Entrevista

Ex-presidente do PT, Rui Falcão defende frente ampla pela democracia após eleições

Deputado mais votado pelo partido em São Paulo defende unidade pela democracia, qualquer que seja o resultado das urnas

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Falcão (esq.) posou ao lado da presidenta nacional do partido, Gleisi Hoffmann, após visita a Lula / Juca Varella

Ex-presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Rui Falcão, que acaba de ser eleito como o deputado federal mais votado do partido, no estado de São Paulo. O desafio, agora como parlamentar, segundo Falcão, é construir o PT desde a base, “colocar os pés próximos aos do povo” e “aprofundar a democracia” no Brasil.

“Cada vez mais, nós temos que ter a dimensão de uma frente democrática popular. Porque o período para realizar mudanças e impedir o retrocesso vai exigir forças maiores do que as forças do PT”, afirma. 

Nesta quinta (26), Falcão visitou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. Após a visita, ele participou do programa Democracia em Rede, transmitido pela Rádio Brasil de Fato.

Na entrevista, Falcão falou sobre os desafios que a esquerda brasileira deve enfrentar no futuro, independente do resultado das eleições 2018; comenta sobre a ligação da candidatura de Jair Bolsonaro a um projeto ultra conservador, de retirada de direitos e ataque à soberania nacional; e fala sobre a importância da continuidade de denúncia da prisão política do ex-presidente Lula. 

Brasil de Fato: Qual foi sua impressão da visita ao ex-presidente, como ele está, que debates vocês pautaram ali?

Rui Falcão: Como sempre, muito otimista. Mesmo com todos os percalços que a gente tem  enfrentado, essa campanha odiosa feita pelo candidato que defende a tortura, ele continua confiante de que nós podemos virar a eleição, valoriza muito a nossa militância. 

Ele fala assim: “não tem nenhum partido democrático no mundo que se aproxime do que é o PT”. Eu, pessoalmente, acho isso. Conseguimos chegar ao segundo turno, temos chances de ganhar a eleição, reelegemos alguns governadores, estamos disputando o segundo turno no Rio Grande do Norte, em Sergipe (em aliança, como vice), elegemos o candidato do PSB em Pernambuco, na Paraíba, o candidato do PCdoB lá no Maranhão. Então, a esquerda sobreviveu bem e nós elegemos a maior bancada de deputados federais. Realmente, é um partido que vai continuar vivendo bem, está próximo do povo, dá sua contribuição para o país, enquanto partidos tradicionais, como MDB, DEM, PSDB foram quase varridos do mapa. 

Já são mais de 200 dias de uma prisão considerada, pelos movimentos populares, como uma prisão política. Isso tem que continuar sendo denunciado nas instâncias nacionais e internacionais? 

Ele continua dizendo o seguinte: “eu quero que achem uma prova, eu quero que julguem o mérito do processo, que não tem como me condenar”. Nós dissemos a ele que, se isso não ocorrer logo após a eleição, tem que dar continuidade a uma campanha nacional e internacional pelo Lula Livre. É preciso que as instâncias superiores e a justiça se deem conta que é uma arbitrariedade manter o presidente Lula prisioneiro, sem crimes, sem provas. 

Essa campanha é necessária e urgente e ela tem ressonância mundial, porque você que até o comitê de Direitos Humanos da ONU determinou  que o Brasil garantisse o direito à candidatura de Lula. 

Esse é um dos aspectos também que marcam negativamente a campanha eleitoral. Uma campanha marcada pela interdição de alguém que ganharia a eleição no primeiro turno e que foi maculada, agora, pelo caixa-dois, pela difusão de notícias falsas. 

Há um componente, nas eleições atuais, que é justamente a intervenção estrangeira e o uso das redes sociais para disseminação de fake news. É uma dinâmica nova, que a esquerda ainda precisa entender nesse debate da mídia?

Você fala em debate, mas, na verdade, o outro candidato não foi a nenhum debate. Você falou corretamente, mas eu tenho que ressaltar que no debate político, o candidato da tortura foge, ele é covarde. 

Mas nessa questão dos meios de comunicação, para além da defesa da democratização dos meios de comunicação, tem agora essa influência externa das redes, dos grupos internacionais, das notícias falsas. Nós precisamos dar conta dessa nova realidade, como atuar nela e como estabelecer mecanismos de controle democrático que não permita que uma eleição seja decidida enganando o povo. 

O Bolsonaro entrou no segundo turno com uma margem de crescimento, mas agora, nessa reta final, a gente tem visto a distância diminuir. Como você avalia essa nova tendência?

Tem o crescimento da nossa campanha, o fato de o programa de TV e o discurso do nosso candidato ter mostrado quem é, realmente, Bolsonaro, o contraste entre o que ele fala e o que ele já fez. Tem o descontrole da própria campanha [de Bolsonaro], em que um fala que vai acabar com o 13º, o outro fala que vai dar 13º e Bolsa Família, o filho que fala que vai mandar fechar o STF com um cabo e um soldado, ele que, no domingo, através de gravação, ecoa para a Avenida Paulista, em São Paulo, que quem for adversário ou vai para cadeia ou vai para exílio. Tudo isso assusta um pouco a população. 

E a conjugação da nossa luta em defesa da democracia e de propostas concretas, como manter o gás de cozinha a R$ 49, aumentar o Bolsa Família em 20%, dizer que o salário mínimo vai subir acima da inflação, inclusive para os aposentados, garantir que nós vamos limpar o nome das pessoas dando crédito para que elas possam voltar a comprar a crédito, como a proposta de isentar do imposto de renda quem ganha até cinco salários mínimos. Enquanto o Bolsonaro fala isso, mas ao mesmo tempo promete criar um imposto mínimo de 20%, que significa diminuir o imposto dos ricos e aumentar o imposto da classe média. 

Tudo isso, acho que leva setores crescentes da população a refletirem melhor, alguns que pretendiam anular o voto a mudar de opinião e, com isso, estão tirando voto dele. 

[Também] a adesão de pessoas que não são do PT, o apoio da Marina, o apoio do Boulos, vários políticos de outros partidos também apoiando. Embora não tenha se constituído uma frente ampla, democrática e popular em defesa da candidatura do Haddad, formalmente, mas várias lideranças que não são do PT estão apoiando. E a adesão de intelectuais, artistas, juristas, coisa que a gente não via desde 1989. Isso é um fenômeno importante e que deve ser mantido, essa unidade, essa defesa da democracia, seja qual for o resultado de domingo. 

Parece que há dois eixos importantes, um que toca nas condições de vida da população e outro sobre os riscos do próprio jogo democrático, das instituições. É esse o desafio?

Desafio da defesa da democracia e das condições de vida da população, defesa dos direitos sociais, políticos, civis, que começaram a ser removidos pelo governo Temer, que, aliás, tem uma identificação muito grande com o projeto do Bolsonaro e o que ele promete fazer de cancelamento de mais direitos. Eu acho que esses dois eixos são muito fortes na campanha e devem pautar a nossa atuação, seja no governo, para realizar esse desejo da população de melhores serviços públicos, mais segurança, mais direitos, e aprofundar a democracia no Brasil. 

Como você dimensiona a ameaça Bolsonaro no plano internacional? Porque parece uma candidatura autoritária na política e ultra-neoliberal na economia. 

Em vários países essa tendência tem se manifestado com muita intensidade. Isso se deve aos desdobramentos do desenvolvimento capitalista no mundo, à globalização, ao neoliberalismo que não é só uma questão econômica, mas também uma espécie de nova razão do mundo, que estimula o individualismo, o egoísmo social, o combate às formas de associação, a negação da política. Tudo isso para garantir uma reprodução insaciável do capitalismo, sem que haja necessidade da utilização da força material ou militar, como já foi em outras ocasiões. 

Hoje se tem, no Brasil, uma espécie de outro grupo dominante, formado por grandes capitalistas, setores crescentes do judiciário com a tutela do estamento militar. Isso explica que a presidenta do TSE dê entrevista rodeada pelo ministro da segurança pública, pelo general que comanda o GSI (Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República), que o presidente do Supremo Tribunal Federal leve para chefia de seu gabinete um general. Enfim, é uma tendência que nos preocupa, que deve ser contestada defendendo a democracia, contra essa tentativa de substituir a soberania popular por um outro tipo de decisão política que escapa aos partidos e ao povo. 

No ato do Rio de Janeiro, na terça (23), houve um episódio interessante, que foi a fala do Mano Brown sobre a necessidade de retomar o vínculo com os trabalhadores da periferia. Isso coloca desafios para o próximo período?

O que o Mano Brown disse, eu diria até com mais amplitude. Não se trata simplesmente de estar mais perto do povo, porque eu acho que, em certo sentido, nós estamos. Se trata de tomar a política no cotidiano e não a política apenas nos períodos eleitorais. É uma coisa que nós deixamos de fazer e estamos tentando retomar. Temos que estar presente na luta dos bairros, nas igrejas, lado a lado a cada reivindicação concreta da população, dando orientação política, remetendo ao Estado, fazendo com que cada conquista não seja vista como uma doação.

Você veja que contradição, hoje, uma pessoa beneficiada pelo ProUni ser contra o Bolsa Família. Nós temos que criar formas de organização popular, não necessariamente partidária, em que as pessoas se sintam responsáveis por aquela conquista e que não fiquem submetidas por uma troca de governo. Tudo que foi conquistado no passado é rotinizado e, portanto, como não há uma defesa pelos próprios beneficiados, qualquer um pode tirar depois. É o que pode ocorrer agora. Nós passamos 12 anos no governo e muitas das conquistas que foram obtidas através de políticas públicas foram rotinizadas e o nosso legado, de repente, pode ser apagado por um capitão que foi expulso do exército. Então, a ideia de comitês, de reeditar as conferências públicas municipais, estaduais, de reavivar a história dos orçamentos participativos nas prefeituras para que o povo possa entender o jogo das prioridades, tudo isso que nós já fizemos e foram um pouco abandonados. A luta sindical precisa reavivar, a volta ao chão da fábrica, o partido precisa de auto sustentação. Enfim, tem um longo caminho pela frente.

É aí que o Bolsonaro consegue se pautar com a população, aproveitando essa naturalização dos programas sociais?

Eu fiz muita campanha na periferia de São Paulo e vi também como a população aprende com sua própria vida. O Dória ganhou a eleição de São Paulo no primeiro turno. O fato de ele ter removido várias conquistas da população e ter aparecido como mentiroso, tem um sentimento dúbio. Ele prometeu que ia ficar os quatro anos e não ficou, a população se ressente mas também festeja, porque, se ele tivesse ficado os quatro anos, o desastre seria maior. 

O que acontece agora: a virada na capital [de SP] é, em grande medida também, fruto do que foi o Dória. Os que votaram nele estão votando conosco agora, é a população pensando na própria vida. 

Então, a associação dele com o Bolsonaro agora, fez o Bolsonaro perder pontos, pelo menos na capital. 

Você foi eleito agora deputado federal com mais de 158 mil votos. O perfil do nosso congresso não mudou muito na tendência que já vinha sendo apontada de um conservadorismo. Quais são os desafios?

Primeiro, nós temos que impedir a Reforma da Previdência, que está tramitando. Se não votar agora, vai ficar para nossa legislatura, então, nós vamos ter que barrar essa reforma. Impedir a revogação de direitos, lutar contra as privatizações. Essa é a pauta, digamos assim, em caso de vitória do Bolsonaro. E mesmo de derrota do Bolsonaro, com um Congresso majoritariamente conservador. A questão do estatuto do desarmamento, a redução da maioridade penal, toda essa temática, nós vamos ter que debater com a sociedade. Como deputado petista, nós temos uma tarefa também de construir o PT, de ter essa inserção mais próxima da população. Acho que esses dois desafios: uma ação parlamentar muito aguerrida e um pé muito próximo à população, seja para defendê-la, para ajudar a organizar e para fazer o PT mais forte, num período em que querem destruí-lo.

Na sua avaliação, qual é a dimensão política de Lula hoje?

Ele tem a dimensão de um líder mundial. Não é só o PT que o tem nessa condição. No mundo todo se solidarizaram em relação à condenação injusta que ele sofreu e defendendo seu direito de ser candidato. Então, eu acho que ele já ganhou uma dimensão semelhante ao que teve Mandela, seja no que ele fez pelo povo brasileiro, na história de vida dele. Eu acho que no aniversário [dia 27] nós temos que relembrar essas questões, homenageá-lo e acho que ele vai ter muito carinho, embora indiretamente. Ele não pode receber visita no sábado, mas ele sabe que no país inteiro, estaremos celebrando esse aniversário e lutando para que no próximo ele esteja livre.

É uma contradição nesse momento haver um esforço da mídia, dos partidos afeitos ao golpe de Estado no Brasil, de silenciamento da situação do Lula? 

Com certeza. É contraditório também, porque você vê esse silêncio, essa espécie de mudez aí da mídia e ela começa a ser atacada agora. O Bolsonaro, no domingo, falou "um país sem Folha de S. Paulo". Ele estava se referindo à Folha por causa da matéria em que denuncia seu caixa-dois e a veiculação de centenas de milhões de disparos de fake news. Mas também ele já se referiu a outros veículos em outras ocasiões, já atacou a Rede Globo. 

Então, eu acho que a mídia, inclusive a mídia que é concessão de serviços públicos, deveria ter uma cobertura mais isenta. Um grande setor da mídia é partidarizado, distorce informação, omite informação, mente, por isso que a gente insiste tanto de que é necessário ter uma democratização da mídia, pluralidade nos veículos de comunicação. Daí a importância de veículos que fazem um jornalismo independente, crítico e que deveria ser a tônica da comunicação do país. Esse é um dos pontos que eu quero batalhar muito no Congresso Nacional.

Quais são os desafios para o futuro da esquerda?

Acho que, cada vez mais, nós temos que ter a dimensão de frente, uma frente democrática popular. Ver experiências como da Frente Ampla no Uruguai, porque o período para realizar mudanças e impedir o retrocesso vai exigir forças maiores do que as forças do PT. Então, os movimentos sociais, a Frente Povo sem Medo, a Frente Brasil Popular, partidos como PCdoB, PSOL, setores de outros partidos que têm uma postura democrática também precisam se consorciar, mantendo suas identidades, mas dentro de um guarda-chuva maior, que permita avançar para ter um país mais justo, soberano e democrático. 

Edição: Pedro Ribeiro