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Terapias holísticas fortalecem o povo preto frente ao racismo

Profissionais contam como cuidar do corpo, mente, espírito e emoção resgatam a força e autonomia

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

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Além dos atendimentos pessoais, Brinsan promove o AfroCura, espaço de autocuidado coletivo entre o povo preto. / Juliana Cordeiro

Além das violências materiais, estruturais e históricas, o racismo também fere o campo energético do povo preto. É do entendimento desse fato, e também da vivência no próprio corpo físico, emocional, mental e espiritual, que Brinsan N’Tchalá, Raquel Messias e Kesia Souza, moradoras de regiões distintas de Curitiba, foram se aproximando dos ensinamentos e possibilidades da terapia holística, até se tornarem profissionais dessa linha, ofício reconhecido pelo Conselho de Auto Regulamentação da Terapia Holística. 

“São outras formas de se cuidar, de atentar ao ser humano. Desde pequena percebi minha sensibilidade de cura e a umbanda ajudou a entender e aprender sobre a mediunidade. Relaxar, passar por processos de autoconhecimento, é muito restrito à comunidade branca e encontrar outras mulheres negras com essa sensibilidade foi fundamental para fortalecer e aceitação desse dom. As mães de santo nos terreiros, com seus saberes ancestrais, guardam e passam esses conhecimentos pro seu povo. E, ainda assim, existe uma grande necessidade de ter outros espaços voltados para autocuidado de pessoas negras”, explica Brinsan.

Englobando atividades como acupuntura, florais, cromoterapia, massagens, fitoterapia, reflexologia, reiki, rezas, vaporizações e contatos com a natureza, a terapia holística procura compreender os fenômenos na sua totalidade e globalidade. A conexão de Kesia com essas práticas, por exemplo, veio de necessidades pessoais de fortalecimento, já que vivenciou um processo de depressão por conta de racismo na universidade: “Eu me via sem escolha, sem possibilidade, tinha que ser o produto da projeção do julgamento da sociedade. A terapia holística atua trazendo mais consciência e presença no corpo e brindando com outras possibilidades de criar realidades sem a energia da opressão, essa energia pesada que é o racismo, um rolo compressor que é desesperador”, aponta. 

Conforme explica Raquel, o ser humano é corpo, mente, espírito e emoção: “E isso é unidade dentro dos seres, por isso não tem como dissociar as experiências. Então, as terapias holísticas vão trabalhar com esse interno como um caminho de autoconhecimento, de auto-responsabilização pela própria vida. É entender que se o racismo traz feridas em diversos aspectos, não tem como a gente dissociar na terapia holística e não olhar pra isso. Mas isso é um princípio do terapeuta de ampliar esse olhar e acolher essa realidade que é o racismo e suas inúmeras feridas que causam, nem todos tem essa sensibilidade”.

Conhecimento ancestral 

Conforme explicam as três terapeutas, os estudos da física quântica são a tradução científica das bases das terapias holísticas, mas essas práticas já têm muita história: “Hoje em dia já temos esse conhecimento organizado, mas é importante ressaltar que essas curas e todo pensar do ser integral é estudado há milhares de anos por várias sociedades como Maias, Incas, Iorubás e Indianos. O saber ocidental branco é das piores coisas que esse etnocentrismo fez quando separa o ser da matéria, do espírito, do holístico”, reflete Brinsan. 

“Trata-se de oferecer ferramentas e saberes ancestrais para as pessoas, para que o racismo machuque cada vez menos, para que possam estar à frente da própria vida. Que o racismo vá diminuindo e a nossa potência quanto mulher negra possa vir à tona e ser mostrada no mundo de diversas formas”, complementa Kesia. Raquel salienta outro ponto de partida: aprender a ser acolhidas: “Nós, mulheres negras, estamos sempre no embate e, às vezes, a gente se depara com bloqueios internos de receber. Então as terapias holísticas também focam nisso, de se sentir merecedora de receber carinho, receber amor, receber curas”. 

 

 

Edição: Frédi Vasconcelos