Liderança feminina no cangaço, vida de Maria Bonita é resgatada em livro

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De acordo com Adriana Negreiros, Maria Bonita exercia uma influência muito grande sobre o Lampião
De acordo com Adriana Negreiros, Maria Bonita exercia uma influência muito grande sobre o Lampião - Divulgação
"Obra é uma forma de mostrar uma outra visão do bando de Lampião", afirma jornalista Adriana Negreiros

Maria Gomes de Oliveira foi uma mulher transgressora, mas não feminista.

É assim que a jornalista Adriana Negreiros caracteriza a atuação de Maria Bonita como companheira de Lampião e liderança política no cangaço, entre 1920 e 1930.

O comportamento da Rainha do Sertão, como também ficou conhecida ao longo dos anos, e de outras mulheres no cangaço, está sendo revisto na obra “Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço”, lançado este ano pela editora Companhia das Letras.

Ao Brasil de Fato, Adriana falou sobre importância da perspectiva feminina ao retratar o cangaço. “Essa é uma história que geralmente é contada a partir da perspectiva do homem, da figura do Lampião. Os protagonistas são o Curisco, os políticos da época, os soldados. Escolhi a Maria Bonita por ser a principal mulher do bando e a pioneira no cangaço”, explica.

Ao longo das quase trezentas páginas do livro, a pesquisa conta uma história que, em diversos momentos, desmistifica a imagem concebida nos últimos 80 anos.

As contradições de uma personalidade que era transgressora, mas não pode ser considerada feminista, são apresentadas na obra tentando reproduzir com fidelidade as nuances daquele período, comenta Adriana Negreiros.

“A Maria Bonita exercia uma influência muito grande sobre o Lampião. Era a cangaceira mais importante, mas não tinha essa liderança reconhecida pelas demais cangaceiras. Ela vista com alguma reserva, e muitas achavam que a Maria Bonita era “arrogante”, por ser mulher do chefe. Ela não era, ao contrário do que pensam, uma liderança feminista”, revela Adriana

Em um exercício de imaginação, como você acredita que Maria Bonita atuaria politicamente em 2018? Como sua liderança influiria e modificaria as estruturas de uma sociedade ainda marcada pelo patriarcado e o machismo?

Segundo Adriana Negreiros, “se considerarmos a época que ela viveu, podemos dizer que ela teve um comportamento muito transgressor. Maria Bonita era uma mulher casada, infeliz, e que decidiu romper com aquela situação para ser feliz com Lampião no bando dele. Se ela vivesse em 2018 certamente seria uma liderança feminista, ou uma mulher muito consciente das questões de gênero. É um exercício de pura imaginação, mas acredito que Maria Bonita estaria em um coletivo feminista do sertão, por exemplo”, opina.

Maria Bonita faleceu em julho de 1938, aos 27 anos, quando o bando acampado na Grota de Angicos, em Poço Redondo, no Sergipe, foi surpreendido pela polícia.

Para saber mais sobre a figura de Maria Bonita, de seu companheiro Lampião e da vida no cangaço, acesse o especial feito pelo Brasil de Fato que comemorou os 80 anos da morte de Lampião.

Edição: Camila Salmazio