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Balada para os que vão saber tarde demais

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"Tem gente cega, surda e muda diante do sangue nas calçadas" / Reprodução
Tem gente em cima do muro em uma terra onde não mais existem muros

Tem gente que acha que, cerrando os olhos, tapando os ouvidos e fechando a boca, sairá ilesa do que se aproxima. 

Tem gente calculando o melhor momento para dizer alguma coisa capaz de expressar seu desconforto. “Será de bom tom diante das circunstâncias”, entendem. Mas deve ser algo cauteloso para não exceder certos limites de civilidade. ”Podemos ser mal interpretados”, receiam.

Tem gente fazendo olho branco para a maré de ódio que avança contra sua praia supostamente segura.

Tem gente cega, surda e muda diante do sangue nas calçadas.  

Tem gente interpretando violência gravada no corpo alheio a canivete como exaltação à paz.

Tem gente achando engraçado converter indicadores em canos de revólver e dar tiros, por enquanto imaginários, para matar, por enquanto imaginariamente, todos os outros. Aqueles que são outros por opinião, origem, cor, raça, partido, religião ou predileção sexual. 

Tem gente que não se espanta com um personagem que promete assassinar, pelo menos, 30 mil homens e mulheres. “É só o jeito dele se expressar”, riem. 

Tem gente achando que todo o horror explicitado e prometido e reiterado é apenas o verbo inofensivo e vulgar de um palhaço. 

Tem gente achando de bom tom continuar regando as flores pálidas e medrosas do seu jardim embora já ouça o fragor da luta.

Tem gente de notável saber jurídico afundada no medo e no silêncio à espera da chegada do cabo e do soldado.

Tem gente encarapitada no muro em uma terra onde não mais existem muros.

Tem gente, enquanto sobem as labaredas, dedicando-se à aritmética dos ganhos possíveis com o caos.

Tem gente que sobe no seu balão mágico e parte para terras distantes. De onde retornará, dentro de alguns anos, segundo o roteiro de sua fábula, como o cavaleiro da armadura brilhante que salvará a pátria mãe gentil.

Tem gente sinceramente iludida e tem gente se fazendo de boba.

Tem gente achando que, na hora do tiro, a morte será sempre do outro, do invisível, do desconhecido, do sei lá quem, daquele que não interessa saber. 

Tem gente que está perdida e não sabe.

Tem gente que dirá “Eu não sabia” mas saberá disso tarde demais.   

*Ayrton Centeno é jornalista. Trabalhou, entre outros, em veículos como Estadão, Veja, Jornal da Tarde e Agência Estado. Documentarista da questão da terra, autor de livros, entre os quais "Os Vencedores" (Geração Editorial, 2014) e “O Pais da Suruba” (Libretos, 2017).

Edição: Daniela Stefano