Análise

Discurso antissistema de Bolsonaro se assemelha a Hitler e Mussolini, diz pesquisador

Especialistas apontam crescimento de postura antipolítica desde a disputa eleitoral de 2010

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Manifestantes comparam Bolsonaro com Hitler em atos realizados no último dia 29 / Foto: Mídia Ninja

Com a proximidade do primeiro turno das eleições, o discurso do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL) tem atraído parte da população insatisfeita com a atual situação política do país. Bolsonaro se coloca como um candidato antissistema, apesar de mais de duas décadas como deputado, do apoio que recebe das bancadas do Congresso Nacional e de grandes setores da elite econômica brasileira.

“O Bolsonaro tem 27 anos como deputado, é vinculado à corporação militar, tem apoio de grupos empresariais e políticos importantes, mas tenta se apresentar como se fosse alguém fora do sistema”, afirma o historiador Valter Pomar. Ele avalia que Bolsonaro faz um movimento similar ao que Fernando Collor fez em 1989.

"O Collor era um filho da oligarquia, alguém com trajetória nos partidos conservadores, apoiado pela Rede Globo, mas ainda assim se apresentou como se fosse alguém de fora do sistema”, lembra. 

Luis Felipe Miguel, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), avalia que o verniz antissistema sobre o discurso do militar reformado não significa que ele irá transformar o sistema político.

“O que nós vemos no caso do Bolsonaro, assim como no caso de Donald Trump e de muitos outros, é que eles capturam esse sentimento antissistema da população não para usar contra o sistema, mas para usá-lo contra as brechas que os grupos dominados conseguiram gerar neste próprio sistema”, avalia. “O problema não é a desigualdade, o problema é a cota. O problema não é o privilégio, é o direito”, ironiza Miguel.

Discurso antissistema e fascismo

O professor do departamento de sociologia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) John Kennedy Ferreira aponta que o discurso antissistema esteve forte em outros momentos históricos, especialmente nas décadas de 1920 e 1930 com figuras como Primo de Rivera, na Espanha, Benito Mussolini, na Itália, e Adolf Hitler, na Alemanha. 

Luis Felipe Miguel ressalta que, apesar das diferenças por se tratarem de momentos históricos distintos, o fascismo europeu do século 20 tem características centrais presentes no discurso do candidato Jair Bolsonaro. “Está relacionado com intolerância à qualquer forma de acordo, com a defesa da manutenção das hierarquias sociais, com a utilização de uma revolta social para manter as estruturas vigentes e com uma exaltação da violência aberta como forma de resolver os conflitos”, afirma. 

Ferreira, no entanto, aponta diferenças em relação às propostas econômicas. Enquanto figuras como Mussolini e Hitler defendiam o fortalecimento do Estado, Bolsonaro propõem seu enfraquecimento. Para Valter Pomar, Bolsonaro apresenta “uma espécie de fascismo tupiniquim neoliberal”. “O Bolsonaro faz um discurso nacionalista entre aspas, porque não propõe fortalecer o Estado-nação. Ao contrário, o programa econômico dele é ultraliberal, é um programa de fortalecimento da repressão social”, diz o historiador.

Ele ressalta que, no final do século 19 e início do século 20, a força de setores da esquerda fez com que sistemas políticos oligárquicos se abrissem para a participação eleitoral massiva. “Isso obrigou os partidos conservadores, já no século 19, a construir um discurso que permitisse ganhar apoio popular. O discurso da religiosidade e a manipulação de preconceito dos mais variados tipos passou a fazer parte do repertório da direita. O Bolsonaro manipula essas ferramentas”, afirma Pomar. 

Insatisfação generalizada

“Existe uma insatisfação generalizada. Nós temos um regime que se quer, ou se queria, democrático, mas que age em benefício de muito poucos. Temos uma sociedade altamente desigual e as instituições políticas mais protegem essa desigualdade do que a ameaçam”, afirma Luis Felipe Miguel. 

O professor da UnB aponta que o avanço da extrema-direita está relacionado com uma tentativa de se apropriar da insatisfação dos brasileiros com o sistema político e com o funcionamento da sociedade. Ele avalia que esse movimento aconteceu porque a esquerda deixou esse espaço ser ocupado quando perdeu a radicalidade de seu discurso. “Em grande parte, a esquerda parece estar defendendo esse modelo democrático ‘aguado’, essa economia de mercado com pouca regulação estatal, mas não apresenta de uma maneira forte um discurso de contestação do mundo”, afirma Miguel. 

O historiador Valter Pomar concorda que uma insatisfação popular proporcionou o crescimento de discursos como o de Bolsonaro. Pomar relaciona a campanha de Bolsonaro com a do presidente estadunidense Donald Trump. “A campanha do Trump tinha um mote que era 'nós contra Washington’. O Trump, um grande empresário, lançado pelo Partido Republicano, fazendo um discurso como se o sistema político fosse os outros. Tentando se identificar com as camadas populares que, por motivos justos, se sentem excluídas do sistema político.”

2010 e o crescimento do discurso antissistema

John Kennedy Ferreira afirma que o discurso antissistema está latente e volta a se manifestar em momentos como o atual. “Sempre existiu, sempre esteve presente. É um discurso que busca a garantia do privilégio na política. Vai aparecer fortíssimo, por exemplo, na tentativa de golpe em 1954”, exemplifica. 

Ferreira e Valter Pomar acreditam que tais ideias começaram a se fortalecer já em 2010, na disputa do segundo turno das eleições presidenciais entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB). “Quem introduziu esse discurso de extrema-direita contra a esquerda foi o PSDB, que hoje é vítima, em partes, do que plantou. Digo em partes, porque importantes quadros do PSDB, o mais recente é o Xico Graziano, já estão declarando voto no Bolsonaro”, diz Pomar. O historiador afirma ainda que a “direita normal”, como o PSDB, apelou para a extrema-direita para combater a esquerda, já que vinha perdendo há quatro eleições seguidas.

O professor da UFMA afirma que o fim das manifestações de 2013 e os movimentos a favor do golpe que destituiu Rousseff são outros dois fatores que mostram o crescimento do discurso da extrema-direita, relacionado ao antissistema. Ele destaca que a crise política somada a crise econômica aumentou o espaço para discursos com "soluções milagrosas" e cortes de direitos.

Pomar chama ainda a atenção para uma possível armadilha para os grupos de esquerda no combate ao discurso antissistema. "A extrema-direita é antissistêmica no sentido demagógico da palavra, faz um discurso antipartido, antipolítica. No entanto, a esquerda não pode defender o sistema político atual para se contrapor", defende.

Para o historiador, o sistema político atual beneficia as elites e é necessário reformá-lo.

Edição: Diego Sartorato