Democracia

Sérgio Mamberti: "Nunca poderemos descansar enquanto houver injustiça"

Ator e diretor brasileiro comenta o cenário atual e defende a centralidade da cultura para retomar a democracia

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Sérgio Mamberti, 79 anos, participou da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) / Foto: Divulgação/PT

O dia 7 de outubro, quando foi realizado o primeiro turno das eleições gerais de 2018, também foi marcado pelos seis meses de prisão política do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba (PR).

A democracia brasileira, já fragilizada pelos dois anos de retirada de direitos sociais com o governo golpista de Michel Temer (MDB), se vê na corda bamba entre um projeto popular e democrático com a candidatura de Fernando Haddad (PT), e o projeto conservador de extrema direita de Jair Bolsonaro (PSL).

Quem está atento a isso e tem se somado a diferentes mobilizações pelo país é o ator e diretor Sérgio Mamberti, lembrado pela memória afetiva de muitos como o feiticeiro Doutor Victor, do Castelo Rá-Tim-Bum, programa infantil da TV Cultura. Em entrevista concedida à Rádio Brasil de Fato, ele defende que a cultura deve ter centralidade em qualquer projeto que anseie retomar o Estado de direito e também comenta o significado de Lula para a história do Brasil.

“A cultura é fundamental para fazer com que a democracia floresça”, afirma. Para Mamberti, a saída é resistir.

Confira, a seguir, a entrevista:

Brasil de Fato – Ao longo destes dois anos de governo Temer, o Fundo Nacional de Cultura já teve 43% de seu orçamento enxugado. Mais recentemente, em agosto, foi publicada a Medida Provisória 841, que reduz novamente a verba do Fundo, desta vez para repassá-la à segurança pública. Qual a situação do fomento à cultura hoje no país?

Sérgio Mamberti – Isso foi apenas mais um dos golpes que a cultura sofreu desde o início dessa tomada do poder extremamente ilegítima e grave depois de todas as conquistas que nós tivemos no sentido da redemocratização do nosso país.

Certamente, a cultura foi ameaçada desde o primeiro momento, com a extinção do próprio Ministério da Cultura por duas vezes. Na primeira, chegou a ser extinto e reabilitado, mas já fragilizado de uma tal forma que foi precarizado o seu orçamento e com ministros que não tinham a menor representatividade.

O fomento à cultura está absolutamente precarizado em todos os níveis. O Ministério está sem legitimidade e, certamente, em um governo que realmente retome o Estado de direito, a cultura, na minha opinião, tem que ocupar uma centralidade, porque sabemos que cultura é resistência, é identidade.

É através do processo cultural que a gente constrói o processo democrático, a cultura é fundamental para fazer com que a democracia floresça. Na medida em que nós não temos uma comunicação democrática – o que também faz parte de qualquer governo que assuma o poder com a bandeira de redemocratização do país - vamos ter que falar muito seriamente de comunicação.

Falamos muito de cultura, de educação, mas a comunicação também é absolutamente estratégica, não à toa o Ministério da Cultura da França é da Cultura e da Informação.

Mas a cultura tem esse caráter de resistência desde sempre. Estamos resistindo bravamente, erguendo a nossa voz em favor do estado de direito, por Lula Livre, por eleições democríticas e, no momento, Haddad é o nosso foco. Estamos tentando recuperar através do voto aquilo que nos foi tirado de uma forma tão traiçoeira.

O senhor esteve presente no processo de fundação do Partido dos Trabalhadores. Como já disse em outra oportunidade, o PT nasce, na década de 1980, com uma união entre artistas, intelectuais e operários. Hoje o senhor tem participado de diferentes manifestações públicas promovidas pelo PT no país. Como enxerga a importância de a classe artística estar mobilizada? 

Mais importante do que nunca. Até mesmo a nossa regulamentação, que foi conseguida a duras penas em 1979, e que alicerça inclusive a Lei de Direito Autoral, a ministra Carmen Lúcia é relatora de um projeto que tenta desregulamentar a profissão. A gente só pode fazer com que a cultura floresça dentro de um regime que respeite o Estado de direito. 

Isso também tem ajudado a conscientizar muitos artistas, que talvez estivessem um pouco hesitantes, pelo fato até de cansarem um pouco pensando 'as conquistas estão aí, então agora é tocar o barco', e não queriam estar muito presentes nas reivindicações e mobilizações democráticas. 

Como tem visto a corrida eleitoral e a prisão política do ex-presidente Lula, que já ultrapassa seus seis meses?

Tem muita demonização do processo político, dizendo que a política é um espaço de corrupção, de tramoias. Eu vi esses dias uma declaração do papa indo exatamente na direção contrária, ele dizia que a política tem uma dimensão maior e que a gente não pode se eximir de participar politicamente. Foi linda a manifestação.

A gente está nessa luta, que é difícil, não se sabe exatamente o que corre atrás do plano. Temos visto um crescimento grande da candidatura Haddad apesar do nosso grande líder estar preso injustamente, e acho que também é uma missão nossa, temos que lutar pela liberdade dele porque ele é inocente.

E acho que isso também faz parte da preocupação dos artistas, porque uma liderança como ele não pode estar contingenciada a ponto de não poder nem dar entrevista.

Qual o significado do ex-presidente Lula para o Brasil?

Cada vez mais Lula se consagra talvez como o maior líder ocidental em defesa dos princípios democráticos. Mundialmente, o Lula é reconhecido hoje como um homem que representa o que Mandela representou no século passado, e não estou fazendo nenhum tipo de opinião pessoal.

Esse obscurantismo que nós estamos vivendo aqui hoje também se traduz em termos e forças internacionais, muito poderosas no sentido de manutenção de privilégios. Só me lembro de um embate como esses. Quando eu era pequeno, nasci em 1939, no meio da luta contra o nazismo e o que ele significava, e como meus pais, que eram pessoas esclarecidas, conversavam e também nos contavam dizendo que se nós não derrotássemos Hitler, a gente teria um mundo no qual não se poderia prever as consequências do que aconteceria.

Todo esse esforço e preocupação de que essas forças que estavam ali lutando na Europa no sentido desse domínio do fascismo e de ideias totalitárias onde a representação popular praticamente não existem fossem derrotadas. Nós não podemos esmorecer em nenhum momento, porque a luta para a manutenção do estado democrático é permanente da sociedade e da civilização.

Nunca poderemos descansar enquanto houver injustiça. Acho que é isso que nos alimenta e faz com que a gente tenha essa reação diante de tanto desmando, e o Lula é símbolo dessa resistência.

Edição: Diego Sartorato