Entrevista

Boff: Bolsonaro legitima a violência que pode ocorrer na sociedade

Depois das eleições, Boff elenca desafios para a esquerda e critica duramente a posição do presidente eleito Bolsonaro

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Chaves como corrupção, segurança e antipetismo foram usados para vencer a eleição, diz Boff / Joka Madruga/Agência PT

O Frei Leonardo Boff esteve em Curitiba na condição de visita religiosa ao ex-presidente Lula, há mais de 220 dias encarcerado na Superintendência da Polícia Federal, no bairro do Santa Cândida, em Curitiba. A primeira visita havia sido ainda em abril e rechaçada pela juíza Carolina Lebbos, gerando uma imagem que rodou o mundo.

Hoje, depois das eleições, Boff elenca os desafios para a esquerda e critica duramente a posição do presidente eleito Bolsonaro: “O da presidência é um discurso ritual, que tem que respeitar certos limites, mas o primeiro discurso de campanha teve como efeito criar uma cultura da violência. Legitima a violência que vai ocorrer na sociedade. Perseguição aos homoafetivos, aos negros, aos pobres, aos quilombolas, aos indígenas”, critica.

BdF - Qual avaliação você faz da conjuntura social do Brasil que levou à eleição de um projeto tão autoritário quanto o do Bolsonaro?

Leonardo Boff – Eu acho que foi a capacidade de eles escolherem três logs que falavam diretamente ao povo. Como já cientistas notaram, os partidos que tiverem os melhores logs, as melhores palavras-chaves, geralmente obtém sucesso. E eles usaram a questão da corrupção, que é um problema; usaram a questão da segurança, que também é problema; e usaram a questão do antipetismo, outro problema. Junto a isso, inventaram o fantasma do comunismo pelo qual eles escondem as atitudes fascistas deles, e a família, porque o brasileiro é muito conservador. Defende a família, embora ele não tenha sido um exemplo nenhum, já está no terceiro matrimônio. Mas são palavras que vão diretamente ao coração das pessoas. Ele não usou a argumentação, usou o discurso da sensibilidade.

Quando fala da violência, expõe sobre as mães que choram os filhos, que são mortos ainda bebês, que não podem ir para a escola e comove as pessoas. Esse discurso criou uma atmosfera que deu relevância a ele. Agora, eu acho que devemos distinguir duas coisas: o discurso de campanha, que foi extremamente violento e o discurso de presidente. O da presidência é um discurso ritual, que tem que respeitar certos limites, mas o primeiro discurso de campanha teve como efeito criar uma cultura da violência. Legitima a violência que vai ocorrer na sociedade. Perseguição aos homoafetivos, aos negros, aos pobres, aos quilombolas, aos indígenas.

E já estão aplicando isso, já estão perseguindo, matando. Então eu acho que a situação é grave com o país, nós temos que ter muita vigilância, proteger nossos líderes que podem ser assassinados. E ele vai se contra, vai condenar, mas eles todos se sentem legitimados por aquilo que ele disse antes e isso é grave.

Como organizar a resistência dos movimentos sociais diante de um governo autoritário?

Eu acho que o PT tem que se reinventar porque ele nasceu nas bases e quando estava no Planalto esqueceu a planície. Então ele tem que ter uma ligação orgânica, contínua com a base, porque a base corrige, educa o político e ele aí se convence que não pode ser corrupto, aperta a mão calosa. Criar escolas de formação política, usar os meios que são próprios do povo. Por exemplo, a literatura de cordel. O grupo do Nordeste que criou uma articulação vende por ano um milhão de exemplares de literatura de cordel. Isso atinge de dez a doze milhões de pessoas.

O PT tem que usar tais argumentos, as coisas boas que Lula fez, as propostas do partido. Eu acho que insistir enormemente na maior chave que tem no Brasil que é a injustiça social. Chamar de ‘desigualdades’, desigualdade é um termo analítico muito frio, tem que dizer injustiça social, pecado social que ofende a Deus e os filhos e filhas de Deus. Nós temos que superar isso e fazer com que eles participem. São temas que o povo entende.

Como prévia a isso tudo, o PT tem que fazer, na minha opinião, uma autocrítica pública. Dizer esses acertos nós fizemos, esses erros cometemos, pedimos a compreensão de vocês, a proposta positiva é essa que vai nos beneficiar e vai nos ser melhor para o Brasil. O povo é complacente, ele perdoa, ele não aceita que o enganem ou escondam a verdade. O PT tem que ter essa coragem. Não é dar arma ao inimigo, é fazer prevalecer a verdade das coisas e isso fortalecerá o partido na sua ética.

Por fim, eu acho que ele tem que ressuscitar a Comissão de Ética e expulsar todos os corruptos do PT, que para além do Caixa 2, que era comum, se enriqueceram pessoalmente. Esses têm que ser expulsos. Será uma lição que o povo vai honrar. O próprio Lula dizia, vamos cortar na própria carne. Pois agora aplica.

No segundo turno, a esquerda fez um trabalho de casa em casa para debater com a população. É um sinal do que deve ser feito no próximo período?

Eu acho que o convencimento é o contato. Entra no bar, fala com as pessoas. E dizer a verdade. O que é esse Bolsonaro, um homem da violência. Que diz que os militares de 64 “cometeram um erro, só torturaram, deviam matar todo mundo e começar por Fernando Henrique (Cardoso, ex-presidente)”. Denunciar os podres reais que ele mesmo disse: “Tem que matar petralhas”. Isso é um criminoso. E usar a bíblia. São João diz: “Quem odeia seu irmão é um assassino”, João 3:15. O povo entende a bíblia. A gente tem que  usar esses elementos.

O senhor falou na proteção dos nossos líderes. Em relação ao Lula, o senhor acha que ele está em risco?

Ele não está por estar protegido lá dentro, ele mesmo não sabe por quanto tempo. O objetivo era tirá-lo. Ele esperava que após as eleições o libertassem. Mas, que nada, o mantiveram preso e tendo o Moro lá em cima vai gerar mais obstáculos. Então, ele está inseguro, não sabe qual é o futuro.

Por outro lado, tem uma grande força interior dizendo ‘nunca roubei nada de ninguém. O desafio que ele me disse: “quando falar em público faça o desafio para o Moro, que apresente um argumento”. Todos os grandes analistas, internacionais, afirmam que esse processo não se aguenta em pé, porque não tem materialidade.

Então, ele é um preso político, vivendo isolado, numa solitária. Quando o visitei pela primeira vez (início de maio), depois de um mês, ele chorava e me abraçava porque era a primeira vez que via alguém além de filhos e advogado. Ele é acostumado a ver gente do povo. Querem ver se ele perde o equilíbrio interior, eventualmente se suicide. Mas ele diz: “Olha, quem viu parte da família morrer de fome, eu quase morri de fome, passei todas as misérias do mundo, isso aqui pra mim é um refresco, estou aqui dentro estudando, meditando, seguindo”. É desumano. Quando o visitei pela primeira vez, havia uma esteira há vinte dias ao lado da porta, que a juíza não deixava entrar. Inumanidade. Eles têm a famosa Lei Mandela. Quem é portador do prêmio Nobel pode entrar em todas as prisões. Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz, fala que esteve em Israel e na China e pôde entrar, mas aqui não. Arbítrio puro. Vivemos em um regime de exceção. Total arbítrio, sem Constituição, sem leis. Não é uma democracia de baixa intensidade, mas a negação da democracia.

Edição: Laís Melo