Fé no voto

Após apoio que ajudou vitória de Bolsonaro, pastor fala em orar para melhorar

Culto na Igreja Internacional da Graça de Deus evita falas políticas, mas trata homossexualidade como doença

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Missionário R.R. Soares foi um dos líderes religiosos que apoiou Bolsonaro / Reprodução Youtube

A Igreja Internacional da Graça de Deus foi fundada pelo missionário Romildo R. Soares, no Rio de Janeiro, em 1980, e teve grande expansão por conta do talento midiático e a oratória do seu fundador. Nas eleições de 2018, o religioso declarou apoio e pediu votos a Jair Bolsonaro, presidente eleito pelo PSL, assim como fizeram Edir Macedo (Universal), Silas Malafaia (Vitória em Cristo) e Valdomiro Santiago (Mundial).

O apoio dessas lideranças ajudou a alavancar a votação do candidato de extrema direita na disputa do segundo turno contra Fernando Haddad (PT). 

O Brasil de Fato esteve na sede da Igreja Internacional da Graça de Deus, na avenida São João, em São Paulo, para acompanhar o culto e as interações sobre política brasileira no primeiro domingo pós-votação. 

No salão de entrada, antes de começar o culto os grupos de fiéis se juntam por afinidade de parentesco e amizade, os novatos têm certa dificuldade para se entrosar. As conversas giram em torno de amenidades e o horário de verão que desnorteou um pouco a vida dos fiéis. 

Duas senhoras, na casa dos 60 anos, perguntadas diretamente sobre  as eleições disseram que votaram no Bolsonaro. A justificativa, para ambas, era que ele tem uma religiosidade forte e fé em Deus. Para tentar aprofundar o assunto, o Brasil de Fato questionou sobre a opção política dos pastores e do missionário R.R. Soares. Com sorrisos nos rostos, elas disseram que sabiam que os pastores também votaram em Bolsonaro, porém, as escolhas delas não foram por influência da igreja e que a solução para a política é a oração

A conversa curta foi cortada porque faltavam poucos minutos para começar o culto com o pastor Jayme de Amorim, o braço direito do R.R. Soares. 

Em um vídeo publicado no dia 6 de outubro, na página da Direita Cristã, R.R. Soares foi mais direto ainda na defesa de Bolsonaro e suas ideias homofóbicas. “Examinei os dois projetos e achei o do Bolsonaro o melhor, principalmente, por causa da ideologia de gênero. Estão tentando convencer que meninos podem ser meninas e que meninas podem ser meninos. Isso é uma loucura”, diz o religioso no vídeo, citando uma proposta inexistente no programa do PT.

Na quarta-feira, após a vitória de Bolsonaro, o missionário fez um outro post dizendo “a misericórdia do Altíssimo foi derramada sobre nós ricamente” e “quem não aceita o plano divino, não terá outro para crer e se salvar”.

A  mensagem de que foi feita a vontade de Deus se repetiu diversas vezes durante o culto deste domingo. O pastor Jayme de Amorim deu várias exemplos em que a vontade de Deus pareceu ser “loucura”, mas foi seguida fielmente e sempre deu bons resultados.

As duas referências diretas à situação política do Brasil foram feitas já no final, durante o recolhimento do dízimo. O pastor estava falando sobre a vida eterna no paraíso e entrou no assunto da idade. Ele contou que já estava aposentado. “Somando a idade e o tempo de trabalho já dá mais de cem, então fui e me aposentei. Quem sabe o que vai acontecer com as mudanças que estão vindo por aí. É como dizem, né, o meu pirão primeiro”, concluiu tirando risos da platéia. 

Atualmente, para poder se aposentar pelo INSS, no caso dos  homens, é preciso comprovar no mínimo 35 anos de contribuição à Previdência e a soma da idade e do tempo de contribuição precisa ser superior a 95. Tanto Michel Temer como Jair Bolsonaro têm planos para mexer nas regras da aposentadoria. 

Um minuto depois, o pastor Jayme fez uma curta reflexão política: “A situação no Brasil do jeito que está. É preciso orar”.

Por duas vezes, durante a oração de pedido de graças, o pastor citou o “homossexualismo” como um dos males que precisam de cura, ao lado da depressão e da rebeldia dos jovens que passam muito tempo no mundo virtual.

Bíblia e democracia

Na quarta-feira, dia 31 de outubro, foi lançada em São Paulo a campanha 40 Dias de oração e serviço pelos direitos humanos, que integra o projeto Usina de Valores, do Instituto Vladmir Herzog, que prevê a realização de diversos eventos até o dia 10 de dezembro.

O objetivo é promover a relação da Bíblia com a democracia e a defesa dos Direitos Humanos. De acordo com Ronilso Pacheco, da Comunidade Batista, em São Gonçalo (RJ), a relação dos pastores com os fiéis é fundamentada na confiança. "Quando falta um dinheiro para completar o valor do botijão de gás, quando precisa levar alguém ao médico com urgência, por exemplo, é o pastor que ajuda. Então, a palavra do pastor tem um peso grande. É uma confiança construída ao longo de anos", disse. 

Edição: Tayguara Ribeiro