CONTRA BARBÁRIE

Sérgio Mamberti: “o conservadorismo resiste de forma violenta”

Ator participou de ato suprapartidário de artistas paranaenses contra a barbárie, em Curitiba (PR)

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Mamberti criticou a fala do ministro do STF, Dias Toffoli, que relativizou o golpe militar de 1964 / Giorgia Prates

A elite e o conservadorismo brasileiros mostram sua resistência aos governos populares através de uma violência tão forte quanto a da ditadura militar de 1964. Essa é a análise que o ator Sérgio Mamberti faz da atual conjuntura política do país.

“Depois de 12 anos de governos democráticos e populares, com as conquistas que nós tivemos, a gente vê que os conservadores, essa elite que sempre esteve à frente, resistiu de uma forma drástica e violenta. Em alguns aspectos, até mais violenta que em 1964”, disse Mamberti. 

O ator esteve em Curitiba na noite desta terça (2), para o ato suprapartidário de artistas paranaenses contra a barbárie, que contou também com as presenças da poeta Alice Ruiz e da presidenta nacional do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann.

Mamberti tem uma longa história de militância, tendo sido filiado ao Partido Comunista Brasileiro, na juventude, e ao PT, atualmente. Durante o governo Lula, ele ocupou o cargo de secretário da Identidade e da Diversidade Cultural e presidente da Fundação Nacional de Artes no Ministério da Cultura. 

Em sua análise do cenário político atual, Mamberti trouxe ao presente a história brasileira. Ele lembrou o aprofundamento da ditadura militar a partir de 1968, com o Ato Institucional Número 5 (o AI-5, que legitimou a censura e a tortura de militantes opositores ao governo militar) e disse encontrar semelhanças com o que acontece no Brasil atualmente. 

“Fomos derrotados em 1964, mas resistimos bravamente. [Os conservadores] tiveram que fazer o AI-5 e dar um outro golpe, assim como eles estão aprofundando o golpe nessas eleições. Na verdade, o que existe hoje é um aprofundamento do golpe”, analisou o ator. 

Mamberti criticou também a fala do ministro Dias Toffoli, que disse que prefere chamar o golpe de 1964, que instaurou a ditadura militar, de “movimento de 1964”. Para o ator, “só quem viveu a ditadura sabe o quão cruel foi esse ‘movimento’”.

No mesmo sentido, a poeta paranaense Alice Ruiz analisou o atual momento com apreensão por ver se aproximar “uma coisa pior do que aconteceu nos anos 1960”.

“Eu tenho medo não por mim, mas pelo futuro. Dá uma pena quando a gente olha para frente e vê nosso país ameaçado, nossas riquezas sendo entregues de mão beijada, nossa saúde, educação e cultura ameaçadas”, disse.

A poeta Alice Ruiz confessou estar preocupada com o futuro do país. (Foto: Giorgia Prates)

Apesar das análises pessimistas, Mamberti e Ruiz afirmaram ter esperança de que é possível escrever uma história diferente nos próximos dias.

“Temos os movimentos sociais, os artistas, eu acredito e confio que vamos vencer mais essa batalha. Pode parecer um falso otimismo, eu estou vendo muita apreensão nesse momento, mas não quero abdicar dessa luta”, disse Mamberti.

Manifesto contra a barbárie

No mesmo ato, artistas paranaenses lançaram seu manifesto contra a barbárie que avança no Brasil desde o golpe de 2016. 

No documento, condenam a “ameaça de retorno à ditadura” e o “elogio à tortura e aos torturadores”, reconhecendo, também, o estado do Paraná como um dos centros do processo fascista.

“Mas afirmamos também que, diante desse desafio, o Paraná tem sido um polo de resistência popular e democrática, com ações como a Vigília Lula Livre, o Centro de Formação Marielle Vive e a ocupação da sede do IPHAN em Curitiba, que iniciou o movimento nacional pela manutenção do Ministério da Cultura”, escrevem os artistas no manifesto.

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira