SOLIDARIEDADE

As palavras de Aleida Guevara: o pai, a pátria grande e o cuidado comum entre o povos

Em entrevista, ela fala sobre a prisão de Lula, o orgulho de ser uma médica cubana e os caminhos da revolução cubana

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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"Em Cuba, nós não temos nenhuma mudança ideológica, somos um país socialista e seguiremos sendo um país socialista", afirma. / Foto: Comunicação MST

Uma das poucas lembranças que Aleida Guevara tem de seu pai, o Che, é a imagem do argentino jogando flores ao mar em memória de seu amigo, o revolucionário cubano Camilo Cienfuegos. Desde então, Aleida desdobra as lembranças do pai em uma vida de luta e cuidado com os povos do mundo. 

A médica pediatra, que já atendeu crianças de Cuba, Angola, Nicarágua e Equador, veio ao Brasil visitar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e participar de atividades junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. 

Em entrevista ao Brasil de Fato, feita pelo programa Democracia em Rede, transmitido pela Rádio Brasil de Fato e pelo Facebook, durante a visita de Aleida à vigília Lula Livre em Curitiba Guevara, ela fala sobre a prisão de Lula, que considera infundada; explica o legado de Che Guevara aos jovens e repreende aqueles que tatuam seu pai “porque a pele é a primeira defesa do corpo”, mas reconhece que quem quiser "pode tatuá-lo, mas o mais importante é tê-lo na cabeça e no coração, para agir"; explica como o bloqueio econômico dos EUA impede leite de chegar às crianças cubanas; discorre sobre a importância do internacionalismo e do respeito à vontade dos povos e analisa o novo momento de Cuba, sob a batuta de Miguel Díaz-Canel.

Confira:

Brasil de Fato – O que você sentiu ao chegar aqui na Superintendência da Polícia Federal [onde Lula é mantido preso]?

Aleida Guevara – Não tive que chegar aqui para sentir. Desde que soube da notícia, tive uma sensação de indignação, porque alguém pode cometer um erro, somos humanos, isso pode acontecer, mas para condenar uma pessoa, é preciso mostrar as provas e nunca chegou alguma prova contra Lula. Nesse sentido, não entendemos o que está acontecendo neste país, de verdade. Me dá uma sensação de impotência extraordinária, nem é preciso vir até aqui, todos em Cuba têm essa mesma sensação, de impotência, indignação, de não entendermos.

Esse tipo de situação é ruim para a democracia em nível mundial?

O problema também está nos conceitos que as pessoas tem sobre democracia. Democracia vem da palavra demos, que significa poder do povo. No entanto, o governo que está atualmente no poder nesse país, faz todo o contrário, atua contra tudo que é considerado como democracia. Além disso, democracia é um Estado de Leis, de legalidade para todo o povo em igualdade de condições e isso é democracia. E no momento em que levam uma pessoa presa sem demonstrar que é culpada, está dizendo que não existe democracia.

Qual sua leitura sobre o atual processo da revolução cubana, com afastamento dos irmãos Castro, novas lideranças surgindo. Como você vê isso dentro do contexto da América Latina, que vê um crescimento assustador de ideias fascistas após um período de governo progresistas?

Em Cuba, nós não temos nenhuma mudança ideológica, somos um país socialista e seguiremos sendo um país socialista, mas sem nenhuma mudança importante dentro do país. Teremos algumas modificações logísticas, em busca do desenvolvimento de um país que precisa crescer economicamente. Já tivemos a eleição do nosso novo presidente, Miguel Díaz-Canel, que é um homem relativamente jovem, mas muito fiel ao processo revolucionário, que desde jovem é dirigente do partido, que demonstrou seu valor, sua perseverança, e que está hoje como presidente trabalhando intensamente para ir superando coisas que precisamos superar. 

Por exemplo, temos problemas com moradia, com o transporte urbano, reformas de vias e estradas. Há muita coisa pra se fazer em Cuba, mas dentro do sistema socialista. Neste caso, estamos dando uma lição de democracia para o mundo, porque estamos mudando nossa Lei Magna, nossa Constituição, mas a Assembleia Nacional, que são nossos deputados, aprovaram um projeto e este projeto está sendo discutido por todo o povo, inclusive pelos estudantes, não só universitários, mas pré-universitários e do ensino médio básico.

Porque em Cuba os homens e mulheres maiores de 16 anos têm direito ao voto, então têm o direito também de ver como são as leis de seu país e a propor coisas. E são muito interessantes as propostas que estão fazendo para mudar a Constituição. Assim que agora, quando acabe a consulta, o Estado cubano tem que recolher todas as propostas e ver quais são massivas em relação à opinião do povo e mudar. Depois, a Assembleia Nacional terá que aprovar 

Claro, é preciso melhorar o socialismo todos os dias, é uma obra humana, não é perfeita. Todos os dias cometemos erros, mas esses erros são os únicos que podemos retificar, como povo. Nesse sentido, está a discussão que estamos realizando em todo o país, para ter uma Constituição melhor, para ter como primeiro parágrafo da Carta Magna do país, nossa sociedade socialista, essa é a primeira coisa. Depois, vamos fazer todas as demais mudanças que precisam ser feitas. Mas a primeira é que reconheçamos que nosso país é socialista.

Como os povos latino-americano pode vencer a ascensão da extrema direita no continente?

O poder do povo é extraordinário, mas é preciso se unir para mostrar esse poder. Os argentinos, por exemplo, derrubaram cinco presidentes por força popular. Não sei quanto durará [Mauricio] Macri no poder, porque o povo está mobilizado, muito reativo diante das coisas que estão acontecendo no país. No Equador, foi uma traição, porque se supunha que Lenin [Moreno, sucessor de Rafael Correa na presidência] era um homem dos nossos, e ele se transformou totalmente, foi uma coisa brutal. E aqui, no Brasil, é um golpe de Estado, sem dúvidas. Mas além disso, sem nenhum tipo de justificativa legal, violaram todas as leis do país e violaram a democracia. Os povos são os que têm a última palavra sempre e esperam que a tenham de volta em breve. 

Como é possível pensar no legado do Che e da Revolução Cubana para essa nova geração?

A primeira sugestão é ler ao Che, o que ele escreveu, e não o que as pessoas dizem que ele disse, mas o que ele escreveu. E o Che, desde os 17 anos, escrevia como ia vivendo as coisas que ia conhecendo. O primeiro, por exemplo, está em seu Diário de Viagem, que virou um filme de Walter Salles, Diários de motocicleta, um filme maravilhoso, para mim, o único filme sobre o meu pai que eu gosto. E Walter foi muito fiel a esse livro, a esse diário e mostrou que este homem jovem começa como qualquer um de nós, com as mesmas ambições, os mesmos desejos que pode ter qualquer um, quero ser médico, quero ser famoso, quero ser reconhecido internacionalmente, mas para quê? por quê? Para ter mais dinheiro, para ter mais poder ou para ser mais útil ao seu povo? Aí que está a diferença. E o Che nesse momento vai crescendo como ser humano e vai percebendo que, sim, há uma enfermidade muito grave que a maior parte do nosso povo sofre, que é a fome. E ele decide dedicar o resto da sua vida a resolver esse problema. Então ele está mostrando um caminho importante, sempre. Então se os jovens quando veem as coisas, podem dizer "eu não gosto disso", mas o que vão fazer para mudar isso? A questão não é não gostar de algo, a questão é que entenda que está mal feito e como resolvê-lo, buscar soluções. Eu sempre digo em Cuba que nós podemos criticar tudo, somos muito críticos, criticamos qualquer coisa, mas isso não é assim, o importante é buscar soluções, você critica e propõe uma solução, então te escutam, levam em conta.

Aos nossos jovens, sempre dizemos isso: digam soluções. Mas, primeiro, temos que praticar. Quando falo com os universitários, sempre lhes recomendo que olhem à sua volta,  porque quando chegam à universidade às vezes pensam que alcançaram a glória, que olhem para ver se sabem o nome da companheira que limpa o piso da sala de aula, se já ajudaram-na alguma vez, a carregar a água, se se preocuparam com isso. Isso é solidariedade e tem que começar desde o primeiro momento entre nós. São coisas que vamos semeando nas novas gerações e então é muito importante ler o Che, mantê-lo presente, sobretudo praticá-lo. Eu, por exemplo, quando vejo um jovem com a imagem do meu pai tatuada no peito ou no braço, primeiro reajo muito mal porque sou médica, e a pele é o primeiro órgão de defesa, em segundo lugar, digo, "pode tê-lo tatuado, mas o mais importante é tê-lo na cabeça e no coração, para agir com ele". Aí está algo que aprendi com uma mãe argentina que um dia resgatou os restos de seu filho desaparecido. Ela o enterra e escreve sobre seu túmulo algo que considerei fantástico. Ela diz: "se eu morrer, não chore por mim. Faça o que eu fazia, e seguirei vivendo em ti". Isso para mim é fantástico, para os homens e mulheres que tivemos em toda a nossa história e que fizeram a diferença, para mantê-los vivos, precisamos fazer o que eles faziam.

Você se lembra da sua relação como filha com o Che?

Eu tinha apenas 4 anos e meio quando meu pai desapareceu da minha vida e foi para o Congo. Depois ele volta para Cuba, mas ele pede para o Fidel que seja de forma clandestina, porque oficialmente ele já tinha se despedido do povo cubano, não queria voltar a passar por isso. Então seus filhos não podiam saber que ele estava lá, porque senão, no outro dia, poderíamos comentar na escola, no círculo infantil, então ele se preparou para ir para a Bolívia e fomos vê-lo, mas ele foi apresentado como um amigo do meu pai, essa foi a última noite que ele nos viu, depois ficamos sabendo que era o nosso pai. Mas as recordações que tenho, reuni em um pequeno vídeo, que se chama “Ausência Presente”, porque todo mundo me pergunta a mesma coisa. Então, de alguma maneira essas recordações vão perdendo sua magia. 

Mas há uma anedota muito linda para mim, porque demonstra o valor humano desse homem. Meu pai era muito amigo de Camilo Cienfuegos, o amava muito. E ele é um grande revolucionário, as pessoas sempre o viam atirando com suas armas, mas esse homem sabia amar, meu pai era um homem que sabia amar e ele demonstra de uma forma muito romântica. No dia 28 de outubro, quando Camilo desaparece fisicamente, todo o povo cubano vai lançar flores no mar. E fazemos isso sempre. Ele foi criador disso. Uma imagem que tenho dele é estar num carro com a minha mãe, meu pai e meu irmão Camilo, descemos no Malecón [Havana, Cuba] e joguei uma flor no mar por Camilo. É uma imagem muito linda para mim, porque fala dessa capacidade de amar um verdadeiro revolucionário.

Após a abertura de Barack Obama e o fechamento com Donald Trump, como Cuba está lidando neste momento com essa relação com os Estados Unidos?

Quando Obama abriu o jogo e quis ter melhores relações com Cuba, nós dissemos sim, não há problema, Quando tem respeito, pode se ter uma relação. Com este outro senhor, como você disse, é o contrário, ele foi ao extremo da direita brutal e tenta, de todos os medos, afundar a nossa revolução através do mesmo bloqueio econômico, reforçando-o muito mais.

Você pode explicar melhor o que significa essa questão do bloqueio econômico?

Muitas vezes as pessoas escutam bloqueio econômico e não sabem do que estão falando, para citar só um exemplo. Cuba não é produtora de leite, nós não temos vacas produtoras de leite, portanto, temos que comprar leite em pó para nossas crianças e idosos. Tivemos que ir comprar na Nova Zelândia. Se vocês colocam num mapa, onde está Cuba e onde está a Nova Zelândia, vê o espaço enorme que há entre os dois países, é preciso usar um barco para ir até lá. Bom, pela lei do bloqueio, um barco que atraque no porto de Cuba, não poderá voltar a  atracar no porto dos Estados Unidos por pelo menos seis meses. Isso significa que esse senhor, para quem vamos pagar para que busque o leite, precisará que paguemos três ou quatro vezes o que ele pediria normalmente, porque tem que cobrir seus custos, já que não pode comercializar com os Estados Unidos em seis meses. Isso é o bloqueio. É um desgaste econômico terrível para um país, mas sobretudo é um desgaste humano, porque o bloqueio diz respeito a alimentos e medicamentos. Nesse sentido, tem medicamentos que não podemos adquirir, ainda que uma criança ou adulto cubano possam perder a vida porque os EUA impedem que outras empresas o vendam. Essa é a realidade do bloqueio. 

Esse senhor que hoje está na presidência dos EUA tenta tornas mais cruel o bloqueio e tenta afetar mais duramente na questão financeira. Por exemplo, o Brasil, com a Dilma, foi à Cuba e fez um projeto em um porto, um grande projeto econômico que tivemos. Hoje, nós não poderíamos pagar para o Brasil esse investimento porque os EUA bloqueia todas as contas com as quais nós fazemos negócios. É muito difícil fazer negócios com Cuba desse jeito, porque como fazemos para chegar o dinheiro se os Estados Unidos começa a multar qualquer banco que tenha relação com Cuba. 

A direita brasileira ataca muito essa questão dos investimentos estrangeiros…

O mais lógico, o mais normal, é que os países desse continente tenham boas relações. Somos irmãos, você fala português e eu falo espanhol, mas somos muito parecidos, porque somos filhos de africanos e isso nos une. Por exemplo, quando você vai à Bahia, você está indo em Santiago de Cuba, é muito parecido. Quando você vai no Rio, com os cariocas, você percebe também que está com um havanero, porque somos muito parecidos, não são os espanhóis, não são os portugueses, são os negros, que são nossas raízes culturais. O mais lógico seria que os nossos povos todos tivessem um contato muito mais unido, que é o que nós tentamos fazer com a Alba (Alternativa Bolivariana para os Povos da Nossa América). Esse é o sonho latino-americano, nossos povos unidos, nosso povos fazendo comércio, resolvendo problemas, nos ajudando para crescer economicamente e também culturalmente.

Essa é a unidade latino-americana que nós precisamos. Agora, as burguesias nacionais sempre terão muito medo de qualquer relação com Cuba, porque significa, para eles, o fim da sua soberania, do seu governo, do seu poder sobre o povo. Nesse sentido, claro que têm medo, muito medo. Mas pense em uma coisa, apesar de toda a pressão, apesar de toda a propaganda contra nossos médicos, hoje há mais de 8 mil médicos cubanos trabalhando junto com o povo brasileiro. Temos que saber a opinião dessas pessoas sobre esses médicos, o que pensam, como elas se sentem. Eu escutei as pessoas brasileiras falando sobre esses médicos e não os cubanos. E na verdade me sinto muito orgulhosa de ser parte desse exército de jaleco branco, porque o que falam de nós é maravilhoso. 

 

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira