ELEIÇÕES

“Se sentir seguro para lutar exige organização popular” afirma Eduardo Mara

O cientista social também fez uma análise sobre a ascenção de grupos e ideais fascistas na sociedade

Brasil de Fato | Recife (PE)

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Eduardo também ressaltou a importância da organização coletiva para resistir aos próximos períodos / José Eduardo Bernardes

Eduardo Mara é cientista social, doutor em serviço social e professor da Universidade Joaquim Nabuco (Uninabuco), no Recife e também integrante da direção nacional da Consulta Popular. Conversamos com ele sobre a eleição do candidato Jair Bolsonaro (PSL), que vai tomar posse no dia primeiro de janeiro.

Brasil de Fato: Eduardo, na sua opinião, qual a importância histórica das eleições de 2018?

Eduardo Mara: É uma importância gigantesca. Nesse momento a eleição se tornou de certa forma um plebiscito sobre a democracia no Brasil e se consolidou em boa parte da população uma visão de rejeição ao sistema político. Essa é uma disputa que se inicia desde 1988 com a constituinte de 1988, onde a gente conquista direitos, mas a gente não consegue intervir desde lá nas estruturas do Estado. Estruturas que permanecem muito antidemocráticas. Então a eleição revela para a sociedade a importância de reforçar com muita gente o que é democracia e a realidade é que o país precisa de mais democracia e não de menos democracia. As imperfeições, a corrupção que ainda estão presentes no sistema político não advém da democracia, elas advém da falta de participação popular. Então nós temos uma grande batalha pela frente para reforçar o ideal democrático na sociedade brasileira.  

BdF: O que você destacaria como aspecto negativo na eleição?

Eduardo: Como eu falei que as estruturas do estado elas foram historicamente construídas de forma antidemocrática no Brasil, vale reforçar negativamente a postura do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante essas eleições. Vejam que houve, o TSE acatou denúncias, na minha opinião, completamente inconsistentes de crime eleitoral, perseguindo inclusive professores em sala de aula, proibindo manifestações públicas contra o fascismo, a favor da democracia, manifestações essas que sequer citavam nomes de candidatos, eram manifestações que construíram ideais democráticos, dialogavam com o que estava em pauta na eleições, e isso é muito importante, ainda mais nas instituições pautadas pela ciência, pelo pensamento científico e sequer levou adiante uma investigação importante com uma denúncia muito bem feita de um crime eleitoral que envolvia caixa dois, mentiras na eleição, inclusive envolvia o uso de dinheiro público para financiar isso, por parte de deputados. Então essas duas balanças me surpreenderam muito.

BdF: E o destaque positivo?

Eduardo: Quem mandou bem muito recentemente, nesse final da eleição e agora nesse final do segundo turno, foi o Ministério Público Federal em Santa Catarina, na cidade de Chapecó. Em Santa Catarina, uma deputada eleita pelo PSL, a Ana Campagnolo, começou uma escalada de perseguição ainda maior depois do segundo turno aos professores, pedindo para que os estudantes gravassem as aulas denunciando ideologização, como se um conteúdo científico sempre comportasse ideologias, um debate de ideias é sempre um debate de ideologias, e perseguindo os professores que faziam aula inclusive sobre os mesmos temas, fascismo, democracia, não se podia nem falar de revolução francesa em sala de aula e o Ministério Público Federal publicou uma nota contra isso, desaconselhando esse tipo de perseguição e reforçando a democracia em sala de aula e a liberdade do professor.

BdF: Quem é Jair Bolsonaro e o que ele representa na política nacional?  

Eduardo: O Jair Bolsonaro representa primeiro o que há de mais atrasado na política eleitoral e na política institucional do país há muito tempo. A linguagem dele é uma linguagem voltada para os interesses dos latifundiários, dos setores mais atrasados da economia brasileira. A política econômica que ele traz é uma política econômica também atrasada de retirada de direitos, ele tem uma política indefensável. Não são só as falas dele que são indefensáveis, a política que ele defende é uma política de retirada de direitos, de desmontes, de entregar o país a uma extrema miséria que é indefensável. Por isso que ele não pôde nem ir para os debates e não pôde sequer falar num programa. Então ele fez o que? Qual é a jogada do Jair Bolsonaro? O que é que ele representa? A única forma de defender um programa antipopular é dividindo a população através do ódio. Então a campanha dele foi inteira pautada no ódio, no ódio aos LGBTs, no ódio aos negros e negras, no ódio aos quilombolas, no ódio a toda a esquerda e os setores democráticos, no ódio a classe trabalhadora na prática. Então ele representa a institucionalização do fascismo. Ele vocacionou aquele conservadorismo que estava contido nas estruturas do Estado para a sociedade, então ele significa a fascistização das estruturas do Estado.

BdF: O que se esperar de um governo Bolsonaro?

Eduardo: Eu queria dialogar inclusive com os próprios eleitores do Bolsonaro. O que a gente pode esperar, e isso já está sendo anunciado, o primeiro é uma retirada gigantesca de direitos. Vejam que o primeiro projeto que ele mandou, e ele nunca falou sobre isso durante toda a campanha, e o primeiro projeto que ele defende logo depois de eleito é a reforma da previdência e a retirada de direitos da grande maioria da população. Então a retirada de direitos e a privatização do patrimônio público é algo que a gente pode esperar com certeza deste governo. A segunda coisa que a gente pode esperar é uma escalada da repressão e uma perseguição aos setores democráticos e eu queria dialogar com os eleitores do Bolsonaro, porque eu sei que a maioria desses eleitores não votou contra a democracia, votou porque está descontente com as instituições democráticas e há uma diferença muito grande entre as duas coisas. E é muito necessário que esses eleitores que têm críticas à forma como funciona a política no Brasil se engajem numa campanha pela democracia e para discutir a democracia que nós queremos. Nós temos que contar, não só com os eleitores que votaram no Haddad votando pela democracia, mas nós temos que dialogar com esse conjunto da população que não é antidemocrática, a nossa classe trabalhadora não é fascista. A gente esteve nas periferias do Recife discutindo com o povo. A maioria não é contra a democracia, inclusive a pesquisa do Datafolha durante as eleições diz que 55% dos brasileiros são favoráveis ao regime democrático, então é necessário canalizar e fazer uma grande campanha para não deixar que ele feche as instituições democráticas que é o canal por onde o povo pode reivindicar seus direitos e pode fazer valer os seus direitos e o controle sobre o estado.

BdF: Quais são as tarefas da classe trabalhadora organizada para o próximo período?

Eduardo: A primeira tarefa nossa agora é conversar com as pessoas, nós temos que ir aonde o povo está. Durante a campanha, no segundo turno particularmente uma série de organizações populares que estavam dispersas, esse conjunto de organizações populares, no Brasil inteiro, se encontraram numa campanha pela democracia, a primeira tarefa é fortalecer essas organizações onde elas estão, no seu trabalho com o povo, para fazer com que essas organizações ampliem o diálogo inclusive com o conjunto dos eleitores do Bolsonaro, o conjunto da população e da classe trabalhadora, para esclarecer sobre a importância da democracia e um projeto de país. Esse é o momento do trabalho com o povo, do diálogo, não a nada mais seguro e mais importante para a democracia do que as organizações populares. Nós não garantiremos a democracia, nós iremos para a rua sem dúvida brigar pelos nossos direitos, nós faremos lutas como sempre fizemos, mas o mais importante agora é construir força social que alimente a luta das ruas, que dê segurança para as pessoas que estão nos bairros, e muita gente ficou assustada com o resultado dessa eleição; se sentir seguro para lutar, para participar da política, exige organização popular. Então nossa tarefa agora mais importante é reforçar e ampliar uma rede gigantesca de organizações populares por democracia no Brasil todo.

BdF: E para quem não faz parte dessas organizações, que já sentem o medo desse governo, qual o indicativo e como essas pessoas podem se mover?

Eduardo: Primeiro indicativo básico é reunir-se. Reunir-se. É um desses memes que circulam, um dos mais bonitos agora neste segundo turno foi um que circulou bastante que dizia para ninguém soltar a mão de ninguém. Isso é muito fundamental, porque por mais que o ódio seja ele gigantesco, mas ele não é da maioria. Existem grupos organizados na sociedade civil hoje de corte fascista mesmo. Esses grupos, eles são de alta e média classe, de gente que votou em Bolsonaro por que realmente tem dificuldades de relação com a classe trabalhadora, tem ódio mesmo do povo, da ideia de povo brasileiro. Eles não são muitos. Mas a classe trabalhadora, nós somos muitos, então o mais importante agora é se organizar em cada local que fez a campanha do Haddad, que participou da eleição, é importante reunir o povo para conversar sobre o que está acontecendo, essa é a primeira coisa, porque a coragem para lutar nasce dessa organização, e é bom lembrar, essa escalada de repressão e ódio nascem de um medo também. Os de cima também tem medo, e eles têm medo das organizações populares. A única forma de fazer recuar o ódio, de fazer recuar a repressão é fortalecer o sentimento de coletividade, de solidariedade entre a classe trabalhadora. É para isso que a Frente Brasil Popular está organizando o Congresso do Povo, que é um grande mutirão de conversa nas comunidades, nos locais de trabalho, nas universidades, sobre a democracia e o projeto de país. Este é um lugar onde a gente se fortalece para pensar o Brasil e para planejar as nossas lutas de forma muito consciente, organizada, segura e reforçando o amor ao povo e a paixão pelo Brasil que a gente quer.

Edição: Monyse Ravenna