se constroem pela linguagem, discursivamente. Na linguagem, no discurso, nada é aleatório. Nada. Verbos, referências, nominações, notícias aparentemente desconexas… tudo tem função quando se trata de produzir sentido, e produzir sentido em determinada direção.

E essas próximas semanas serão plenas dessas estratégias e de mais exemplos como esse. Aguardemos.

*Eliara Santana é jornalista e doutoranda em Estudos Linguísticos na PUC Minas/Capes.

Edição: Joana Tavares