BOLETIM

Boletim Ponto: Balões de ensaio do trumpcalismo

Newsletter em parceria com o Brasil de Fato reúne fontes de leitura alternativas à imprensa corporativa

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Boletim semanal traz indicações de leituras e informações selecionadas para o leitor do Brasil de Fato / Divulgação

Apresentamos o boletim semanal Ponto, projeto em parceria com o Brasil de Fato. Nossa intenção é trazer a você um resumo das principais notícias da semana, que muitas vezes se perdem em meio ao caos de informações, além de análises, indicações de leituras e outros conteúdos que, na correria do dia a dia, você não conseguiu acompanhar. Assim, você receberá todas as sextas, em seu e-mail, um guia de informações para que você não se perca nesta crise - política, econômica, social e informativa. 

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Bolsonaro e sua equipe fazem bastante barulho. Há algo de estratégia e também de absoluta falta de conhecimento. Mas, no meio de tanto ruído, o que é mesmo verdadeiro, o que é cortina de fumaça e o que é importante? É isso que tentamos encontrar nesta edição, onde abordamos as primeiras características do governo que se desenha. As tendências do debate político estão ali também na seção Radar, além de outros temas que precisam de maior atenção. Na seção Boa Leitura, relembramos os três anos da tragédia de Mariana.

Não esqueça de responder a pesquisa sobre o Ponto. É bem rápido e vai ser importante para mudarmos algumas coisas na newsletter.

Um bom fim de semana e vamos nessa.

Eles não sabem o que fazem. Não é só o discurso conservador que une Trump e Bolsonaro. A tática de atacar a imprensa e tentar pautar a política por suas próprias redes sociais também tem sido copiada pelo brasileiro. Entre rompantes, bravatas e desmentidos pelo Twitter, a cacofonia do novo governo parece fazer parte de uma estratégia. Mas é verdade também que há muita confusão genuína. Por exemplo, no tema das relações internacionais. No seu blog, Leonardo Sakamoto demonstra que, entre as frases de efeito sobre o Mercosul, a mudança da embaixada em Israel e o acordo do clima em Paris e a vida real, há uma grande distância. Como demonstra a represália da comitiva do Egito, a oscilação sobre o Mercosul. Mesmo o homem forte da economia, Paulo Guedes teria demonstrado não saber como funciona o Orçamento da União, como relatou a jornalista Cristina Lobo na GloboNews.

Mesmo demonstrando não saber muito bem o que está fazendo, porém, o novo governo está empenhado marcadamente em aprovar a Reforma da Previdência ainda em 2018, com apoio de Temer. Na quinta (8), o governador eleito do Rio, Wilson Witzel, disse que Bolsonaro e Temer trabalham em uma reforma que não exija mexer na Constituição (entenda aqui o que poderia mudar), o que demandaria interromper a intervenção militar no Estado. Deputados ouvidos pela Folha, no entanto, afirmam que a reforma da Previdência tem poucas chances de ter algum de seus pontos, ou de suas versões, aprovadas em 2018. Enquanto isso, segue a confusão, proposital ou não, na equipe do novo governo: o próprio presidente eleito disse ver com desconfiança a proposta de capitalização da Previdênciadefendida por Guedes. O certo é que ninguém deve mexer no vespeiro da previdência dos militares, que aliás, pediram aumento nesta semana.

A propósito: um perfil de Paulo Guedes no Valor Econômico pinta o futuro ministro como um economista inteligente, mas que teria grandes dificuldades de gerir a estrutura do superministério.

Moro ministro. Outro superministro, Sérgio Moro também tem opiniões divergentes com o seu chefe. Talvez ainda não tenha caído a ficha de Moro, mas o símbolo da Lava-Jato está deixando a vida de pedra para se tornar vitrine. O que significa, por exemplo, ter que explicar por que considera Onyx Lorenzoni perdoado pelo Caixa 2 da JBS ou por que desistiu de algumas das dez medidas anticorrupção pelas quais militava. De cara, Moro vai ter que lidar com a promessa de extradição de Cesare Battisti, que pode deixá-lo desde o começo em rota de colisão com o STF.

O poste da direita. Vale ler a análise do professor Wanderley Guilherme dos Santos: Bolsonaro foi o poste escolhido pelo antipetismo, sem ter capacidade e nem qualidade para exercer a presidência, cerca-se de nomes mais fortes - como Guedes e Moro - terceirizando o poder para isentá-lo de tomar decisões. O resultado só pode ser ruim: um presidente fraco, com um estado desarticulado em blocos de poder, comandados por personagens sem traquejo nas negociações democráticas, tem tudo para assegurar a instabilidade atual. Para Maria Cristina Fernandes, Moro "busca blindagem na plateia com propostas acima de partidarismos".

 

RADAR

 

Violência no Rio. A tragédia vivida pelo Rio de Janeiro parece se perder em meio ao noticiário. Na terça, uma operação da Polícia Militar no Complexo da Maré deixou cinco pessoas mortas. No dia anterior, uma mulher que já havia perdido o marido em um assalto e o filho baleado por um policial, morreu após três anos de depressão. No feriado de Finados, estudantes morreram baleados em três favelas do Rio. Como enfrentar a tragédia se o governador eleito incentiva e o presidente eleito debocha da morte de inocentes por policiais? Sobre o assunto, vale ler o especial da Agência Pública sobre os efeitos colaterais da intervenção federal no Rio.

 

Escola sem partido. Pela segunda vez seguida, a comissão especial da Câmara que analisa o projeto batizado de Escola sem Partido não alcançou quórum para realizar a votação nesta quarta (7). O motivo desta vez é que havia votações no plenário. A comissão deverá voltar à pauta na próxima terça-feira (13). Esta reportagem da BBC mostra que o Escola Sem Partido já vigora informalmente na vida cotidiana dos professores. Importante ter em mente, como aponta o jornal El País, que pregações contra a suposta doutrinação nas escolas "são facetas centrais da campanha vitoriosa de Bolsonaro, que também estão presentes na estratégia de mobilização de forças conservadoras e de extrema direita pelo mundo, parte das chamadas 'guerras culturais'." Lembrando que o MPF já declarou que o projeto é inconstitucional e a tendência seria de que o STF barre a legislação, se eventualmente aprovada.

 

Saneamento. Precisa ser votada até o dia 19, no Congresso Nacional, a medida provisória editada por Temer que facilita a entrada do setor privado no saneamento, ao diminuir a autonomia dos municípios na escolha por empresas estaduais. Um manifesto de entidades alerta para os riscos desta MP. Sobre o assunto, vale ler uma reportagem do ano passado na BBC sobre cidades europeias estarem reestatizando seus serviços: as PPPs teriam gerado tarifas mais altas e não cumprido suas promessas.

 

Para ficar de olho. Desde segunda (5), uma delegação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) está no Brasil para conferir de perto a situação dos direitos fundamentais no país. Estão na pauta questões relacionadas a populações quilombolas, indígenas, os efeitos da tragédia de Mariana, a situação nos presídios, a intervenção militar no Rio, a violência contra defensores de direitos humanos, o acolhimento a imigrantes, o amparo às famílias camponesas e pessoas em situação de rua.

 

Mobilizações. Servidores federais têm se mobilizado diante dos anúncios de que pastas e órgãos serão fechados. Funcionários do Ministério do Trabalho realizaram um ato na quinta. Reportagem do Brasil de Fato mostra que o fim da pasta representaria o possível enfraquecimento da capacidade estatal em servir de mediador das relações de emprego e de fiscalizar desvios na área. Outra iniciativa é o movimento Fica EBC, formado por servidores da empresa pública de comunicação.

 

Lula. O ex-presidente continua sob mira permanente da Lava Jato. Os autos do processo sobre o terreno do Instituto Lula já estão prontos para conclusão. Nesta semana, o TRF-4 também rejeitou dois recursos apresentados pela defesa no caso e que pediam a reavaliação de dois habeas corpus pedidos pela defesa. Além disso, o processo do Sítio de Atibaia também avançou, agora com a acusação de Marcelo Odebrecht de que as reformas foram para a "pessoa física" Lula. Enquanto isso, O ministro Edson Fachin decidiu enviar para a Segunda Turma do STF mais um pedido de liberdade feito pela defesa, que também pede a suspeição do juiz Sergio Moro para julgar Lula. Os argumentos foram reforçados após o magistrado ter aceitado o cargo de ministro da Justiça.

 

Operações. As operações do contexto da Lava Jato voltaram nesta semana. Na manhã desta sexta (9) a PF prendeu o vice-governador de Minas e os executivos da JBS Joesley Batista e Ricardo Saud, em investigação relacionada ao período em que Antônio Andrade foi ministro da Agricultura no governo Dilma. Na quinta, a PF prendeu deputados estaduais sob suspeita de envolvimento em um esquema de propinas para votarem com o governo.

 

Novo partido? Políticos de centro derrotados nas eleições estariam articulando a criação de um novo partido, mostra reportagem do jornal Valor.

 

RETROCESSO DIÁRIO

 

Reforma trabalhista. Na edição passada da newsletter já havíamos trazido reportagem da Rede Brasil Atual sobre os prejuízos aos trabalhadores após um ano da reforma trabalhista. Agora é a vez do Valor Econômico: o jornal mostra que, no período de vigência da reforma, foram criados 372 mil empregos formais, quando a expectativa anunciada pelo governo Temer era de dois milhões. Os números sobre contratação de trabalho intermitente ainda indicam precarização do trabalho, aponta o jornal.

 

Amazônia. O último relatório do Fundo Mundial para a Natureza mostrou que a área da Floresta Amazônica foi reduzida em 20% nos últimos 50 anos devido ao desmatamento. Segundo o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas, a porcentagem de desmatamento entre 20% e 25% do bioma representa um ponto de inflexão. Ou seja, a partir deste ponto, o dano à floresta se torna irreversível. A propósito, Eliane Brum escreveu no El País: "Tudo indica que a principal meta do governo de Bolsonaro é transformar a floresta amazônica em mercadoria. Por uma razão bastante objetiva: é na Amazônia que está o estoque de terras supostamente ainda disponíveis no Brasil, para o avanço da pecuária e da soja, e é também na floresta que estão as grandes jazidas minerais."

 

Saudosos. Entre setembro e novembro de 2018, duas grandes cidades brasileiras reverteram mudanças de nome de endereços e, então, voltaram a homenagear presidentes da ditadura militar. A Justiça decidiu anular leis locais que haviam retirado a homenagem aos ditadores.

 

VOCÊ VIU?

 

Primeira baixa. A equipe de transição, quer dizer, de transição do novo governo já sofreu a primeira baixa. Sócio de uma empresa ligada à investigação sobre o envio em massa de mensagens via WhatsApp durante a campanha, prática considerada ilegal, Marcos Aurélio Carvalho estava entre os nomeados. Porém, após uma entrevista ao jornal O Globo em que se apresentou como marqueteiro digital da campanha, o empresário foi derrubado.

 

Falando em WhatsApp. E relacionando com o início da newsletter, sobre a cacofonia da equipe do novo governo: os grupos de WhatsApp que atuaram durante a campanha viraram canal de exaltação ao presidente eleito. "Nos grupos de WhatsApp, nem se fala das idas e vindas do presidente eleito", relata reportagem do jornal El Pais. Por outro lado, um especialista em redes sociais aponta que a interação nos grupos está caindo e já aparece um certo desconforto com o nem ainda presidente.

 

Um novo tempo que começou. Ainda na sexta passada, dia 2, um cinegrafista da Globo foi forçado por um agente da Polícia Federal a apagar imagens que gravou de Bolsonaro durante uma visita ao Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (Cadim), no Rio de Janeiro. O policial federal coletou dados e tirou foto do cinegrafista. Enquanto isso, Rogério Galindo, que trabalhava na Gazeta do Povo (PR) havia 18 anos e mantinha uma coluna dissonante da linha editorial do jornal, foi demitido após uma crítica ao papel da imprensa na eleição de Bolsonaro. Para encerrar, o SBT de Sílvio Santos exibiu uma vinheta na qual reeditava o slogan da ditadura militar, "Brasil: ame-o ou deixe-o". Diante das críticas, tirou a peça do ar.

 

Imprensa inimiga. O jornalismo independente terá dificuldades no governo Bolsonaro. Sua segurança tentou vetar a presença de jornalistas durante o ato fúnebre em memória da Constituição Federal realizado na terça (6). No dia anterior, o apresentador Ratinho, aliado de Bolsonaro e pai do recém eleito governador do Paraná, também tirou casquinha dos jornalistas: "as redes sociais venceram". No mesmo dia, o próprio presidente eleito se negou a responder a uma pergunta sobre o cancelamento pelo governo egípcio da visita do ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, em razão das declarações sobre uma possível transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém. Fica bem evidente que Bolsonaro segue o exemplo de Trump (que nesta quarta, inclusive, descredenciou um jornalista da CNN): comunicação direta com o público através de suas próprias redes sociais e disparos contra a imprensa.

 

CCC. A UFPE acionou a Polícia Federal para investigar a ameaça a professores e estudantes. Uma carta deixada no Diretório Acadêmico de História intitulada "Doutrinadores e alunos que serão banidos do CFCH" elenca uma série de docentes classificados como"doutrinadores" e "comunistas". Os estudantes são chamados de "exército de viados, travecos, feminazis, prostitutas e todos os tipos de degenerados". Record: esquerda.

 

Astronauta de mármore. O ex-astrounauta e futuro ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, manteve oculta sua relação com uma empresa, o que infringiria o Código Militar. Após ir para a reserva, o tenente-coronel se tornou sócio majoritário da empresa, com 80% da participação. A reportagem é do site The Intercept.

 

É BOATO

 

Mentir, uma estratégia. São tantas as mentiras que esta seção do Ponto está ficando obsoleta. Mas cabe uma análise. Nas entrevistas que deu após a eleição, Bolsonaro voltou a mentir sobre o kit gay. O Nexo traz um bom resumo de por que essa história é mentira e algumas pistas sobre a estratégia de mentir: "É uma disputa por atenção".

 

BOA LEITURA

 

Mariana, 3 anos depois. A maior tragédia ambiental da história do país completou três anos. Uma marcha do Movimento de Atingidos por Barragens percorre o mesmo trajeto da lama para denunciar o crime. No Brasil de Fato, conheça as histórias de Vera LúciaJosélia,e Lafaiete que tiveram a vida transformadas pela barragem. Em entrevista ao Nexo, Joana Nabuco, advogada e consultora da ONG Conectas, afirma que governo "terceiriza" reparação a atingidos e que é necessário oferecer mais que indenização. Apenas 8 mil das 27 mil famílias atingidas foram indenizadas.

 

Outras Marianas? E por falar em tragédia, o The Intercept resgatou o passado garimpeiro de Bolsonaro e por que isso é um risco para a Amazônia, além de uma oportunidade para as empresas mineradoras.

 

Nostalgia. O cientista político Cássio Casagrande recorre à psicologia e a Milan Kundera para tentar entender a nostalgia da classe média brasileira com a ditadura militar.

 

Não é fascismo, é teocracia. Na Vice, o jornalista Fabio Morton relembra a infância numa família da Assembleia de Deus para tentar explicar o pensamento do voto pentecostal em Bolsonaro.

 

Não vale. Sabe aquela mensagem de Whatsapp sobre uma consulta pública no senado a um projeto de lei polêmico? Pois o seu voto na enquete pode não ter muita efetividade. A Ponte conta como funciona a enquete e quais são os métodos mais eficientes para pressionar um senador.

 

Mate um jornalista e permaneça impune. Pelo menos 22 comunicadores foram assassinados nos últimos quatro anos no Brasil, em casos sem conclusão na Justiça. Reportagem de Tatiana Merlino.

 

Ela, a realpolitik. "A normalização de Bolsonaro se dará à margem da guerra cultural deflagrada pela implantação do 'Escola Sem Partido' em cada sala de aula. Enquanto a sociedade se divide e se fragmenta, o MDB morde – aprovando o aumento dos ministros do Supremo – e assopra Bolsonaro, com Renan Calheiros sinalizando com apoio em 2019. Pais, alunos e professores se desentenderão por todo o Brasil enquanto neófitos e safos se entendem em Brasília." Análise de José Roberto de Toledo na Piauí.



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Edição: Pedro Ribeiro Nogueira