RESISTÊNCIA

Editorial | O amanhã e a tarefa de tecer novas formas de luta

A história não acabou, em cada canto há um companheiro e uma companheira em quem confiar

Brasil de Fato | Recife (PE)

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"Esperamos pela primeira vez que um candidato não cumpra as promessas e que a resistência se construa desde já" / Antifatoons

Este jornal tem acompanhado desde 2015 o que chamamos de golpe no Brasil e, desde então, conduz uma linha editorial que alerta sobre os seus objetivos centrados na retirada de direitos.  A eleição do dia 28 de outubro, que teve o militar reformado Jair Bolsonaro (PSL) eleito com 55,1% dos votos válidos encerra esse ciclo e inaugura um novo período que exigirá extrema atenção de todos. Uma eleição marcada pela polarização de projetos, mas disputada no campo dos valores morais e com o uso estratégico e ilegal das novas tecnologias de comunicação. 

O discurso conservador escancarou o caráter patriarcal e machista de nossa sociedade e dividiu homens e mulheres que votaram de maneira oposta com a maior diferença desde a redemocratização do Brasil, principalmente entre a juventude, 60% das mulheres entre 16 e 24 anos que votaram em Fernando Haddad (PT) e de homens da mesma faixa etária que escolheram Bolsonaro, segundo o Datafolha.

A polarização regional explicitou o preconceito e a xenofobia, mas, também a força do Nordeste. Pernambuco, como quase todo o Nordeste, foi outro ponto fora da curva, onde o presidente eleito e seus aliados tiveram a menor porcentagem de votos.

É possível esperar que o presidente que receberá a faixa presidencial em janeiro, das mãos de Temer, promete não apenas dar continuidade e aprofundar as políticas neoliberais mas também endurecer e ampliar o braço repressivo do estado, diminuindo cada vez mais as margens democráticas e aumentando a repressão e a censura aos meios de comunicação de uma forma geral, às organizações políticas e sociais da classe trabalhadora, aos países vizinhos, ao povo mais pobre, caso ousem se levantar para cumprir o seu papel na democracia cada vez mais limitada que se avizinha.

O aumento da presença militar é mais um elemento que anuncia o caráter conservador e repressivo explicitado tantas vezes pelo presidente eleito e por seu vice General Mourão e demarca um retorno ao passado, rompendo definitivamente com o pacto democrático conquistados pela Constituição Cidadã de 1988.

Até agora, todos os ministros anunciados são pessoas de extrema direita.  As políticas econômicas confirmam a aceleração das privatizações e contra reformas com retirada de direitos e aumento da precarização do trabalho. A Reforma da Previdência é a primeira iniciativa, que atingirá o povo em cheio, mas especula-se que o governo lançará mão de estratégias que buscarão convencer uma parcela da população jovem, feminina e nordestina que claramente se posicionou numa campanha anti-bolsonaro. Há que se ficar atento a movimentações que possam gerar ilusões nesse sentido.

Esperamos pela primeira vez que um candidato não cumpra as promessas e que a resistência se construa desde já com base na profunda solidariedade, preservando as organizações e a vida do povo, mesmo aqueles que não perceberam a gravidade e elegeram o seu próprio carrasco. A história não acabou, em cada canto há um companheiro e uma companheira em quem confiar e tecer novas formas de lutar.

Edição: Monyse Ravenna