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Tudo sobre a reta final do 1º turno das eleições na newsletter Ponto

Projeto de curadoria de notícias envia um resumo informativo a seus assinantes todas as sextas-feiras

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Resumo traz indicações de leituras e informações selecionadas para o leitor do Brasil de Fato / Foto: Ponto

No boletim semanal Ponto, projeto em parceria com o Brasil de Fato, um resumo das principais notícias da semana que passou, que muitas vezes se perdem em meio ao caos de informações, além de análises, indicações de leituras e outros conteúdos que, na correria do dia a dia, você não conseguiu acompanhar.

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Reproduzimos abaixo a última edição do Ponto, enviada em 5 de outubro de 2018.

 

05 de Outubro de 2018

Olá,

Nesta semana, temos muito a conversar. Vamos tentar entender a onda conservadora desta semana e como a campanha de Haddad reagiu. Também discutimos a entrada em campo da turma do Judiciário e dos militares quando não a favor de Bolsonaro, claramente contra os petistas. Temerosos sinais de retrocesso político e civilizatório nas nossas outras seções. Respirem fundo e vamos lá.

A Onda. Se o segundo Ibope da semana aparentou que Bolsonaro havia chegado ao teto, o Datafolha desta quinta (4) indicou que o admirador de Ustra está recebendo todos os votos antipetistas já no primeiro turno. Ele apareceu com 39% dos votos válidos, enquanto Haddad manteve-se estável, com 25%, e empatado com Bolsonaro na simulação de segundo turno. Ciro tem 13% e Alckmin, 9%.

Bolsonaro está tentando levar a eleição ainda no primeiro turno. E não é sem apoio. Depois das mobilizações do #EleNão, uma reação conservadora veio em favor do candidato,motivada também pelo próprio crescimento de Haddad nas pesquisas anteriores: pregações nas igrejas, apoio de figuras como Edir Macedo, espaço generoso no Jornal Nacional eentrevistas exclusivas e benevolentes que infringem a lei eleitoral. Sobre as entrevistas, vale ler a postagem de Pedro Abramovay: uma eventual presidência Bolsonaro irá testar os limites de nossas instituições democráticas. Além disso, o famigerado “Centrão” está mostrando que nunca teve nada de centro e antecipando seu apoio a Bolsonaro, incluindo as bancadas evangélica e ruralista. Sérgio Moro não quis ficar de fora e também deu sua parcela de contribuição (leia abaixo). O incrível caso de um candidato que se apresenta como antissistema, mas recebe apoio de grande parte do sistema. O site Nexo fez um apanhado de motivos que levaram a um aumento da popularidade de Bolsonaro e da rejeição de Haddad. Resultado: Bolsonaro cresceu inclusive entre as mulheres. A estratégia de Bolsonaro inclui elogios a Lula para eleitores do Nordeste, onde tem mais dificuldade. Ao longo da newsletter, trazemos exemplos de como o jogo está sendo muito pesado por parte da campanha bolsonarista.

Em tese, Bolsonaro precisaria de 12 pontos percentuais até domingo, mas também se beneficia se o número de votos válidos diminuir. No Painel da Folha, a informação de que a campanha de Haddad teme o aumento de votos brancos ou nulos. Os diretores do Datafolha afirmam que “a evolução dos dados sugere migração gradual de eleitores de outros candidatos para o ex-deputado. A maior parte do que ele ganhou nos últimos dias, no entanto, saiu do contingente dos que pretendiam votar em branco ou anular o voto”. A dúvida seria se a onda atingiu o teto para o primeiro turno ou ainda pode continuar. A cristalização do voto já ultrapassa 70%, mas o índice dos que cogitam trocar de candidato ainda seria suficiente para provocar variações decisivas. Na revista Piauí, José Roberto de Toledo faz uma projeção pessimista: “A campanha de Bolsonaro tenta emular o efeito que elegeu Doria prefeito de São Paulo. Trata-se de convencer o eleitor insatisfeito, cujo candidato já se afogou pelo caminho, que não vale a pena esperar até o segundo turno para votar contra o PT”.

Dá tempo. As pesquisas internas do PT já sinalizavam que a transferência de votos de Lula para Haddad diminuiria o ritmo na reta final e de que Bolsonaro poderia crescer. Mas as últimas pesquisas obrigaram o partido a antecipar a estratégia que guardavam para o segundo turno: subir o tom contra o deputado carioca. Nas últimas propagandas e o debate na tevê, diminuiram as associação entre Haddad e Lula, para enfatizar o candidato como defensor dos direitos humanos e dos direitos sociais. Para isso, Haddad vai mirar no calcanhar de aquiles do adversário: apresentar propostas econômicas e denunciar as propostas de retiradas de direitos como 13º, licença-maternidade e a reforma da Previdência. Bolsonaro seria a continuação do governo Temer. O outro terreno da campanha petista é enfrentar a difusão de campanhas falsas (leia abaixo) e tentar um contato direto com o eleitor mais pobre.

A estratégia parece ter dado resultado: segundo a pesquisa do Poder 360 desta sexta (5), considerando os votos válidos, Bolsonaro alcança 33%, mas Haddad também cresceu, atingindo 27%. Os números apontam que a eleição segue para o segundo turno. Segundo o Poder, ondas de crescimento, que garantam uma eleição no primeiro turno, são comuns para os governos estaduais e prefeituras, mas improváveis na campanha presidencial. Além disso, nas duas eleições em que FHC venceu no primeiro turno, seus índices estavam em 48% e 49%. Outro fator importante, segundo a pesquisa, é de que uma vitória em primeiro turno implicaria em desidratação acelerada dos outros adversários. Porém, o índice de certeza de votos está consolidado em todos os candidatos, ou seja, a maioria dos eleitores já está decidido em quem votar e pouco propício a mudar sua opinião agora, mesmo entre aqueles que estão teoricamente fora da disputa.

Se chegar ao segundo turno, a aposta da campanha é transformar a polarização de petismo x antipetismo em “luta de classes entre ricos e pobres”. No Estadão, a dúvida é se o rótulo de elitista e privatizador que o PT colou no PSDB vai funcionar com Bolsonaro. No mesmo sentido, na Folha, Mariliz Pereira Jorge desabafa que a elite não aguenta mais ser chamada de fascista e que a estratégia tem sentido contrário, afastando dos petistas os votos do andar de cima. Como lembra a Exame, tudo o que o Bolsonaro precisa é que a eleição acabe no domingo.

Afastado do debate público desde o atentado de Juiz de Fora, no segundo turno, Bolsonaro seria obrigado a se expor nos debates e com um tempo maior de propaganda eleitoral, precisaria apresentar e defender as suas propostas.

RADAR

A república de farda e de toga. Nestas eleições, bateu saudades da República Velha, com militares e juízes escanteando o protagonismo dos civis. Entre os juízes, Sérgio Moro ressurgiu na última semana da eleição, tornando pública a delação de Palocci. Uma delação questionável por não ter provas e sem utilidade nenhuma para o processo, como revelaramCarta Capital e o Brasil de Fato. Para Elio Gaspari, a ação é uma confissão da falta de neutralidade de Moro. A ponto de o CNJ pedir explicações a Moro sobre seu comportamento. Do jornalista Kennedy Alencar: setores do MP e Judiciário jogam a favor do 17. Não satisfeito, o MPF fez sua boca de urna, pedindo a condenação de Lula nas investigações sobre o seu Instituto há quatro dias das eleições. Já Dias Toffoli, que prometia pacificar o STF, fez justamente ao contrário: fez vistas grossas para a gambiarra jurídica de Luiz Fux que anulou a decisão de Lewandowski de permitir entrevistas de Lula para diversos veículos. O Nexo elencou oito barbaridades jurídicas que Fux cometeu e a questão agora vai para o plenário, provavelmente só depois das eleições. Mas o mais impressionante e quase surreal é a história do juiz Luiz Rochas Cubas, que preparou um golpe para o próximo 7 de outubro: recolher com ajuda do Exército todas as urnas eletrônicas do país. Apoiador de Bolsonaro, o juiz ensaiou a jogada com um assessor do Major Olímpio. Na turma da farda, Bolsonaro já seria o predileto da maioria dos 17 generais do topo da hierarquia. O Clube Militar, que até setembro era presidido pelo General Mourão, divulgou um manifesto sobre as eleições. Vale ler no Boa Leitura sobre a Doutrina da Dependência. Em caso de vitória de Bolsonaro, sabemos que os militares terão peso num hipotético governo. E como irá se comportar a turma do Power Point? E em caso de derrota? Depois de quatro anos de militância, Moro irá se recolher? Os monstros voltarão para as casernas, digo, cavernas?

RETROCESSO DIÁRIO

Detox. Nos últimos dois anos, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil cortaram 21,2 mil trabalhadores do seu quadro de funcionários. No BB, a redução correspondeu a 10% do quadro de funcionários. No mesmo período, Caixa e BB pioraram no ranking de reclamações do Banco Central.

Intervenção. Roubos, invasões de casa, agressões físicas e até estupros estão entre as mais de 30 violações cometidas por soldados na intervenção militar no Rio de Janeiro. As denúncias foram registradas pela Ouvidoria Externa da Defensoria Pública do Rio, em 30 comunidades, durante cinco meses, e envolvem ainda o consumo de drogas pelos militares, torturas e abuso sexual.

VOCÊ VIU?

Cancelamento. Eleitores de municípios com menor IDH foram os mais atingidos pelo cancelamento dos títulos eleitorais. Mais de 1 milhão dos títulos cancelados foram em municípios pequenos com mais de 25% da população na linha de pobreza. Boa parte dos municípios também possuem em média um quinto da população na área rural. A apuração inédita da Agência Pública mostra também quais as condições econômicas e sociais nos três municípios com maior número de títulos cancelados.

Uma mão? Sabe onde vai dar o lucro das propostas de Bolsonaro para educação, energia, óleo e gás? Lá no “Posto Ipiranga”. O economista Paulo Guedes atua no fundo de investimento Bozano com negócios na área de educação a distância, área favorecida no programa de governo do deputado carioca; energia e óleo, que seriam privatizadas num hipotético governo. Os investimentos de Guedes que poderiam ser beneficiados por Bolsonaro foram elencados pelo UOL.

Décimo terceiroO general Mourão voltou a criticar o 13º salário. “Todos saímos prejudicados”.

Na prática. O tema de segurança que é caro para Bolsonaro na campanha não mereceu tanta atenção assim no seu mandato como deputado. Apenas 0,3% das emendas parlamentares do candidato foram para a área. E mais: apenas para a Guarda Municipal de Resende, reduto eleitoral do deputado, que recebeu 200 mil reais. Enquanto isso, para vermos que o apelo à segurança é apenas retórico e mobilizador: o Estatuto do Desarmamento, tão criticado por Bolsonaro, é o responsável pela diminuição da taxa de homicídios por ano.

A violência empoderada. Dois candidatos cariocas do PSL destruíram uma placa de rua em homenagem a Marielle Franco. A dupla ainda afirmou que a placa era “depredação de patrimônio público”. Em menos de 24 horas, uma campanha na internet já havia arrecadado 15 vezes o valor proposto para refazer as placas.

Não é bem assim. Citado por Dias Toffoli para justificar sua troca de “ditadura” por “movimento”, o historiador Daniel Aarão Reis diz que o ministro fez uma leitura enviesada de seus trabalhos: “Claro que houve um movimento. Mas isto não significa que este movimento não tenha protagonizado um golpe de Estado. Que um jurista não veja isto é uma aberração sem tamanho”. Mas o presidente do STF não se contém: na seção em homenagem aos 30 anos da Constituição, ele mandou: “nunca mais o fascismo e o nazismo, nunca mais o comunismo, nunca mais o racismo, nunca mais a discriminação”. Só o comunismo ainda não rolou no Brasil.

Os livros, sob ataque. Nem a tradicional coleção Vagalume de literatura infanto-juvenil escapou da caça às bruxas. O livro “Meninos sem pátria”, de Luiz Puntel, foi censurado em uma escola particular do Rio de Janeiro após denúncia de um pai bolsonarista. O texto indicado aqui, aliás, é o último de Mário Augusto Jakobskind escrito no Brasil de Fato. Enquanto isso, na UnB, sete livros sobre direitos humanos foram danificados na biblioteca da universidade.

O vídeo que merece ser compartilhado. Quando o óbvio precisa ser reafirmado, já que as pessoas parecem não se dar conta da gravidade das coisas. Boulos fez uma fala enfática e emocionada em defesa da democracia no debate da Globo. O vídeo já tem mais de um milhão de visualizações na página do candidato.

É BOATO

Antes tarde, mas talvez tarde. O fenômeno das notícias falsas - e das mentiras propriamente dita - é muito maior do que a campanha do PT pensava. Pelo menos é o que se depreende da criação tardia de uma central antiboatos, que recebeu mais de 15 mil denúncias em um dia. Segundo o Datafolha, 61% dos eleitores de Bolsonaro “se informam” por WhatsApp. O El País selecionou algumas das mentiras mais absurdas que circulam no zap. Nem as agências de fact-checking ou as seções de desmentidos dos grandes jornais têm conseguido dar conta do volume de boatos. Pelo menos está acontecendo uma reação, tanto das campanhas quanto de pessoas comuns, que estão tentando reagir à onda de mentiras na plataforma de mensagens.

BOA LEITURA

Laços internacionais. Para entender o quão pesado é o jogo que está sendo jogado. O Nexo fez um apanhado das conexões da candidatura Bolsonaro com nomes da extrema direita internacional, incluindo os contatos com Steve Bannon, chefe da campanha de Trump para presidente dos EUA e um dos ideólogos do movimento conservador americano. “Ainda que Bolsonaro seja um fenômeno tipicamente brasileiro, sua ascensão se dá em um contexto global de outros fenômenos similares”, afirma o pesquisador Carlos Gustavo Poggio.

Dar nome aos bois. A entrevista do filósofo de Yale Jason Stanley é sobre as características fascistas de Trump, mas ajuda muito a entender Bolsonaro. Reivindicações machistas, apelação ao nacionalismo e tentar dividir a nação são características do discurso fascista. Para o filósofo, o fascismo reforça valores do patriarcado e dominação em oposição aos valores democráticos da igualdade e da liberdade. Stanley também deu entrevista à Folha de S. Paulo. Já no Brasil de Fato, o cientista político Pedro Otoni relaciona a estratégia bolsonarista com a de outras campanhas no mundo, incluindo Trump: a ausência de um aprofundamento da democracia é o que melhor explica a ascensão de candidaturas chamadas “antissistêmicas”.

A césar o que é de césarBom artigo de Rui Tavares no português Público: os primeiros a serem responsabilizados pelo fascismo devem ser…os fascistas. O artigo parte da Europa, mas diz muito sobre a nossa situação por aqui. O historiador analisa que, em meio à crise sistêmica que vivemos, o egoísmo de que o mundo não deve ser para todos tem prevalecido.

DislikeO cientista político Miguel Lago avalia que Bolsonaro tem um comportamento de entretenimento e não de política na arena pública. Desta forma, a preferência por ele é um não-voto, um voto-brincadeira que, paradoxalmente, esvazia a institucionalidade. Quando a elite passa a desprezar o voto, é sinal de que a democracia corre perigo.

VingançaVale a ler a análise Marcos Nobre, na Piauí, descrevendo como o questionamento do resultado da eleição de 2014 deixou o terreno fértil para o crescimento de Bolsonaro. O discurso canalizou o ódio em vingança contra o sistema. Pura retórica ou vamos para o autogolpe mesmo? E parece que o seu eleitor não se importa, algo como “se a democracia acabar é porque ela já não era mais um caminho viável para a vida em comum, paciência”.

Subordinados. Segundo o professor Marco Aurélio Cabral Pinto, há uma nova doutrina em formação nas Forças Armadas. Generais como Mourão e Villas Boas acreditam que o Brasil é fraco para enfrentar ameaças internas e externas - em partes por conta da fraqueza de seu povo, formado por índios e negros - e, portanto, devem se subordinar a aliados mais fortes, como os EUA. Os militares aceitariam uma política econômica liberal e um protagonismo maior das armas na política, inclusive considerando a possibilidade de golpes militares.

Atentados de direita. Relatório do delegado Sidney Benedito de Alcântara, assistente do Dops, confirma que atentados ocorridos em 1968 foram iniciados pela direita e serviram como mote preparar o terreno para o AI-5 que completou a cassação dos direitos políticos e civis. A apuração é da Agência Pública.

Havan. Medo, coação e assédio. O cotidiano dos funcionários das lojas Havan desde que o seu proprietário Luciano Hang se envolveu pessoalmente na campanha de Bolsonaro.

Nação brasileira! A Vice entrou num dos grupos de zap do Cabo Daciolo. Descobriu um público que é contra a violência e exalta Deus, acha que Bolsonaro é o falso messias, defende a família tradicional mas com piedade?

Cinco liçõesO Instituto Humanitas traduziu artigo do argentino Pagina 12  com cinco lições do trabalhismo inglês que valem para as esquerdas argentina e brasileira: quanto maior o caos, mais radical devem ser as medidas; nacionalizar empresas privatizadas com participação dos trabalhadores; fomentar o crescimento com empresas locais e não multinacionais; valorizar o partido como instrumento político e construir unidade.

Oito Pontos.  Em artigo para o Brasil de Fato, Ronaldo Pagotto elenca oito pontos para tentarmos entender o que se passou nesta eleição. Do ceticismo com a política, o estímulo ao medo combinado com o privilégio no senso comum para explicar o mundo às controvérsias da polarização e o futuro da direita. Para ler e refletir.

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Edição: Diego Sartorato