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Previdência, arma, minorias: os pontos-chave das entrevistas de Bolsonaro pós-eleição

Presidente eleito sinalizou que tentará emplacar a reforma previdenciária junto a Temer antes da posse

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Jair Bolsonaro (esq.) disse que vai enfrentar os "superpoderes das minorias" / Reprodução / TV Record

Um dia após a divulgação do resultado das eleições, Jair Bolsonaro (PSL) concedeu cinco entrevistas, veiculadas nesta segunda-feira (29) pelas emissoras Rede TV, Band, Globo, Record e SBT.

Em cada uma delas, o ex-capitão reformado do Exército reafirmou sua disposição de transformar movimentos sociais em organizações terroristas, criticou as minorias como detentoras de privilégios e “superpoderes”, e afirmou que pretende cortar verbas públicas de veículos que fizeram reportagens críticas à sua campanha e mandato.

Bolsonaro também deixou claro que pretende emplacar a reforma da Previdência durante o governo de transição, articulado com Michel Temer (MDB), para evitar desgastes após a posse, em janeiro.

Confira abaixo alguns dos temas mais relevantes das respostas às emissoras de TV aberta:

Equipe

Três ministros já foram definidos. Onyx Lorenzoni comandará a Casa Civil, o economista Paulo Guedes deverá assumir a pasta de Economia, e o General Heleno estará no Ministério da Defesa. O astronauta Marcos Pontes pode assumir o Ministério da Ciência e Tecnologia, e Sérgio Moro será convidado para o Ministério da Justiça – ou para o Supremo Tribunal Federal (STF), assim que houver uma vaga disponível.

Previdência

"Semana que vem estaremos em Brasília e buscaremos junto ao atual governo aprovar alguma coisa do que está em andamento [no Congresso], como a reforma da Previdência", admitiu Bolsonaro. "Evitaria problemas para o futuro governo que, no caso, seria eu", justificou.

O tema é um dos mais controversos no Congresso Nacional, e não foi aprovado junto às demais reformas do governo golpista porque enfrenta altos índices de rejeição. O capitão reformado afirmou que pretende aumentar a idade mínima para aposentadoria, mesmo que a mudança ocorra de forma progressiva: "A melhor reforma não é a minha, não é a sua, é aquela que passa no parlamento. Se quiser impor os 65 anos, a chance de derrota é muito grande. Se nós dermos um ano agora, o ano que vem dermos mais um ano, vamos para 62. Afinal de contas, a proposta de 65 não é para agora”.

Minorias

Na entrevista para a Record, Bolsonaro foi perguntado se governaria também para as chamadas minorias. “Eu queria que me definissem o que é minoria, qual é o direito de tal minoria. Nós somos iguais. Não podemos pegar certas minorias e achar que elas têm superpoderes”.

Sobre os episódios de violềncia contra a população LGBT, envolvendo seus apoiadores, o presidente eleito disse que “a agressão contra os semelhantes tem que ser punida na forma da lei, e se for por um motivo como esse tem que ter pena agravada”.

Sobre as acusações virulentas contra o que chama de “kit gay”, o material de combate à homofobia desenvolvido pelo Ministério da Educação para professores e adolescentes, ele voltou a reproduzir mentiras condenadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e afirmou que eram “livros com crianças se acariciando e se beijando.

Integração regional

Bolsonaro reiterou a posição do "guru econômico" Paulo Guedes, que respondeu violentamente à pergunta de uma jornalista argentina sobre o Mercosul – tratado de comércio firmado pelos países do Cone Sul. Na ocasião, Guedes disse que o bloco não será prioridade, e que o Brasil se aproximará das "grandes potências", como Estados Unidos, China e União Europeia.

Armamento

O militar reafirmou que a revogação do Estatuto de Desarmamento é uma prioridade. Bolsonaro defendeu a posse de arma aos cidadãos comum com mais facilidade e a redução da idade mínima (25 para 21) para se comprar armamento. Nos casos em que o porte de arma é autorizado, o político do PSL propõe que a liberação seja de caráter definitivo, sem a necessidade de renovação a cada três anos. Para ele, a arma de fogo garante a vida das pessoas e a liberdade da população. O empecilho, segundo o capitão reformado, seriam as críticas descabidas do “politicamente correto”.

Maioridade penal

“Se não for possível para 16, que seja para 17 [anos]. Por mim, seria para 14, mas aí dificilmente seria aprovada. Pode ter certeza que, reduzindo a maioridade penal, a violência no Brasil tende a diminuir”, disse o presidente eleito. A maioridade penal no Brasil é de 18 anos.

A afirmação do político de extrema direita não é baseada em fatos, como mostra a experiência de diversos países, onde a redução da maioridade não redundou em qualquer queda de criminalidade. Hoje, 78,4% dos países do mundo tem idade penal a partir dos 18, segundo dados da Unicef.

Ditadura

Bolsonaro voltou a dizer que nunca houve ditadura militar no país. Segundo o raciocínio do presidente eleito, a censura de reportagens durante o período serviam para evitar o envio de “mensagens cifradas para grupos que desejavam atacar as autoridades”. Ele não fez qualquer menção sobre a restrição ao direito de voto, suspensão de direitos políticos e de manifestação a partir do golpe de 1964.

Privatizações

Para melhorar as contas do governo, Bolsonaro afirmou que apoiará o projeto de privatizações de Paulo Guedes, com foco nas estatais deficitárias e “aparelhadas politicamente”. Para ele, tudo o "que não for função de Estado" será privatizado, “com responsabilidade”.

Imprensa

Perguntado por William Bonner, da TV Globo, sobre as declarações do domingo anterior à eleição, quando disse que o país viverá “sem mentiras, sem fake news, sem Folha de São Paulo. Nós ganharemos esta guerra. Queremos a imprensa livre, mas com responsabilidade. A Folha de São Paulo é o maior fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo. Imprensa livre, parabéns; imprensa vendida, meus pêsames”, Bolsonaro voltou atrás, mas seguiu atacando o jornal

"Não quero que [a Folha] acabe. Mas, no que depender de mim, imprensa que se comportar dessa maneira indigna não terá recursos do governo federal (…) Por si só esse jornal se acabou", disse. Para ele, “quem vai impor limite é o leitor. O controle é o controle remoto, nada além disso. O cidadão na ponta da linha é quem vai decidir.”

Edição: Pedro Ribeiro