Polêmica

Medida Provisória de Temer abre brecha para privatização dos museus brasileiros

Incêndio no Museu Nacional foi usado como pretexto para mudança no modelo de gestão

Museu da Inconfidência, em Ouro Preto (MG), pode ser afetado pela decisão de Temer
Museu da Inconfidência, em Ouro Preto (MG), pode ser afetado pela decisão de Temer | Crédito: RossanoPio/CreativeCommons

O incêndio do Museu Nacional, que ocorreu no Rio de Janeiro no último dia 2, abriu caminho para um novo projeto de privatizações do governo golpista. Uma semana depois da tragédia, o presidente Michel Temer (MDB) assinou a Medida Provisória (MP) Nº 850, que extingue o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e propõe a criação da Agência Nacional de Museus (Abram). 

Se o Congresso Nacional aprovar a decisão, a Abram passa a ser responsável pela gestão de todos os museus federais e funcionará por meio do sistema de serviço social autônomo. A medida prevê a criação de fundos patrimoniais para arrecadar e gerir doações de pessoas físicas e jurídicas para projetos de interesse público – o que, na prática, significa dar carta branca para a classe empresarial interferir na gestão da cultura.

Para o pesquisador em arqueologia Luiz Oostebeek, membro do Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas (UNESCO), os museus têm importância decisiva na construção de formação cultural e cidadã de um país, e o poder público deve assumir a responsabilidade desse processo.

"Há um conjunto de atividades na sociedade contemporânea que requerem uma visão estratégica integrada, e é uma obrigação do poder público assegurar essa integração. É um erro separar, por exemplo, o que você vai fazer em politica de saúde, com o que você vai fazer em política de meio ambiente e de educação, ou de museus", analisa. "Existe uma lógica pública de formação e cidadania, e isso compete ao Estado de Direito, que é uma conquista que se formou desde o século XVIII e que nós temos que honrar", finaliza. 

Em entrevista à Agência Pública, José Nascimento, presidente do Ibram entre 2009 a 2013, também criticou a Medida Provisória e questionou a legalidade da ação em meio a uma campanha eleitoral. Sem o Ibram, criado pelo ex-presidente Lula, em 2009, ele alerta que gestão seria diluída dentro do Ministério da Cultura (MinC) e os quase quatro mil museus espalhados pelo Brasil não receberiam a devida atenção do Estado.

Editado por: Daniel Giovanaz

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