Entreguismo

Gestão de Castello Branco na Petrobras deve manter em alta o preço do combustível

Escolhido para a presidência da estatal apoia medidas de Temer e declarou que pode haver redução do setor de refino

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Castello Branco é alinhado à Escola de Chicago, de pensamento neoliberal / EVARISTO SA / AFP

A partir de janeiro de 2019, Roberto Castello Branco será o novo presidente da Petrobras. O nome do economista foi indicado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) nesta segunda-feira (19) e dá indícios de uma gestão ainda mais aberta ao mercado internacional.

Petroleiros e integrantes de movimentos que atuam na área energética afirmam que Castello Branco vai aprofundar a política de desestatização e entrega dos recursos naturais que teve início com o governo de Michel Temer (MDB).

O novo presidente da estatal afirmou, em entrevista à Folha de S. Paulo, que a privatização da estatal "não está em questão" e que não prevê "nenhuma guinada espetacular" na política da companhia. No entanto, Castello Branco publicou em julho deste ano, no mesmo jornal, um artigo em que defendeu a privatização.

Alexandre Finamori, diretor do Sindicato Unificado dos Petroleiros em Minas Gerais e da Federação Única dos Petroleiros (FUP), pontua que não serão necessárias mudanças ou guinadas porque já houve uma mudança na política da estatal após o golpe que levou Temer à presidência.

"Apesar de ele ter dado a entrevista falando que não prevê a privatização da Petrobras e nenhuma mudança ou guinada, isso é contraditório. Porque a guinada atual é venda de ativos com o nome de desinvestimentos, mas que é privatização — e um dos pacotes principais são as refinarias", analisa.

"Então, [sua indicação] mantém essa linha atual que já estava anteriormente com o Pedro Parente [ex-presidente da Petrobras que deixou o cargo em junho, após a greve dos caminhoneiros], depois permaneceu com Ivan Monteiro [que está hoje na presidência da companhia] e, aparentemente, se não vai dar uma guinada, ele vai manter com as privatizações, chamando de desinvestimentos ou reposicionamento — mas que, querendo ou não, é a privatização da empresa", esclarece.

Castello Branco é professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e fez pós-doutorado na Universidade de Chicago. Conhecida por disseminar a "Escola de Chicago", a instituição é um tradicional reduto de pensamento neoliberal, em defesa do livre mercado. Foi lá que o próximo ministro da Economia, Paulo Guedes, também fez doutorado.

O novo presidente da Petrobras é ex-diretor do Banco Central e da Vale. Também participou do conselho de administração da Petrobras, mas saiu do colegiado porque considerava lento o ritmo de venda de ativos na companhia.

Ele também é familiar distante de Humberto de Alencar Castello Branco, primeiro presidente militar durante a ditadura (1964-1985).

Política de preços

Castello Branco criticou a política de preços de Dilma Rousseff e defende manutenção do vínculo ao mercado internacional. "Não se vê política [de preços] para carne e para o arroz, por exemplo. Porque isso simplesmente é o mercado", afirmou o economista ao Estado de S. Paulo.

Nas gestões anteriores, o custo de venda dos produtos refinados pela Petrobras se sustentava sobre os custos nacionais de produção do petróleo, independentemente das alterações nos preços internacionais. Ou seja, mesmo que um conflito no Oriente Médio ou a cotação do dólar aumentassem o preço do barril no mercado internacional, o custo de produção da estatal não se alterava. 

Em outubro de 2016, o governo Temer passou a adotar o Preço de Paridade Internacional (PPI), ou seja, a política de acompanhar os preços do exterior.

Para Luiz Dalla Costa, da coordenação do Movimentos dos Atingidos por Barragens (MAB) e especialista no setor energético, a posse de Castello Branco representa o aprofundamento de uma política que beneficia empresas multinacionais, a maioria estrangeiras. 

Segundo ele, a manutenção da política de Temer vai afetar o bolso da população, já que a gasolina e o gás de cozinha devem permanecer em alta. 

"Se você tinha uma extraordinária produção de riquezas com a gasolina abaixo do preço, por que precisa aumentar tanto o preço do combustível? Não tem sentido nenhum. A gasolina poderia voltar a ter um preço mais barato e a Petrobras continuar lucrando para servir ao povo brasileiro, sem penalizar a população com preços altíssimos da gasolina", analisa. "Temos que ver qual o objetivo desse futuro governo. Beneficiar o povo brasileiro ou as multinacionais? Não dá para beneficiar os dois", questiona o especialista.

Alexandre Finamori explica que a política de PPI facilita a privatização das refinarias, já que, com o preço equalizado com mercado externo, quem importar derivados conseguirá vender no mercado interno com o mesmo valor.

Castello Branco também afirmou que pode haver redução da participação da Petrobras no setor de refino, e que o "coração da empresa" seria a exploração e produção. 

"Isso mostra que, apesar de ele já ter feito parte do conselho da empresa, ele não está preparado para o desafio. Porque as grandes empresas de petróleo trabalham de forma integrada. A gente sabe que o petróleo é uma commodity que tem uma variação de preço muito alta, então quando você está com o petróleo muito alto, a exploração é quem dá o lucro; quando você tem o petróleo muito baixo, é o refino que dá o lucro. Então, a empresa ter os dois braços é algo de extrema importância", pontua Finamori. 

Ele defende que os sindicatos e federações permaneçam em defesa do papel social da estatal: "O que não for dessa linha, a gente não apoiará, e faremos luta para que a Petrobras continue sendo uma empresa importante que foi no desenvolvimento da indústria brasileira e para os brasileiros".

O sindicalista também lembra que, enquanto esteve como conselheiro da Petrobras, Castello Branco defendeu defendeu o corte de direitos dos trabalhadores da estatal e criticou o modelo de partilha do pré-sal. 

Edição: Daniel Giovanaz