Solidariedade

Deputados do Parlamento Europeu se posicionam contra Bolsonaro

Manifestações internacionais pretendem denunciar risco do discurso de ódio para a democracia no Brasil

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |
Eurodeputados participam de evento que lançou manifesto contra Bolsonaro no Parlamento Europeu
Eurodeputados participam de evento que lançou manifesto contra Bolsonaro no Parlamento Europeu - Divulgação - Unpo

Um grupo de deputados do Parlamento Europeu está recolhendo assinaturas contra a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL), candidato à presidência da República no Brasil. A manifestação reforça uma série de posicionamentos de artistas e lideranças políticas internacionais que identificam uma possível vitória do candidato de extrema direita como ameaça à democracia — e não só para o Brasil.

O Parlamento Europeu é uma das três principais instituições da União Europeia e constitui o segundo maior eleitorado democrático do mundo.

O manifesto contra a eleição do candidato do PSL começou a circular nesta terça-feira (16) e é uma iniciativa da bancada de eurodeputados socialistas, ambientalistas e de partidos de esquerda. A Organização das Nações e Povos Não Representados (Unpo) também apoia o manifesto.

"Dentro de dias, realiza-se no Brasil o segundo turno das eleições presidenciais, em que se apresenta um candidato, Jair Bolsonaro, que promove o elogio da tortura e da ditadura, que propõe a discriminação das mulheres e o desprezo pelos pobres, representando assim uma cultura do ódio e um risco à democracia do país", afirmam os eurodeputados na carta.

O deputado espanhol Txema Guijarro, do partido Podemos, explicou que as manifestações pretendem denunciar à comunidade internacional o risco que as declarações do candidato de extrema direita representam. Para ele, Bolsonaro é "um tipo declaradamente perigoso". 

"Estamos todos absolutamente escandalizados e muito preocupados com a possibilidade que, efetivamente, esse senhor chegue a Brasília. A possibilidade de Bolsonaro chegar ao poder pode trazer retrocessos em direitos duramente conquistados ao longo da história brasileira. Um retrocesso rápido e terrível", pontuou. 

Guijarro disse ainda que a manifestação não se trata de uma ingerência em assuntos internos do Brasil. Essa tem sido uma crítica constante dos apoiadores de Bolsonaro a declarações estrangeiras. "Se nos alertam a possibilidade de que Bolsonaro alcance um posto tão relevante na política mundial, vamos alertar. E vamos nos amparar na liberdade de expressão."

Mais críticas

Além de artistas como os cantores Roger Waters e Madonna, lideranças políticas como ex-primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero e o senador estadounidense Bernie Sanders também se posicionaram contra o candidato de extrema direita. 

Sanders afirmou, na semana passada, que Bolsonaro explora o medo e o sofrimento das pessoas "para ganhar e manter o poder". O político coloca Bolsonaro dentro do "eixo autoritário" em que também está o presidente republicano dos EUA, Donald Trump.

O deputado espanhol também relacionou a ascensão do "bolsonarismo" a uma onda conservadora em todo o mundo. "A referência é Donald Trump. Esse fenômeno já se reproduziu em outras partes, e o que acontece no Brasil também parece que está muito relacionado a isso", disse Guijarro. "Eu diria que isso está ligado com o populismo de direita, que, no fundo, apela para um falso discurso anti-establishment quando, na verdade, são a primeira linha de defesa do próprio [sistema]". 

Perigo regional

Na América Latina, o presidente da Bolívia, Evo Morales já demonstrou apoio ao candidato do PT, Fernando Haddad. No primeiro turno, o presidente boliviano afirmou que o povo brasileiro "triunfará frente às oligarquias". Morales afirmou que um possível governo de Bolsonaro mudaria radicalmente a relação entre os países. 

A economista do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (PACS), Sandra Quintela, explica que a vitória de Bolsonaro seria o fim das alianças estratégicas na região, como a  União das Nações Sul-Americanas (Unasul). A organização é formada por Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia, Chile, Equador, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.

"Não há nenhum aceno, pelo contrário, de qualquer articulação a nível regional. O Mercosul e a Unasul morrem porque essa política não interessa ele. E muito menos com países da Ásia e da África", avalia.

Quintela afirma que o país corre risco de isolar internacionalmente e vê perigo no estabelecimento, como prioridade, de uma aliança estratégica com os EUA e Israel e no possível afastamento do país dos BRICs. 

Nesse sentido, a economista identifica um quadro grave também para a segurança nacional do Brasil. "Para se ter um país soberano, tem que haver autonomia na política externa e se articular com quem você acha que seja mais pertinente ou interessante para aquele momento. Você tem que ampliar as parcerias, não só do ponto de vista comercial, mas das agendas contra-hegemônicas e multilaterais".

Para Quintela, a política externa de Bolsonaro seria caracterizada pelo retrocesso, a caminho do que um dia foi o "Brasil colônia".

O candidato do PSL acenou, como Donald Trump, que pretende deixar, por exemplo, o Conselho de Direitos Humanos da ONU. 

Edição: Daniel Giovanaz