Militância

Marcelo Barros: "O Brasil é hoje exatamente o oposto de unidade"

Monge beneditino destaca a importância da juventude e dos movimentos no processo de construção da política brasileira

Brasil de Fato | Recife (PE)

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"Qualquer trabalho pela unidade verdadeira é trabalho pelo socialismo" / PH Reinaux

Marcelo Barros é monge beneditino e assessor de movimentos populares. Sua história se cruza com religião e política, pela sua atuação e vida. Conversamos com ele em nosso programa de rádio sobre o momento em que o Brasil vive. Na entrevista, ele, que também é escritor e teólogo brasileiro, destaca a importância da juventude e dos movimentos populares na vida política do país.

 

Brasil de Fato - Quando a gente acompanha uma análise de conjuntura elas são feitas destacando a ausência de uma unidade popular no país. O que se pode avaliar nesse sentido? Estamos sem uma unidade popular no país?

Marcelo Barros - O Brasil é hoje exatamente o oposto de unidade. Se há uma coisa completamente contrária é uma sociedade na qual cinco brasileiros, o dono do Itaú, o dono daquela cervejaria e mais outras cinco pessoas que detêm uma renda equivalente à metade da população brasileira. Então, como se pode falar em unidade nesse contexto? Como se pode falar em unidade num contexto em que os meios de comunicação estão concentrados em cinco ou seis grandes empresas, a Globo, a Band, etc. e que dizem o que querem, fazem o que querem e tornam mentira uma verdade, e o que é verdade tornam mentira? Então, nesse contexto de luta de classes, de divisão social, eles, para manter essa realidade injusta, iníqua, fomentam um clima de muita intolerância, de muita animosidade, de muita incapacidade de conviver entre os diferentes. Então qualquer trabalho pela unidade verdadeira é trabalho pelo socialismo, é trabalho por uma unidade popular e por um apoio às lutas sociais para que a gente possa libertar o povo brasileiro de toda opressão e para ter um Brasil novo.

BdF - Então, pensando num processo histórico e contínuo entre as gerações, como se pensar esse Brasil novo a partir de uma análise sobre a juventude e a militância política de hoje?

Marcelo - Quando eu era novo, lia um autor que hoje em dia não é conhecido, que é um francês que morou no brasil, George Bernanos, e ele tinha uma frase que dizia assim "se a juventude esfriar, o mundo inteiro bate os dentes". E acho que isso continua sendo verdade e fico muito feliz quando eu percebo um movimento como o Levante Popular da Juventude, todo o trabalho que o MST tem com jovens. Agora, recentemente, na greve de fome, aqui em Pernambuco, foram jovens que faziam vigílias todos os dias. Eu participei de três, em que eles ficavam o dia inteiro em jejum em solidariedade aos companheiros de Brasília. Então, esse fato dos jovens entrarem nesse caminho novo é uma coisa muito importante. E eu acho que a gente, nós todos, intelectuais, assessores, todo mundo de gerações mais adultas, tem uma dívida com a juventude, uma dívida social, histórica. E a dívida é: qual é o mundo e Brasil que estamos passando para gerações mais novas? O que está aí, nós não temos nada a ver ou temos responsabilidade? E o que está aí não é nada bom. Então, qual é a herança que a gente está deixando para a juventude que vem a seguir?

BdF - O que você destaca sobre o Congresso do Povo, que faz parte de um processo de aglutinação das forças populares no país e que aponta justamente para essa proposta de unidade popular?

Marcelo - O Congresso do Povo é uma iniciativa da Frente Brasil Popular, composta por 84 entidades brasileiras de base, da classe trabalhadora de várias categorias e qual é o objetivo? O primeiro é dar vez ao povo, que o povo mesmo, aliás povo é um conceito ambíguo. Mas aqui vamos usar o povo brasileiro, eu estou falando o povo que se opõe à elite, o povo pobre, como se diz na gíria, lascado, né? Então é esse povo que é do Congresso do Povo. E o que significa isso? É nas periferias, bairros, juntar o povo com três perguntas: quais os problemas que você tem na vida, o que vocês sentem como dificuldades? Quem são os responsáveis por isso, o que vocês acham que provoca esse problema? E quais as soluções que podemos ter? Essas perguntas fundamentais formam a espinha dorsal da construção do Congresso do Povo e vão se juntando, como mutirão, as opiniões até chegar no nacional, que será em fevereiro de 2019.

BdF - Analisando esse contexto em que o congresso do povo está inserido, alguns analistas fazem leituras de que temos semelhanças possíveis entre o período pré-ditadura e o contexto atual. Qual a sua opinião sobre esse tema?

Marcelo - Onde não há democracia verdadeira, possibilidade de se discutir as questões, onde por exemplo, a maioria da população é completamente marginalizada, ignorada, não é levada em consideração, é ditadura. Não é ditadura militar. No Brasil vivemos uma ditadura parlamentar, porque foi o parlamento que deu o golpe e nós vivemos um momento ditatorial dos meios de comunicação que ditam o que querem, acham e acreditam. Nesse ponto de vista, há muita semelhança com a ditadura de 64. Dessa vez, graças a Deus os movimentos sociais começaram a se unir. Eu participei da comemoração do 1º de maio unificado em Curitiba. Seis centrais sindicais no mesmo palanque pela primeira vez desde 1985, então isso é uma coisa nova mesmo em relação aos tempos da ditadura militar, a luta que a gente teve pela redemocratização, isso é muito e precisa ser ampliado e continuado.

Edição: Catarina de Angola