ELEIÇÕES

"Bolsonaro representa as oligarquias", alertam lideranças do semiárido

Ato Semiárido pela Democracia reuniu cerca de 30 mil pessoas de vários estados do Nordeste

Brasil de Fato | Petrolina (PE)

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Manifestantes demonstrararam apoio a Haddad, que em contraposição a Bolsonaro (PSL), defende a manutenção das políticas de convivência. / Vinícius Sobreira

Na tarde deste sábado (20) as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia, sediaram o ato Semiárido pela Democracia, que atraiu 30 mil pessoas dos estados de Alagoas, Ceará e Sergipe, além de Pernambuco e Bahia. As lideranças reafirmaram a importância de retomada e aprofundamento das políticas de desenvolvimento rural voltadas para a região, que possibilitaram mudanças que se refletem nos índices sociais dos estados do Nordeste.

Para Marta Rodrigues, natural de Santa Maria da Boa Vista, sertão de Pernambuco, a decisão do voto nesse segundo turno é fácil para a maior parte da população do agreste e sertão nordestinos. "O projeto representado por Haddad é de avanço nos direitos para a população do campo. E este ato mostra isso, a nossa unidade e força para defender nossa democracia". Em contraponto, diz Marta, "Bolsonaro representa um projeto sombrio, que vem instigando a violência contra mulheres, comunidade LGBT e contra os movimentos populares".

Para ela, o ex-capitão é a continuidade do projeto de Temer. "Ele ameaça a nossa soberania, quer privatizar as estatais, destruir a Amazônia e deixar nossos rios nas mãos de empresas". Militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Rodrigues alerta que o ministro da Fazenda, caso Bolsonaro seja eleito, é Paulo Guedes, que já explicitou a intenção de "privatizar tudo". "Se a Eletrobras e a Chesf forem privatizadas, as empresas terão controle sobre o rio São Francisco. Querem vender a soberania do Brasil", alerta Marta.

O agricultor familiar Carlos Veras, natural de Tabira, no sertão do estado, resume que "Haddad representa a volta do povo ao orçamento da União". Ele, que é presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT Pernambuco) e acaba de ser eleito deputado federal, lembra que só a partir do gestão do Partido dos Trabalhadores (PT) na Presidência da República, o povo do semiárido conseguiu se afastar dos estigmas que afligiam a região. "Só paramos de ver nossos familiares morrerem de fome, só acabaram aqueles 'enterros de anjinhos', só do governo Lula para cá. Antes só recebíamos uma cesta básica com feijão duro e arroz com casca", lembra.

Ele elenca políticas como cisternas, o Programa Nacional de Assistência à Agricultura Familiar (Pronaf), crédito, assistência técnica, aumento real do salário mínimo, o acesso à aposentadoria rural e salário maternidade, que se refletiram em melhorias na vida do povo e na volta ao Nordeste de muitos trabalhadores que haviam ido buscar trabalho no Sudeste. "Haddad representa o projeto de inclusão social", diz Veras. para ele, Bolsonaro representa "a destruição do Brasil e a venda do país ao capital estrangeiro. "Ele bate continência para a bandeira dos Estados Unidos, não tem compromisso com o povo brasileiro. Não tem credibilidade alguma", diz Carlos Veras.

Ele conta ainda que Bolsonaro votou a favor da reforma trabalhista e apoia a proposta de reforma trabalhista rural que tramita na Câmara Federal. "É uma proposta que autoriza patrões a não pagarem salário aos trabalhadores, mas dar moradia e comida. É a volta à escravidão", alerta Veras. Carlos Veras também destacou o papel de Fernando Haddad como ministro da Educação para a interiorização da educação superior. Só na região do semiárido nordestino foram do Cariri (UFCA-CE); Rural do Semiárido (UFERSA-RN); do Vale do São Francisco (Univasf-PE, PI e BA); do Recôncavo Baiano (UFRB-BA); da Integração Luso-Afro-Brasileira (Unilab-BA); do Oeste da Bahia (UFOB-BA); do Sul da Bahia (UFSB-BA); e mais algumas dezenas de campi de Institutos Federais de ensino médio, técnico e superior.

Na última semana o candidato Jair Bolsonaro (PSL) usou a propaganda de televisão para tentar dialogar com a população do Nordeste,  afirmando que o Nordeste precisaria "ganhar mais dinheiro dos gringos" com o turismo no litoral e transformar o semiárido a partir de tecnologias importadas de Israel. Carlos Veras afirma que o que precisa ser feito é "reforçar as tecnologias que já existem no Nordeste" e emenda. "Há alguns meses ele estava oferecendo capim para o eleitor de Lula e para nordestinos. É essa a tecnologia que ele quer trazer para cá?", questiona. 

Cícera Nunes, natural de Serra Talhada, também no sertão pernambucano, afirma que a proposta de transformar o semiárido em Israel é "fantasiosa". "É uma proposta de quem não conhece a realidade da região, que precisa ser respeitada. Já temos várias tecnologias, mas ele desconhece", diz Cícera. Ela, que também é liderança sindical rural e preside a Federação dos Trabalhadores da Agricultura de Pernambuco (Fetape), diz ainda que o ex-militar representa o projeto "das oligarquias do capital, que quer voltar a escravizar e explorar o povo humilde do semiárido". Para ela, Haddad representa "o projeto que já fez o semiárido crescer e o povo melhorar de vida".

Naidson Baptista, da Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), defendeu a autoestima e o respeito ao povo do Nordeste, em especial da região semiárida. "O semiárido é​ cheio de lutadores e lutadoras. Somos um povo inteligente. Tanto quiseram acabar conosco, mas até hoje não conseguiram. Temos que dizer a essas figuras que estamos vivos e continuaremos mais vivos ainda, sem agredir ninguém, mas caminhando, dançando, cantando como sabemos fazer", disse Baptista. "Somos bonitos e somos inteligentes, temos nossa música, nossa dança, festa, nossas comidas gostosas", avalia.

Naidson critica ainda a atitude dos manifestantes pró-Bolsonaro que recentemente ofereceram capim aos eleitores do PT. "Queremos o direito de escolher nossos dirigentes e presidentes em liberdade, sem sermos ameaçados e xingados. Queremos a paz". E afirma o que o povo do semiárido quer para o Brasil. "Vamos dizer a todos que queremos um país com terra, água e alimento para todo mundo, com escolas para todas as crianças, um país sem trabalho infantil e sem trabalho escravo, um Brasil em que as domésticas tenham seus direitos respeitados. Queremos um Brasil em que nosso modo de viver seja respeitado".

 

Edição: Vanessa Gonzaga